outubro 14, 2013

Criança: é ser humilde. Adulto: é não ser mau caráter!




O monopólio do saber é uma das armas mais antigas na sociedade, pois manipular o saber permite com que poucos controlem os outros muitos de suas espécie. É assim que os seres humanos se sobressaem uns sobre os outros, e é esta a nossa forma de "seleção das espécies" atual, ou seja, os mais fortes ou adaptados manipulam os menos adaptados (fazendo alusão a Darwin). Alguns pensadores já nos alertavam sobre isto, desde Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Kierkegaard, Nietzsche, Bonhoeffer, Freud, Karl Barth e outros. Estes já nos alertavam sobre a alienação, como diria Marx, que permite a manipulação, e veja que estes pensadores em muito já possuem boa parte de suas teses, filosóficas ou teológicas, superadas hoje.
Mesmo assim, nestes tempos a manipulação do conhecimento permanece viva como nunca, paradoxalmente ao avanço tecnológico que nos permite muito maior acesso ao conhecimento.

Antes de prosseguir quero contar um fato pessoal. Um dia destes, meu filho (de 5 anos) perguntou para minha esposa: “mãe, seja sincera, a Fada dos Dentes existe”? Minha esposa constrangida, compelida  à sinceridade disse que ela não, não existia. Seguida desta pergunta, meu filho acabou perguntando sobre ouros ilustres personagens como o Papai Noel e Coelho da Páscoa, dentre outros, e a resposta foi a mesma. Ao contar para mim, para surpresa minha, a decepção do meu filho não foi por perder aquelas “fantasias”, que na minha infância aguçava minha criatividade lúdica, antes sua frustração foi: “então quer dizer que não teremos mais festas e feriados”? Meu filho não é o mesmo que eu fui, e este felizmente (ou não) é o curso natural, pois a humanidade sempre mudou sua forma de pensamento.

Veja que interessante, há anos atrás seria praticamente um sacrilégio os pais serem sinceros com seus filhos, e admitirem que contos de fadas, histórias de crianças, personagens infantis, não passam de histórias lúdicas e criativas. Não que estas histórias não devam continuar sendo contadas para aqueles que as encaram com alguma função pedagógica, eu apenas retrato este caso com meu filho para mostrar que os tempos são outros, que as coisas mudam, que o conhecimento não pára e que nem sempre quebrar crenças antigas significa decepção, e que não devemos subestimar a capacidade de crescimento e entendimento dos outros, mesmo das crianças.

Talvez alguns entendam isto como ruim, como certa aceleração da infância ou coisa parecida, mas devo lembrar que histórias infantis são invenções recentes na humanidade, melhor dizendo, estas histórias foram inventadas bem depois que a sociedade já existia, Papai Noel, p. ex., é coisa da Idade Média. Se na Idade Antiga as crenças eram os mitos (como os mitos gregos, os nórdicos, os egípcios, etc.), já no final da Renascença e nas portas da Modernidade, os mitos dão lugar para estes contos, estas fábulas, e assim se seguiu até pouco tempo atrás.
Mesmo existindo mitos e fábulas, ao contrário de hoje, as crianças antigamente eram colocadas rapidamente em contato com a vida real. Os próprios gregos já passavam a ensinar seus filhos aos sete anos de idade qual o caminho que deveriam seguir na fase adulta, e para isto praticavam um ritual de iniciação chegando a colocar algumas para caçar animais selvagens. O mesmo ocorria com os hebreus, que já levavam seus filhos, ainda pequenos, para trabalhar no campo.

Com isto, o que quero dizer é que a ideia de que as crianças de hoje aceleram sua fase adulta ou estão perdendo sua fase lúdica rápido demais, não confere muito bem com a história antiga (e aqui sem fazer nenhum juízo de valor acerca disto), o máximo que podemos alegar é que as histórias que eram contadas há uma ou duas gerações, como na minha, não surtem mais o mesmo resultado e dão lugar para outras formas lúdicas.

