outubro 14, 2013

Criança: é ser humilde. Adulto: é não ser mau caráter!




O monopólio do saber é uma das armas mais antigas na sociedade, pois manipular o saber permite com que poucos controlem os outros muitos de suas espécie. É assim que os seres humanos se sobressaem uns sobre os outros, e é esta a nossa forma de "seleção das espécies" atual, ou seja, os mais fortes ou adaptados manipulam os menos adaptados (fazendo alusão a Darwin). Alguns pensadores já nos alertavam sobre isto, desde Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Kierkegaard, Nietzsche, Bonhoeffer, Freud, Karl Barth e outros. Estes já nos alertavam sobre a alienação, como diria Marx, que permite a manipulação, e veja que estes pensadores em muito já possuem boa parte de suas teses, filosóficas ou teológicas, superadas hoje.
Mesmo assim, nestes tempos a manipulação do conhecimento permanece viva como nunca, paradoxalmente ao avanço tecnológico que nos permite muito maior acesso ao conhecimento.

Antes de prosseguir quero contar um fato pessoal. Um dia destes, meu filho (de 5 anos) perguntou para minha esposa: “mãe, seja sincera, a Fada dos Dentes existe”? Minha esposa constrangida, compelida  à sinceridade disse que ela não, não existia. Seguida desta pergunta, meu filho acabou perguntando sobre ouros ilustres personagens como o Papai Noel e Coelho da Páscoa, dentre outros, e a resposta foi a mesma. Ao contar para mim, para surpresa minha, a decepção do meu filho não foi por perder aquelas “fantasias”, que na minha infância aguçava minha criatividade lúdica, antes sua frustração foi: “então quer dizer que não teremos mais festas e feriados”? Meu filho não é o mesmo que eu fui, e este felizmente (ou não) é o curso natural, pois a humanidade sempre mudou sua forma de pensamento.

Veja que interessante, há anos atrás seria praticamente um sacrilégio os pais serem sinceros com seus filhos, e admitirem que contos de fadas, histórias de crianças, personagens infantis, não passam de histórias lúdicas e criativas. Não que estas histórias não devam continuar sendo contadas para aqueles que as encaram com alguma função pedagógica, eu apenas retrato este caso com meu filho para mostrar que os tempos são outros, que as coisas mudam, que o conhecimento não pára e que nem sempre quebrar crenças antigas significa decepção, e que não devemos subestimar a capacidade de crescimento e entendimento dos outros, mesmo das crianças.

Talvez alguns entendam isto como ruim, como certa aceleração da infância ou coisa parecida, mas devo lembrar que histórias infantis são invenções recentes na humanidade, melhor dizendo, estas histórias foram inventadas bem depois que a sociedade já existia, Papai Noel, p. ex., é coisa da Idade Média. Se na Idade Antiga as crenças eram os mitos (como os mitos gregos, os nórdicos, os egípcios, etc.), já no final da Renascença e nas portas da Modernidade, os mitos dão lugar para estes contos, estas fábulas, e assim se seguiu até pouco tempo atrás.
Mesmo existindo mitos e fábulas, ao contrário de hoje, as crianças antigamente eram colocadas rapidamente em contato com a vida real. Os próprios gregos já passavam a ensinar seus filhos aos sete anos de idade qual o caminho que deveriam seguir na fase adulta, e para isto praticavam um ritual de iniciação chegando a colocar algumas para caçar animais selvagens. O mesmo ocorria com os hebreus, que já levavam seus filhos, ainda pequenos, para trabalhar no campo.

Com isto, o que quero dizer é que a ideia de que as crianças de hoje aceleram sua fase adulta ou estão perdendo sua fase lúdica rápido demais, não confere muito bem com a história antiga (e aqui sem fazer nenhum juízo de valor acerca disto), o máximo que podemos alegar é que as histórias que eram contadas há uma ou duas gerações, como na minha, não surtem mais o mesmo resultado e dão lugar para outras formas lúdicas.

Em se tratando dos adultos, isto deveria ser visto positivamente. Apesar de Cristo nos Evangelhos nos orientar a sermos como crianças, ele estava dizendo especificamente em relação à “humildade”, e não a toda e qualquer conduta. Cristo estava dando uma resposta aos discípulos preocupados com a disputa entre si do que com a finalidade do Evangelho. Não é que crianças não disputem entre si (quem tem filhos sabe disto, e eu como professor sempre vejo isto na escola), é que a finalidade delas não é a disputa em si, mas o próprio jogo ou o prêmio. Logo, o Evangelho é que deve ser a finalidade, e não a disputa pessoal entre os discípulos que queriam saber quem era “o maior” (Mt 18:1).

Isto fica mais evidente na fala do apóstolo Paulo quando diz: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (I Coríntios 13:11). Paulo está criticando a conduta de alguns religiosos de sua época, que se comportavam ainda como crianças (“meninos”), logo, neste caso, criança aqui é colocado de forma pejorativa, e Paulo segue esta toada desde o início da carta aos coríntios até o fim (I Cor 3:1; 14:20). Esta crítica, a ser "criança", segue-se em outros textos (Ef 4:14, Gl 4:1-3). 
Veja então que ao adulto o que se pede é a humildade da criança e não permanecer criança, pois o adulto não deve ser levado pela consciência dos outros e, aqui para esta reflexão, não deve ficar preso a ilusões, a contos, a um conhecimento distorcido da realidade.

