outubro 03, 2013

Escolhi não ter medo. Então que venha a morte!





Fiquem tranquilos, não sou nenhum suicida, pelo menos não no sentido convencional!
  
Para quem gosta de filmes de ficção científica, como eu, sugiro o filme Depois da Terra (After Earth). O filme, que não é lá dos melhores filmes que já vi de ficção, porém traz uma boa dose de ação, suspense e até mesmo um pouco de reflexão (pasmem!). Ele aborda o relacionamento entre pai (interpretado por Will Smith) e filho (Jaden Smith, seu filho), onde neste relacionamento há certo incômodo entre os dois, uma vez que o pai exige que o filho seja um futuro soldado, o melhor deles (mesmo tratando o filho com certa distância), e por sua vez o filho tenta provar ao pai que pode, inclusive, ser melhor do que ele foi enquanto soldado.
Daí no desenrolar do filme (e aí não vou contar para não perder a graça), há a luta interna do pai para confiar no filho, e do filho em aprender a lutar contra seus próprios medos. E é exatamente sobre isto que quero falar, o medo. Em uma das falas no filme, quando o pai está ensinando o filho sobre como ser um soldado especial, o pai diz ao filho: “o medo não existe, é apenas uma coisa fabricada em nossas mentes, pois temos medo daquilo que ainda não existe, e se não existe então ter medo é uma escolha, e eu escolhi não ter medo”.

Neste ponto o pai e soldado Cypher (Will) ensinava a  seu filho Kitai (Jaden) a não negar o perigo, pois ao contrário do medo, o perigo é sim uma coisa real; por outro lado o medo, este sim, deve ser negado; o medo é sempre a forma como enxergamos ou tentamos prever o futuro ruim, logo se conseguirmos escolher não ter medo, então conseguiremos avançar na vida e tomar as necessárias decisões. E digo necessárias porque o medo nos leva a tomar outras desnecessárias.

É este – e talvez apenas este – o ponto alto do filme no que diz respeito algum tipo de reflexão que se possa tirar dele, o restante é só tiro, sangue, correria e tudo de bom que um filme de ficção hollywoodiano deve ter. Sendo assim, tive este insight para escrever este texto. E de alguma forma eu concordo que o que nos incomoda no fundo não é apenas o dia de amanhã – por mais concreto que ele nos pareça –, o que nos incomoda na vida é não saber exatamente o que ocorrerá depois desta vida, na morte, e a caminhada que levamos em direção a ela nesta vida.

Não duvido que neste momento muitos religiosos estejam afirmando de “pé junto” que sabem ou têm certeza o que o ocorrerá com eles após a morte. Mas para qualquer um, mesmo religioso, ao ser sincero consigo, sabe que não tem nem 1% de ideia do que será exatamente sua vida após morte. Pode até ser que ele creia em céu ou inferno, em vida cíclica, em Nirvana, em carma, etc., mas no fundo nenhum de nós tem total conhecimento do que é a morte e suas consequências (e por favor, não venha citar livros como Apocalipse para dar sua tese do que será a vida pós morte, isto é coisa para jardim de infância de Escola Bíblica). Não é de se espantar que grande parte das religiões tentam abordar seus fiéis a partir do tema morte.
Exatamente por não sabermos disto, da pós morte, é que criamos ao longo da História uma série de explicações, símbolos, metáforas, etc., do que acontecerá conosco após esta vida. Então somos tomados muitas vezes por um medo constante, e de tão constante se torna comum, passa a fazer parte do nosso dia a dia imperceptivelmente. Temos medo do que ainda nos é desconhecido, estranho, misterioso, e este medo muitas vezes nos é paralisante, destruidor, sufocante.