Em se tratando dos adultos, isto deveria ser visto positivamente. Apesar de Cristo nos Evangelhos nos orientar a sermos como crianças, ele estava dizendo especificamente em relação à “humildade”, e não a toda e qualquer conduta. Cristo estava dando uma resposta aos discípulos preocupados com a disputa entre si do que com a finalidade do Evangelho. Não é que crianças não disputem entre si (quem tem filhos sabe disto, e eu como professor sempre vejo isto na escola), é que a finalidade delas não é a disputa em si, mas o próprio jogo ou o prêmio. Logo, o Evangelho é que deve ser a finalidade, e não a disputa pessoal entre os discípulos que queriam saber quem era “o maior” (Mt 18:1).

Isto fica mais evidente na fala do apóstolo Paulo quando diz: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (I Coríntios 13:11). Paulo está criticando a conduta de alguns religiosos de sua época, que se comportavam ainda como crianças (“meninos”), logo, neste caso, criança aqui é colocado de forma pejorativa, e Paulo segue esta toada desde o início da carta aos coríntios até o fim (I Cor 3:1; 14:20). Esta crítica, a ser "criança", segue-se em outros textos (Ef 4:14, Gl 4:1-3). 
Veja então que ao adulto o que se pede é a humildade da criança e não permanecer criança, pois o adulto não deve ser levado pela consciência dos outros e, aqui para esta reflexão, não deve ficar preso a ilusões, a contos, a um conhecimento distorcido da realidade.

O problema é que, mesmo passado tantos anos, com o conhecimento (o bom) cada vez mais avançado, o entendimento mais aguçado, a reflexão cada vez mais exigida, ainda queremos ser crianças. Nos esforçamos pouco para deixarmos o estado infantil, seja no nosso dia a dia, seja no trato com a crença, com a religiosidade, com a divindade; e isto tem dois motivos básicos: 1) o primeiro é que a criança normalmente não quer enfrentar seus medos, o diferente, a realidade, pois a fantasia de uma forma ou de outra ameniza a dureza da vida, da realidade; 2) outro motivo é que manter adultos como crianças é mais fácil para manipulá-los, logo os líderes em geral (pelo menos os que deixaram de ser criança), mesmo quando acessam ao conhecimento maduro, mesmo quando descartam para si mesmos as fábulas, os mitos, os contos, as distorções, continuam covardemente escondendo este conhecimento dos outros, ou por subestimar a capacidade alheia em lidar com a realidade, ou por mau-caratismo mesmo (e desconfio que este último é o mais recorrente).

O mesmo serve para líderes religiosos, que devem acima de tudo ser honestos. Um líder não deve impedir ou ignorar o fato de que o mundo muda, que o conhecimento avança, que a reflexão e a crítica também fazem parte do universo religioso (e não só científico). A alienação religiosa sempre foi um problema e a História nos mostrou isto dolorosamente. Logo, o argumento religioso de que o conhecimento “mata”(?) ou desvia é o uso mais antigo e ridículo utilizado para manipular pessoas. Não é (não deveria) a função de um líder religioso legislar sobre a consciência dos outros, mas infelizmente não é o que vemos na mídia religiosa, nos templos religiosos, nos materiais escritos, etc. Já dizia o importante sociólogo Max Weber (um religioso diga-se de passagem) que religiosos manipulam facilmente aqueles que não possuem sua própria racionalidade. Immanuel Kant (outro religioso), filósofo importante na modernidade, já dizia que só nos tornamos adultos quando nos emancipamos, ou seja, quando pensamos por nossa própria conta e assumimos nossas escolhas. Mas como foi mostrado acima, o próprio apóstolo Paulo já indicava isto bem antes, de que deve haver um momento em que devemos deixar de sermos crianças para nosso próprio bem e para o bem das nossas instituições.

