outubro 09, 2013

Vaidade, você também a tem. E se disser que não tem é um mentiroso ou não é humano.



Apenas a título de informação, a imagem acima remete ao mito de Narciso, de onde surge o termo narcisismo (vaidoso), um mito grego que vale à pena ser lido para quem quiser saber mais do tema proposto aqui. Narciso se afoga ao ver sua própria imagem espelhada no rio quando ele mergulha ao tentar alcançá-la por achá-la sublime, bela, única, diferente. Moral da história: a vaidade humana é sempre um constante vazio, e que nos leva sempre mais ao fundo.
Porém não tratarei do mito, vou falar da vaidade seguindo exemplos mais contemporâneos.

Acho engraçado quando pessoas alegam não ter nenhuma vaidade. Provavelmente estas não têm o mínimo de noção, de que nós seres humanos somos um poço de vaidade. Diga-se de passagem, o único ser que é vaidoso de fato e de direito é o ser humano, pois é o único que faz da vaidade a tentativa de ser “diferente” do que realmente é, ou de perpetuar uma situação imperpetuável. A vaidade é exatamente isto: tentar ser diferente na tentativa de chamar a atenção para si, ou perpetuar determinada condição que temos, seja ela a beleza, o intelecto, o status, o poder, as aptidões, etc. Fazemos de tudo para manter certa diferença ou condição diante de outras pessoas, e isto é vaidade. A todo instante tentamos ser melhor do que os demais em nossa volta, mesmo aquele que mais nega isto.

Logo, aquele que diz não ter vaidade é o pior vaidoso de todos, pois além de não admitir tê-la, ainda tenta escondê-la inutilmente. Claro que alguns podem dizer que há a vaidade exagerada, mas aqui trato da vaidade mais fundamental do homem, aquele vaidade “ontológica” da aborda a história de Adão e Eva. Este casal (que é um protótipo da humanidade), como sabemos, recebeu uma dádiva diferente da dos outros animais: a escolha (ou livre arbítrio como alguns gostam de dizer). A escolha é para o ser humano um bem e um mal ao mesmo tempo, pois escolher implica em poder dizer não para coisas ruins, mas também não para coisas boas (e vice versa). Quando Deus estabeleceu um relacionamento com este casal, ele deu a oportunidade aos dois de fazer uma escolha: obedecer ou não a ele. E já conhecemos o desfecho, eles desobedecem a Deus.
A desobediência dos dois está ligada à vaidade deles, pois os dois desejarem ter, ou melhor “ser” aquilo que não eram nem deveriam, eles desejaram ter o “conhecimento” de Deus, portanto eles desejavam de certa forma ter aquilo que não tinham, eles desejavam isto porque o ser humano fundamentalmente é um ser que não ter “ser” (perfeição, o ser de Deus), ou seja, o ser humano é incompleto no sentido de não ser plenamente perfeito como Deus é. O ser do homem é um ser imperfeito.
Talvez você esteja pensando que Deus nos fez perfeito. Eu diria que a perfeição que temos é a perfeição como a de outros animais, ou seja, somos perfeitos no sentido de sermos exatamente o que Deus queria que fôssemos quando nos criou, mas não somos perfeitos no sentido de ter total plenitude ou ausência da falta de algo, ao contrário, nós seremos humanos temos sempre falta de algo (veja que o casal tinha falta do conhecimento que só Deus tinha, logo não somos perfeitos na mesma medida que ele é). E para piorar, somos os únicos seres que tem consciência deste tipo de falta de algo, ou seja, por termos capacidade de raciocínio, diferente dos outros animais, nós seres humanos somos os únicos que sofremos por sabermos que somos imperfeitos em relação a Deus, que temos falta de algo, que somos incompletos, que somos um ser em constante construção.

Aí é que entra a vaidade, pois a vaidade é esta tentativa de completarmos alguma coisa, de nos diferenciarmos, como disse acima.
Sendo assim, todos somos vaidosos, pois todos nós tentamos suprir esta nossa falta de várias maneiras. Quem nos alertou sobre isto foi o escritor de Eclesiastes (1:2) que disse: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” Veja que ele não diz isto ou aquilo, ele diz “tudo” é vaidade.
Quando ele diz tudo, ele não está dizendo que qualquer ação nossa é vaidade, pois dificilmente ele diria que a prática do amor é vaidade (explico mais adiante). Quando ele diz tudo é vaidade, ele está dizendo que nossas ações partem sempre de um “ser” (o homem) que por definição é vaidoso (que está tentando sempre suprir sua insuficiência enquanto um ser imperfeito que é). Nós somos a própria vaidade.

