novembro 05, 2013

Todos nós somos especialistas em Cristo! Será?



Tudo bem, quem é que nunca se achou o cara que mais especialista em Cristo ou pelo menos melhor do que a maioria, não minta! 
Não é muito difícil conversar ou ler algumas mensagens de religiosos – cristãos é claro! – tentando dar sua opinião de como Cristo pensava, se comportava, inclusive de suas mais profundas intenções; no final das contas todos fazemos isto. Mas não é preciso muita inteligência para perceber o quanto somos infantis neste momento. Tudo bem! Eu sei que alguém vai dizer que tem o Espírito Santo, que possui a “revelação” divina diferente da dos demais, que lê e interpreta as Escrituras como ninguém, ou que ele lê as mesmas Escrituras com tamanha “simplicidade” que consegue absorver e compreender verdades bíblicas tão óbvias (?) que nós, os sabichões intelectualizados, ou não, não conseguem devido a falta de fé, de humildade ou até mesmo pela falta de conversão. Ok! Sei que alguém aí está pensando isto, mas ainda assim isto não o tira do mesmo grupo de pessoas que citei acima! Todos nós pensamos saber mais do que de fato sabemos, e isto e matéria de religião é sempre um perigo. Queremos ensinar, ajudar, exortar, apontar, criticar, o que nem nós mesmo temos a mínima ideia como de fato as coisas aconteceram. Quando se aprende sobre Cristo não só do ponto de vista teológico ou eclesiástico, mas dos outros mais diversos pontos de vista, é impossível não se surpreender com tamanha ignorância nossa.

Fato é que o cristianismo não é uma coisa uniforme como a maioria quer passar a entender no seu mundinho de Alice. E por favor, não se escandalizem comigo. Não estou dizendo que o cristianismo não possui um fundamento, um princípio, um caminho (Cristo). Estou dizendo que “nós” em nossa finita limitação não conseguimos esta absoluta compreensão. E não adianta vir com este papinho de aluno neófito de EBD, dizendo que está escrito na Bíblia e blá blá blá, pois é por esta mesma Bíblia que temos, em média, setenta mil diferentes (pasmem!) visões e interpretações de instituições "cristãs" acerca do que convém ser o cristianismo. Cada qual com sua verdade, seu dogma, suas fórmulas, etc. E pior ainda é que cada grupo ainda se sente no direito de definir quem é salvo, quem é irmão, quem é "primo", quem é desviado (?), e por aí vai.

É claro que tendemos a ter este tipo de pensamento infantil e medíocre exatamente porque lemos pouco a própria História do cristianismo. E quando digo que lemos pouco, não estou advogando aqui em favor dos intelectuais ou letrados (eles também merecem nosso respeito, apesar de muitos religiosos ainda desrespeitarem os estudiosos como se eles fossem o mal da sociedade), apenas estou dizendo que não estamos ou procuramos conhecer nossa própria história, nosso próprio passado. Muitos não conhecem nem a história do próprio país, família, estado, quanto mais do cristianismo. O cristianismo é a religião que é hoje (a segunda maior do mundo e uma das mais influentes no Ocidente até hoje) porque ela sempre se modificou. É verdade! O cristianismo, enquanto “sistema religioso” nunca foi o mesmo. Pessoas que ficam com este papinho chato de que devemos voltar à Igreja Primitiva, é gente que nem de longe tem ideia do que era a Igreja antigamente. Viver sendo perseguido, sendo um grupo minoritário (e por isso chamado de 
seita), sem força política ou econômica, quase que sem templos, sem tecnologia, sem literatura uniforme, sem perspectivas a longo prazo, etc., era algo muito complicado. Mesmo os missionários no mundo atual, os que são perseguidos, ainda estão longe daquela perseguição existente nos primeiros séculos aos cristãos na Europa e no Oriente em geral, pois ainda que hoje sejam perseguidos, hoje o cristianismo possui visibilidade política e diplomática, coisa que antes não existia. 

Logo, aqueles que dizem querer voltar para o cristianismo primitivo, são na verdade em sua maioria retóricos que não tem nem ideia das dificuldades do que seria viver naquela fase do cristianismo. E não teria lógica voltar para aquela época, pois muito do que eles sofreram (alguns até exageradamente quando iam ao martírio voluntariamente como forma de sacrifício) foi exatamente para que hoje não sofrêssemos as mesmas coisas, portanto se hoje voltássemos a sofrer tudo outra vez, então o sofrimento deles teria sido em vão. É aquele velho problema de religiosos cristãos de hoje que adoram "idolatrar" o sofrimento como uma forma de penitência, esquecendo que o sofrimento vicário de Cristo foi e é o suficiente para a vida cristã. Logo, todo e qualquer sofrimento que passemos nesta vida não pode ser “buscado” em princípio, antes deve ser apenas uma conseqüência natural da vida e não sua causa.

Sendo assim, deveríamos parar com a mania de achar que somos arautos do cristianismo. Que nossa visão é a melhor ou o mais perfeita. Tenho por mim que o cristianismo, ainda que coletivo, é acima de tudo de fórum íntimo, até porque o julgamento divino não será coletivo, mas individual. Existe sim comportamentos que fogem em muito do que entendemos ser cristianismo convencional, mas por outro lado achar que a manifestação, a ação, a simbologia e existência cristã é a mesma para todos, é de uma imbecilidade tamanha. Se o cristianismo é um apenas, na sua forma, na sua dinâmica, na sua leitura, na sua ação, então todos nós hoje estamos danados, pois não somos iguais aos primeiros cristãos.

Pare então com a mania de se achar o novo Cristo, a nova revelação, o exemplo a ser seguido, o infalível ou o espiritual. Deixe que as pessoas sejam o que elas acham que devem ser – para o bem ou para o mal – pois este é o preço da “liberdade” que nos foi dada. Cristo nos deu "espírito de liberdade" e não de prisão (Rm 8), e esta liberdade implica em escolhas certas e erradas (e normalmente mais erramos, e assim somos nós seres humanos – já diria o Ap. Paulo). Pare com este papinho de medir o cristianismo dos outros pelo seu, male male você conseguirá medir pelo de Cristo – só não se esqueça do que eu disse no início: mesmo as interpretações da “mesma” Bíblia são diversas e criou crentes diversos ao longo da História.

Então rogo por um espírito de simplicidade sim, de humildade sim, e este espírito é admitir que no final somos diferentes, que podemos aprender uns com os outros, e que mesmo estando num mesmo fundamento – Cristo – só ele é nosso avaliador e redentor via Graça e nada mais.

Pense nisto!

Fabiano Mina