Um dos grandes avanços da Reforma Protestante (bem antes, com o protestantismo clássico) é o fato de assumirmos a responsabilidade de legislar sobre nossa própria consciência religiosa, sobre nossas crenças, sobre nossas escolhas, e isto deveria ser inalienável (in-alievável = não terceirizar ou não dar a outros sua capacidade crítica ou de escolha pessoal consciente).
Porém, o mau-caratismo religioso é um fato em pleno século XXI. Líderes fingem que o conhecimento não avançou, que não há novas formas de entendimento bíblico (que na verdade sempre ocorreu desde que a Bíblia existe). Ignoram que a ciência deve ser nossa auxiliadora no conhecimento humano e na do mundo e não nossa inimiga, que os dogmas devem ser revistos sempre, pois eles, ainda que fundamentados nas Escrituras (ou outros livros sagrados), são passíveis de erros, pois dependem sempre, em última instância, do nosso crivo, da nossa interpretação, seja da ordem filosófica ou experiencial. É ridículo quando líderes ignoram o conhecimento psicológico, antropológico, sociológico, filosófico, neuronal, genético, histórico crítico, também o da física, o da biologia, dentre tantos outros. Para algumas instituições religiosas ainda é sacrilégio tocar em temas deste tipo ou buscar um suporte de conhecimento teológico junto a estas outras áreas de conhecimento. Eu como mestre em Ciências da Religião e formado em Filosofia (me desculpem o pedantismo) não posso compactuar com isto, pois é fundamental na minha área manter constante atenção aos fundamentos religiosos (inclusive o meu) e ao mesmo tempo dialogar com o conhecimento novo que surge e nos alerta sobre antigos erros. 
Não significa que cientistas, céticos, ateus, agnósticos, pós-modernos, e tantos outros que se auto-intitulam os mais "adaptados" de fato sejam, estes também podem se tornar maus-caráter quando manipulam o conhecimento em favor próprio, inclusive quando fazem críticas ridículas à crença alheia. O problema é que  o mau-caráter religioso faz mau duas vezes (à razão e à alma). Não à toa Cristo brigou mais com os religiosos de sua época do que com qualquer outro por causa da manipulação religiosa.

Enfim, o mau-caratismo continua sendo uma toada em nosso meio religioso ocidental, principalmente em se tratando de Brasil. Ainda há um longa caminhada para deixarmos de sermos crianças e nos tornamos adultos aqui em nossos templos religiosos, e pararmos de brincar com contos de fadas, de ensinar um Deus de fantasias, e então colocá-lo em seu devido lugar: em diálogo com a realidade nua e crua e com o conhecimento vigente.
Eh! Tem vezes que eu acho que meu filho é mais adulto do que muitos por aí, ainda que ele seja ainda uma criança.
Pense nisto!

Fabiano Mina







outubro 09, 2013

Vaidade, você também a tem. E se disser que não tem é um mentiroso ou não é humano.



Apenas a título de informação, a imagem acima remete ao mito de Narciso, de onde surge o termo narcisismo (vaidoso), um mito grego que vale à pena ser lido para quem quiser saber mais do tema proposto aqui. Narciso se afoga ao ver sua própria imagem espelhada no rio quando ele mergulha ao tentar alcançá-la por achá-la sublime, bela, única, diferente. Moral da história: a vaidade humana é sempre um constante vazio, e que nos leva sempre mais ao fundo.
Porém não tratarei do mito, vou falar da vaidade seguindo exemplos mais contemporâneos.

Acho engraçado quando pessoas alegam não ter nenhuma vaidade. Provavelmente estas não têm o mínimo de noção, de que nós seres humanos somos um poço de vaidade. Diga-se de passagem, o único ser que é vaidoso de fato e de direito é o ser humano, pois é o único que faz da vaidade a tentativa de ser “diferente” do que realmente é, ou de perpetuar uma situação imperpetuável. A vaidade é exatamente isto: tentar ser diferente na tentativa de chamar a atenção para si, ou perpetuar determinada condição que temos, seja ela a beleza, o intelecto, o status, o poder, as aptidões, etc. Fazemos de tudo para manter certa diferença ou condição diante de outras pessoas, e isto é vaidade. A todo instante tentamos ser melhor do que os demais em nossa volta, mesmo aquele que mais nega isto.