Onde quero chegar com isto é dizer que a maioria das pessoas por ter medo, receio, desconfiança da vida depois da morte, vive esta vida inventando situações, manias, rituais, mandingas, superstições, credos, regras, dogmas, etc., na esperança de livrá-las de algum fim trágico que a morte supostamente traz. Grande parte dos religiosos na verdade não está seguindo exatamente a Deus (ou um deus), antes está negociando sua estada após a morte. Quando alguém fala de inferno, 99% das vezes tem tamanho medo que até pronunciar a palavra lhe causa terror. Falar de inferno a grande parte das vezes é utilizado apenas para reforçar o medo das pessoas, mesmo elas não tendo nenhuma noção do que seja inferno (ou céu).
Em outros casos as pessoas usam o nome de Deus para controlar outras pessoas, colocando medo nelas ao falar do tal Juízo Final que recairá sobre elas caso não façam isto ou aquilo que determinada instituição religiosa diz ser o certo e errado, mesmo que esta instituição e seus regradores não tenham a mínima ideia do que seja o céu ou inferno, muito menos os intentos eternos de Deus.

Assim grande parte das pessoas, religiosas ou não, vivem um medo constante, seja no relacionamento com Deus, seja no seu dia a dia. As pessoas vivem submersas no medo. Elas cantam para afastar o medo (já ouviram esta?), elas rezam por medo, elas vão a templos por medo, elas ofertam por medo, elas ajudam por medo, elas estendem a mão ao próximo por medo, elas agradecem a Deus por medo, elas até mesmo amam (?) por medo.
O que posso dizer, parafraseando o filme, é que o medo pode ser uma escolha para sua vida, e eu escolho não ter medo (mesmo quando ainda tenho). Não falo do medo biológico que nos toma quando estamos em perigo “real”; estou dizendo do medo do amanhã, o medo do desconhecido, o medo do misterioso, o medo da morte e suas consequências, o medo que nos paralisa, que nos manipula, que nos diminui, que nos afasta. Este tipo de medo eu não escolho para minha vida, ainda que o foco do mundo, mesmo dos religiosos, seja pautado no discurso do medo.

Usando uma passagem do grande Mestre Jesus, ele diz em Marcos 5: 36 “E Jesus, tendo ouvido estas palavras, disse ao principal da sinagoga: Não temas, crê somente.” Era para um religioso de sua época (Jairo, v. 22), da sinagoga - portanto defensor das leis e regras -, que tinha sua filha como morta (Talita, v. 41), mas ao buscar por Jesus teve como primeiro ensinamento – DEIXE DE TER MEDO, pois o que crê é aquele que perde o medo para sempre, e nunca mais será manipulado, nem mesmo pelo medo da morte. O problema maior não era a morte, mas o medo daquele soldade. 
Ao encontrar-se com a menina, Jesus pede a presença apenas dos pais, e após ter dito que a menina apenas “dormia”, Jesus ressuscita-a. Alguns talvez percam tempo com querelas a fim de debater se a menina estava mesmo morta ou não, e qual o tipo de milagre que Jesus havia feito. Na minha opinião isto é perda de tempo, pois Jesus ressuscitou outros (como Lázaro). O caso ali não é se Jesus apenas curou a menina de uma doença que aparentava a morte ou se ele trouxe vida a ela. Fato é que Jesus tinha condições de fazer qualquer milagre que fosse. Logo, recai a atenção para a frase imperativa dele ao religioso da sinagoga: “...não temas...”.
É isto que Jesus quer mostrar, que o problema não era em ele fazer o milagre que fosse, mas em espantar o medo daquele religioso. E veja que interessante, que o medo do desconhecido cauteriza tanto nossos pensamentos, que Jesus ao tratar aquele problema apenas como um sono (disse que a menina "dormia") arrancou risadas do que estavam em sua volta. Tem horas que o medo se torna tão comum em nós, que ao ver outra pessoa (no caso Jesus) tratando o medo de forma tão banal (sono), nós ridicularizamos, quando nós em quem somos os ridículos por vivermos em constante medo dela - da morte.

É o medo que paralisa, é o medo que arranca a fé, é o medo que nos deixa ser manipulados, é o medo que não nos permite ver possibilidades, é o medo que diminuiu a visão da Graça divina, é o medo que cria pecado ou não há pecado, é o medo que elimina a prática da misericórdia, da bondade e da justiça, é o medo que nos afasta de tudo e de todos, inclusive de Deus.

Aos terroristas das almas eu digo: com licença, mas eu não tenho mais medo.
E você? Pense nisto!
Att.


Fabiano Mina