Isto piora muito quando tentamos camuflar nossa vaidade ou a ignoramos. Ex: pessoas consideradas humildes normalmente não se consideram vaidosas, mas grande parte das vezes essas pessoas estão usando a própria humildade como forma de vaidade, ou seja, elas fazem da humildade não uma virtude no sentido de valor moral bom, mas uma forma de se diferenciar dos demais, alegando certo ar de superioridade diante as outras (mesmo que não demonstre), e isto é vaidade.
Outras gostam de destilar sua intelectualidade dizendo que estão querendo ajudar ou ensinar (meu caso agora), quando no fundo querem apenas mostrar que conhecem mais do que os outros supostos ignorantes. Alguns que vão à academia dizendo que é por causa da saúde, quando querem na verdade um corpo bonito. Outros dizem que precisam de um carro como transporte, mas compram o mais bonito que o dinheiro puder pagar. Mulheres que se cuidam dizendo que é para se sentir bem, mas querem a atenção dos outros. Outros falam de Deus a todo instante, recitam versos bíblicos a todo o momento, rezam ou oram sempre diante de outros, passam sempre certa imagem de um “ser espiritual” diferenciado, quando no fundo estão apenas querendo provar que são mais espirituais do que os outros pobres mortais. Alguns adoram dizer que estão cantando ou adorando a Deus, que louvam a ele e sua glória, e preferem sempre fazer isto em público, com platéia, pois no fundo querem mostrar o quanto cantam bem, o quanto são melhores do que outros que cantam mal. Outros ajudam a tudo e a todos, menos a ele mesmo, dizendo que prefere sofrer (?) a ter que ver outros sofrerem, mas no fundo querem apenas uma bom tapinha nas costas e a fama de mártir. Outros adoram dizer que são perfeccionistas, exemplares, cuidadosos, mas no fundo querem apenas dizer e mostrar que são melhores do que os outros para chamar a atenção para si mesmos, dizendo que só eles são capazes para determinadas tarefas. Alguns preferem o silêncio, ficar quietos, dificilmente emitir uma opinião, mas consigo mesmo estão sempre dizendo que são melhores do que os demais que falam bobagens ou muito. Por incrível que pareça, até pessoas que verborragiam a todo instante a palavra amor, no fundo querem apenas dizer para as outras que elas amam mais, que sabem amar mais e melhor do que os outros.

Há muitos exemplos dos quais eu poderia citar aqui, e que o autor de Eclesiastes alerta ao informar que mesmo aquelas ações que nos parecem boas aos olhos, na verdade são manifestações da nossa vaidade, da nossa tentativa de ser o que não somos (ser perfeito), de esconder nossas mazelas, nossas imperfeições, nossas limitações.
É isto que muitos – inclusive religiosos – não querem entender ou admitir (e se escondem em suas regras), de que somos vaidosos por natureza, que nosso instinto ainda é o mesmo da do casal Adão e Eva, de que estamos sempre querendo ser mais, diferente, melhor do que os outros, e para isto usamos o subterfúgio chamado vaidade, afinal de contas tudo é vaidade.

Neste momento talvez você esteja decepcionado se achando a pior pessoa do mundo ou irredutivelmente contrário a minha opinião, tudo bem! A escolha continua sendo sua. Mas dizer que tudo o que fazemos é vaidade, e o é porque esta é nossa essência, realmente é algo que não verificamos nos outros e em nós mesmos? Realmente você não é vaidoso e eu estou aqui falando bobagem? Faça uma sincera análise em você e no mundo, e veja se de fato não é a vaidade o que impera em nós e nos outros. Veja cada ação, cada atitude, cada discurso, mesmo daquele que nos aparenta ser o mais sóbrio, humilde, espiritual, e mesmo assim verá um poço enorme de vaidade nos mesmos.
Então você talvez pense: não há então ação, boa, não há nada de justo, humilde, sincero que possamos fazer!? Eu diria: sim, há! Porém quando (e nas raras exceções) conseguimos agir de alguma forma que não seja a vaidade a nossa motivação, isto se chama “milagre”, e este milagre só ocorre quando somos agraciados por Deus, ou seja, só ocorre quando ele manifesta sua (não a nossa) Graça sobre nós. É Deus quem nos dá condições de agir de forma única, sincera, justa, amorosa, não somos nós. O máximo que podemos fazer é assumir que somos sim um poço de vaidade, tentar ao máximo nos prepararmos para sermos um canal (alguns chamam de instrumento ou de vaso), e quando Deus quiser, e só quando ele quiser, então agirá através de nós manifestando sua Graça. Assim devemos entender que somos vaidosos, e que 99% do tempo estamos apenas manifestando vaidade porque é isto o que somos no fundo, e que este 1% que resta é o milagre de Deus por meio de sua Graça, e é por isso que todo o ser humano que de fato é ou quer ser humilde, é aquele que admite que é vaidoso em sua natureza e que só Deus quebra esta natureza, só ele faz quando quer com quem quer.

Então não se engane, não olhe para as pessoas, ou para si, achando que aquela mais singela não é vaidosa. Todos somos.
Eu sou, e você? Pense nisto!

Fabiano Mina