Logo, aquele que diz não ter vaidade é o pior vaidoso de todos, pois além de não admitir tê-la, ainda tenta escondê-la inutilmente. Claro que alguns podem dizer que há a vaidade exagerada, mas aqui trato da vaidade mais fundamental do homem, aquele vaidade “ontológica” da aborda a história de Adão e Eva. Este casal (que é um protótipo da humanidade), como sabemos, recebeu uma dádiva diferente da dos outros animais: a escolha (ou livre arbítrio como alguns gostam de dizer). A escolha é para o ser humano um bem e um mal ao mesmo tempo, pois escolher implica em poder dizer não para coisas ruins, mas também não para coisas boas (e vice versa). Quando Deus estabeleceu um relacionamento com este casal, ele deu a oportunidade aos dois de fazer uma escolha: obedecer ou não a ele. E já conhecemos o desfecho, eles desobedecem a Deus.
A desobediência dos dois está ligada à vaidade deles, pois os dois desejarem ter, ou melhor “ser” aquilo que não eram nem deveriam, eles desejaram ter o “conhecimento” de Deus, portanto eles desejavam de certa forma ter aquilo que não tinham, eles desejavam isto porque o ser humano fundamentalmente é um ser que não ter “ser” (perfeição, o ser de Deus), ou seja, o ser humano é incompleto no sentido de não ser plenamente perfeito como Deus é. O ser do homem é um ser imperfeito.
Talvez você esteja pensando que Deus nos fez perfeito. Eu diria que a perfeição que temos é a perfeição como a de outros animais, ou seja, somos perfeitos no sentido de sermos exatamente o que Deus queria que fôssemos quando nos criou, mas não somos perfeitos no sentido de ter total plenitude ou ausência da falta de algo, ao contrário, nós seremos humanos temos sempre falta de algo (veja que o casal tinha falta do conhecimento que só Deus tinha, logo não somos perfeitos na mesma medida que ele é). E para piorar, somos os únicos seres que tem consciência deste tipo de falta de algo, ou seja, por termos capacidade de raciocínio, diferente dos outros animais, nós seres humanos somos os únicos que sofremos por sabermos que somos imperfeitos em relação a Deus, que temos falta de algo, que somos incompletos, que somos um ser em constante construção.

Aí é que entra a vaidade, pois a vaidade é esta tentativa de completarmos alguma coisa, de nos diferenciarmos, como disse acima.
Sendo assim, todos somos vaidosos, pois todos nós tentamos suprir esta nossa falta de várias maneiras. Quem nos alertou sobre isto foi o escritor de Eclesiastes (1:2) que disse: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” Veja que ele não diz isto ou aquilo, ele diz “tudo” é vaidade.
Quando ele diz tudo, ele não está dizendo que qualquer ação nossa é vaidade, pois dificilmente ele diria que a prática do amor é vaidade (explico mais adiante). Quando ele diz tudo é vaidade, ele está dizendo que nossas ações partem sempre de um “ser” (o homem) que por definição é vaidoso (que está tentando sempre suprir sua insuficiência enquanto um ser imperfeito que é). Nós somos a própria vaidade.

Isto piora muito quando tentamos camuflar nossa vaidade ou a ignoramos. Ex: pessoas consideradas humildes normalmente não se consideram vaidosas, mas grande parte das vezes essas pessoas estão usando a própria humildade como forma de vaidade, ou seja, elas fazem da humildade não uma virtude no sentido de valor moral bom, mas uma forma de se diferenciar dos demais, alegando certo ar de superioridade diante as outras (mesmo que não demonstre), e isto é vaidade.
Outras gostam de destilar sua intelectualidade dizendo que estão querendo ajudar ou ensinar (meu caso agora), quando no fundo querem apenas mostrar que conhecem mais do que os outros supostos ignorantes. Alguns que vão à academia dizendo que é por causa da saúde, quando querem na verdade um corpo bonito. Outros dizem que precisam de um carro como transporte, mas compram o mais bonito que o dinheiro puder pagar. Mulheres que se cuidam dizendo que é para se sentir bem, mas querem a atenção dos outros. Outros falam de Deus a todo instante, recitam versos bíblicos a todo o momento, rezam ou oram sempre diante de outros, passam sempre certa imagem de um “ser espiritual” diferenciado, quando no fundo estão apenas querendo provar que são mais espirituais do que os outros pobres mortais. Alguns adoram dizer que estão cantando ou adorando a Deus, que louvam a ele e sua glória, e preferem sempre fazer isto em público, com platéia, pois no fundo querem mostrar o quanto cantam bem, o quanto são melhores do que outros que cantam mal. Outros ajudam a tudo e a todos, menos a ele mesmo, dizendo que prefere sofrer (?) a ter que ver outros sofrerem, mas no fundo querem apenas uma bom tapinha nas costas e a fama de mártir. Outros adoram dizer que são perfeccionistas, exemplares, cuidadosos, mas no fundo querem apenas dizer e mostrar que são melhores do que os outros para chamar a atenção para si mesmos, dizendo que só eles são capazes para determinadas tarefas. Alguns preferem o silêncio, ficar quietos, dificilmente emitir uma opinião, mas consigo mesmo estão sempre dizendo que são melhores do que os demais que falam bobagens ou muito. Por incrível que pareça, até pessoas que verborragiam a todo instante a palavra amor, no fundo querem apenas dizer para as outras que elas amam mais, que sabem amar mais e melhor do que os outros.