O problema é que, mesmo passado tantos anos, com o conhecimento (o bom) cada vez mais avançado, o entendimento mais aguçado, a reflexão cada vez mais exigida, ainda queremos ser crianças. Nos esforçamos pouco para deixarmos o estado infantil, seja no nosso dia a dia, seja no trato com a crença, com a religiosidade, com a divindade; e isto tem dois motivos básicos: 1) o primeiro é que a criança normalmente não quer enfrentar seus medos, o diferente, a realidade, pois a fantasia de uma forma ou de outra ameniza a dureza da vida, da realidade; 2) outro motivo é que manter adultos como crianças é mais fácil para manipulá-los, logo os líderes em geral (pelo menos os que deixaram de ser criança), mesmo quando acessam ao conhecimento maduro, mesmo quando descartam para si mesmos as fábulas, os mitos, os contos, as distorções, continuam covardemente escondendo este conhecimento dos outros, ou por subestimar a capacidade alheia em lidar com a realidade, ou por mau-caratismo mesmo (e desconfio que este último é o mais recorrente).

O mesmo serve para líderes religiosos, que devem acima de tudo ser honestos. Um líder não deve impedir ou ignorar o fato de que o mundo muda, que o conhecimento avança, que a reflexão e a crítica também fazem parte do universo religioso (e não só científico). A alienação religiosa sempre foi um problema e a História nos mostrou isto dolorosamente. Logo, o argumento religioso de que o conhecimento “mata”(?) ou desvia é o uso mais antigo e ridículo utilizado para manipular pessoas. Não é (não deveria) a função de um líder religioso legislar sobre a consciência dos outros, mas infelizmente não é o que vemos na mídia religiosa, nos templos religiosos, nos materiais escritos, etc. Já dizia o importante sociólogo Max Weber (um religioso diga-se de passagem) que religiosos manipulam facilmente aqueles que não possuem sua própria racionalidade. Immanuel Kant (outro religioso), filósofo importante na modernidade, já dizia que só nos tornamos adultos quando nos emancipamos, ou seja, quando pensamos por nossa própria conta e assumimos nossas escolhas. Mas como foi mostrado acima, o próprio apóstolo Paulo já indicava isto bem antes, de que deve haver um momento em que devemos deixar de sermos crianças para nosso próprio bem e para o bem das nossas instituições.

Um dos grandes avanços da Reforma Protestante (bem antes, com o protestantismo clássico) é o fato de assumirmos a responsabilidade de legislar sobre nossa própria consciência religiosa, sobre nossas crenças, sobre nossas escolhas, e isto deveria ser inalienável (in-alievável = não terceirizar ou não dar a outros sua capacidade crítica ou de escolha pessoal consciente).
Porém, o mau-caratismo religioso é um fato em pleno século XXI. Líderes fingem que o conhecimento não avançou, que não há novas formas de entendimento bíblico (que na verdade sempre ocorreu desde que a Bíblia existe). Ignoram que a ciência deve ser nossa auxiliadora no conhecimento humano e na do mundo e não nossa inimiga, que os dogmas devem ser revistos sempre, pois eles, ainda que fundamentados nas Escrituras (ou outros livros sagrados), são passíveis de erros, pois dependem sempre, em última instância, do nosso crivo, da nossa interpretação, seja da ordem filosófica ou experiencial. É ridículo quando líderes ignoram o conhecimento psicológico, antropológico, sociológico, filosófico, neuronal, genético, histórico crítico, também o da física, o da biologia, dentre tantos outros. Para algumas instituições religiosas ainda é sacrilégio tocar em temas deste tipo ou buscar um suporte de conhecimento teológico junto a estas outras áreas de conhecimento. Eu como mestre em Ciências da Religião e formado em Filosofia (me desculpem o pedantismo) não posso compactuar com isto, pois é fundamental na minha área manter constante atenção aos fundamentos religiosos (inclusive o meu) e ao mesmo tempo dialogar com o conhecimento novo que surge e nos alerta sobre antigos erros. 
Não significa que cientistas, céticos, ateus, agnósticos, pós-modernos, e tantos outros que se auto-intitulam os mais "adaptados" de fato sejam, estes também podem se tornar maus-caráter quando manipulam o conhecimento em favor próprio, inclusive quando fazem críticas ridículas à crença alheia. O problema é que  o mau-caráter religioso faz mau duas vezes (à razão e à alma). Não à toa Cristo brigou mais com os religiosos de sua época do que com qualquer outro por causa da manipulação religiosa.

Enfim, o mau-caratismo continua sendo uma toada em nosso meio religioso ocidental, principalmente em se tratando de Brasil. Ainda há um longa caminhada para deixarmos de sermos crianças e nos tornamos adultos aqui em nossos templos religiosos, e pararmos de brincar com contos de fadas, de ensinar um Deus de fantasias, e então colocá-lo em seu devido lugar: em diálogo com a realidade nua e crua e com o conhecimento vigente.
Eh! Tem vezes que eu acho que meu filho é mais adulto do que muitos por aí, ainda que ele seja ainda uma criança.
Pense nisto!

Fabiano Mina