Há muitos exemplos dos quais eu poderia citar aqui, e que o autor de Eclesiastes alerta ao informar que mesmo aquelas ações que nos parecem boas aos olhos, na verdade são manifestações da nossa vaidade, da nossa tentativa de ser o que não somos (ser perfeito), de esconder nossas mazelas, nossas imperfeições, nossas limitações.
É isto que muitos – inclusive religiosos – não querem entender ou admitir (e se escondem em suas regras), de que somos vaidosos por natureza, que nosso instinto ainda é o mesmo da do casal Adão e Eva, de que estamos sempre querendo ser mais, diferente, melhor do que os outros, e para isto usamos o subterfúgio chamado vaidade, afinal de contas tudo é vaidade.

Neste momento talvez você esteja decepcionado se achando a pior pessoa do mundo ou irredutivelmente contrário a minha opinião, tudo bem! A escolha continua sendo sua. Mas dizer que tudo o que fazemos é vaidade, e o é porque esta é nossa essência, realmente é algo que não verificamos nos outros e em nós mesmos? Realmente você não é vaidoso e eu estou aqui falando bobagem? Faça uma sincera análise em você e no mundo, e veja se de fato não é a vaidade o que impera em nós e nos outros. Veja cada ação, cada atitude, cada discurso, mesmo daquele que nos aparenta ser o mais sóbrio, humilde, espiritual, e mesmo assim verá um poço enorme de vaidade nos mesmos.
Então você talvez pense: não há então ação, boa, não há nada de justo, humilde, sincero que possamos fazer!? Eu diria: sim, há! Porém quando (e nas raras exceções) conseguimos agir de alguma forma que não seja a vaidade a nossa motivação, isto se chama “milagre”, e este milagre só ocorre quando somos agraciados por Deus, ou seja, só ocorre quando ele manifesta sua (não a nossa) Graça sobre nós. É Deus quem nos dá condições de agir de forma única, sincera, justa, amorosa, não somos nós. O máximo que podemos fazer é assumir que somos sim um poço de vaidade, tentar ao máximo nos prepararmos para sermos um canal (alguns chamam de instrumento ou de vaso), e quando Deus quiser, e só quando ele quiser, então agirá através de nós manifestando sua Graça. Assim devemos entender que somos vaidosos, e que 99% do tempo estamos apenas manifestando vaidade porque é isto o que somos no fundo, e que este 1% que resta é o milagre de Deus por meio de sua Graça, e é por isso que todo o ser humano que de fato é ou quer ser humilde, é aquele que admite que é vaidoso em sua natureza e que só Deus quebra esta natureza, só ele faz quando quer com quem quer.

Então não se engane, não olhe para as pessoas, ou para si, achando que aquela mais singela não é vaidosa. Todos somos.
Eu sou, e você? Pense nisto!

Fabiano Mina



outubro 03, 2013

Escolhi não ter medo. Então que venha a morte!





Fiquem tranquilos, não sou nenhum suicida, pelo menos não no sentido convencional!
  
Para quem gosta de filmes de ficção científica, como eu, sugiro o filme Depois da Terra (After Earth). O filme, que não é lá dos melhores filmes que já vi de ficção, porém traz uma boa dose de ação, suspense e até mesmo um pouco de reflexão (pasmem!). Ele aborda o relacionamento entre pai (interpretado por Will Smith) e filho (Jaden Smith, seu filho), onde neste relacionamento há certo incômodo entre os dois, uma vez que o pai exige que o filho seja um futuro soldado, o melhor deles (mesmo tratando o filho com certa distância), e por sua vez o filho tenta provar ao pai que pode, inclusive, ser melhor do que ele foi enquanto soldado.
Daí no desenrolar do filme (e aí não vou contar para não perder a graça), há a luta interna do pai para confiar no filho, e do filho em aprender a lutar contra seus próprios medos. E é exatamente sobre isto que quero falar, o medo. Em uma das falas no filme, quando o pai está ensinando o filho sobre como ser um soldado especial, o pai diz ao filho: “o medo não existe, é apenas uma coisa fabricada em nossas mentes, pois temos medo daquilo que ainda não existe, e se não existe então ter medo é uma escolha, e eu escolhi não ter medo”.

Neste ponto o pai e soldado Cypher (Will) ensinava a  seu filho Kitai (Jaden) a não negar o perigo, pois ao contrário do medo, o perigo é sim uma coisa real; por outro lado o medo, este sim, deve ser negado; o medo é sempre a forma como enxergamos ou tentamos prever o futuro ruim, logo se conseguirmos escolher não ter medo, então conseguiremos avançar na vida e tomar as necessárias decisões. E digo necessárias porque o medo nos leva a tomar outras desnecessárias.

É este – e talvez apenas este – o ponto alto do filme no que diz respeito algum tipo de reflexão que se possa tirar dele, o restante é só tiro, sangue, correria e tudo de bom que um filme de ficção hollywoodiano deve ter. Sendo assim, tive este insight para escrever este texto. E de alguma forma eu concordo que o que nos incomoda no fundo não é apenas o dia de amanhã – por mais concreto que ele nos pareça –, o que nos incomoda na vida é não saber exatamente o que ocorrerá depois desta vida, na morte, e a caminhada que levamos em direção a ela nesta vida.

Não duvido que neste momento muitos religiosos estejam afirmando de “pé junto” que sabem ou têm certeza o que o ocorrerá com eles após a morte. Mas para qualquer um, mesmo religioso, ao ser sincero consigo, sabe que não tem nem 1% de ideia do que será exatamente sua vida após morte. Pode até ser que ele creia em céu ou inferno, em vida cíclica, em Nirvana, em carma, etc., mas no fundo nenhum de nós tem total conhecimento do que é a morte e suas consequências (e por favor, não venha citar livros como Apocalipse para dar sua tese do que será a vida pós morte, isto é coisa para jardim de infância de Escola Bíblica). Não é de se espantar que grande parte das religiões tentam abordar seus fiéis a partir do tema morte.
Exatamente por não sabermos disto, da pós morte, é que criamos ao longo da História uma série de explicações, símbolos, metáforas, etc., do que acontecerá conosco após esta vida. Então somos tomados muitas vezes por um medo constante, e de tão constante se torna comum, passa a fazer parte do nosso dia a dia imperceptivelmente. Temos medo do que ainda nos é desconhecido, estranho, misterioso, e este medo muitas vezes nos é paralisante, destruidor, sufocante.

Onde quero chegar com isto é dizer que a maioria das pessoas por ter medo, receio, desconfiança da vida depois da morte, vive esta vida inventando situações, manias, rituais, mandingas, superstições, credos, regras, dogmas, etc., na esperança de livrá-las de algum fim trágico que a morte supostamente traz. Grande parte dos religiosos na verdade não está seguindo exatamente a Deus (ou um deus), antes está negociando sua estada após a morte. Quando alguém fala de inferno, 99% das vezes tem tamanho medo que até pronunciar a palavra lhe causa terror. Falar de inferno a grande parte das vezes é utilizado apenas para reforçar o medo das pessoas, mesmo elas não tendo nenhuma noção do que seja inferno (ou céu).
Em outros casos as pessoas usam o nome de Deus para controlar outras pessoas, colocando medo nelas ao falar do tal Juízo Final que recairá sobre elas caso não façam isto ou aquilo que determinada instituição religiosa diz ser o certo e errado, mesmo que esta instituição e seus regradores não tenham a mínima ideia do que seja o céu ou inferno, muito menos os intentos eternos de Deus.

Assim grande parte das pessoas, religiosas ou não, vivem um medo constante, seja no relacionamento com Deus, seja no seu dia a dia. As pessoas vivem submersas no medo. Elas cantam para afastar o medo (já ouviram esta?), elas rezam por medo, elas vão a templos por medo, elas ofertam por medo, elas ajudam por medo, elas estendem a mão ao próximo por medo, elas agradecem a Deus por medo, elas até mesmo amam (?) por medo.
O que posso dizer, parafraseando o filme, é que o medo pode ser uma escolha para sua vida, e eu escolho não ter medo (mesmo quando ainda tenho). Não falo do medo biológico que nos toma quando estamos em perigo “real”; estou dizendo do medo do amanhã, o medo do desconhecido, o medo do misterioso, o medo da morte e suas consequências, o medo que nos paralisa, que nos manipula, que nos diminui, que nos afasta. Este tipo de medo eu não escolho para minha vida, ainda que o foco do mundo, mesmo dos religiosos, seja pautado no discurso do medo.

Usando uma passagem do grande Mestre Jesus, ele diz em Marcos 5: 36 “E Jesus, tendo ouvido estas palavras, disse ao principal da sinagoga: Não temas, crê somente.” Era para um religioso de sua época (Jairo, v. 22), da sinagoga - portanto defensor das leis e regras -, que tinha sua filha como morta (Talita, v. 41), mas ao buscar por Jesus teve como primeiro ensinamento – DEIXE DE TER MEDO, pois o que crê é aquele que perde o medo para sempre, e nunca mais será manipulado, nem mesmo pelo medo da morte. O problema maior não era a morte, mas o medo daquele soldade. 
Ao encontrar-se com a menina, Jesus pede a presença apenas dos pais, e após ter dito que a menina apenas “dormia”, Jesus ressuscita-a. Alguns talvez percam tempo com querelas a fim de debater se a menina estava mesmo morta ou não, e qual o tipo de milagre que Jesus havia feito. Na minha opinião isto é perda de tempo, pois Jesus ressuscitou outros (como Lázaro). O caso ali não é se Jesus apenas curou a menina de uma doença que aparentava a morte ou se ele trouxe vida a ela. Fato é que Jesus tinha condições de fazer qualquer milagre que fosse. Logo, recai a atenção para a frase imperativa dele ao religioso da sinagoga: “...não temas...”.
É isto que Jesus quer mostrar, que o problema não era em ele fazer o milagre que fosse, mas em espantar o medo daquele religioso. E veja que interessante, que o medo do desconhecido cauteriza tanto nossos pensamentos, que Jesus ao tratar aquele problema apenas como um sono (disse que a menina "dormia") arrancou risadas do que estavam em sua volta. Tem horas que o medo se torna tão comum em nós, que ao ver outra pessoa (no caso Jesus) tratando o medo de forma tão banal (sono), nós ridicularizamos, quando nós em quem somos os ridículos por vivermos em constante medo dela - da morte.

É o medo que paralisa, é o medo que arranca a fé, é o medo que nos deixa ser manipulados, é o medo que não nos permite ver possibilidades, é o medo que diminuiu a visão da Graça divina, é o medo que cria pecado ou não há pecado, é o medo que elimina a prática da misericórdia, da bondade e da justiça, é o medo que nos afasta de tudo e de todos, inclusive de Deus.

Aos terroristas das almas eu digo: com licença, mas eu não tenho mais medo.
E você? Pense nisto!
Att.


Fabiano Mina