setembro 21, 2013

Os escolhidos por Deus I


Calma! Não irei aqui falar da velha e famigerada polêmica entre calvinistas e arminianos – apesar de, particularmente, entender que o calvinismo possui mais coerência “lógica” do que a arminiana -, pois sinceramente não acho que nenhuma dessas duas teologias dão conta do que chamamos de “revelação divina” (Escrituras). E isto por um motivo muito simples: os cristãos ortodoxos (do Oriente - Bizâncio) possuem uma crítica séria contra os cristãos latinos (Ocidente – Jerusalém), da qual partilho, ao afirmar que nós ficamos tão preocupados em tentar elaborar teses teológicas acerca de Deus, e da sua revelação, que acabamos nos distanciando dele e de sua verdade.
Confesso que tenho uma enorme tendência a concordar (ainda que em parte, afinal de contas ainda estou enraizado no ocidentalismo cristão), pois nossa teologia nada mais é do que uma cópia muito mal feita de pensadores escolásticos, como Tomás de Aquino, que tentaram de todas as maneiras harmonizar a filosofia grega com o cristianismo, afim de busca respostas conceituais para aquilo que conhecemos como revelação (as Escrituras). Esta forma de racionalizar o cristianismo pela escolástica ocorreu na Idade Média por volta do século X-XII (muito depois do nascimento do cristianismo) quando a escolástica torna-se uma forma não só apologética, mas acima de tudo sistematizada de tratar da religião cristã, quando então chega ao seu auge a partir de Tomás de Aquino, considerado por muitos o maior sistematizador das Escrituras na era cristã medieval (ao contrário do que muitos pensam Santo Agostinho, muito antes de Tomás, nunca foi um sistemático, e por isso parte da patrística). Tomás de Aquino recebe forte crítica de cristãos ortodoxos e/ou místico por ser considerado aquele que fez do cristianismo uma religião mais presa a conceitos do que à realidade e/ou vida cristã prática. A Igreja cristã ocidental até hoje sofre dos males desta forma de fazer cristianismo, que está mais preocupada com modelos do que com o conteúdo cristão.

Com isto, o cristianismo ocidental mergulhou na forma interpretativa de tratar as Escrituras, sempre ancorada na lógica aristotélica. Ou seja, significa que qualquer outra forma de compreender, lidar ou interpretar as Escrituras, que não fosse pelo escrutínio lógico-aristotélico - este encampado pelo cristianismo escolástico - era visto como erro, até mesmo como heresia. Hoje não é diferente, pois qualquer forma de pensar o cristianismo que não seja nos moldes teológicos ocidentais (ou aristotélico) é visto como uma forma espúria. Não é difícil de vermos nas igrejas protestantes e evangélicas no ocidente, mais preocupadas com modelos e formas. E acabam se tornando igrejas abstratas, que tratam o cristianismo de forma muito distante da realidade das pessoas.

Com toda esta introdução o que quero dizer é que até hoje, nós ocidentais, temos ainda a mania de tentar definir, conceituar, delimitar as ações e vontades de Deus a partir dos nossos conceitos teológicos pré-formatados. Tentamos limitar Deus aos nossos modelos racionais e dogmáticos, o que, por definição, é uma contradição – já diria os ortodoxos – pois a religião em si é antinômica em relação a qualquer sistema lógico ou racional, isto porque a religião não faria parte da via racional, mas da via intuitiva (ou mística para os ortodoxos).
O caminho para conhecer e viver Deus não seria o caminho da argumentação, mas dos sentidos (intuição, afeição, mística cristã), e por ser dos sentidos, ele é subjetivo, portanto nunca sistematizado, generalizado, universal e fixo a regras. Ao contrário da razão, os sentidos não conceituam verdades, eles apenas às vivem. Seria mais honesto da nossa parte admitirmos de uma vez por todas que Deus não está sob nosso controle conceitual, e não temo a menor ideia de como Deus lida com a humanidade a priori, ainda que haja coincidências ou aparentes manifestações que sigam algum padrão.

Ao tentarmos sistematizar as Escrituras criamos tantos modelos, regras, formatos de religião; bem como cultos, ministérios, programas, etc., achando que este é o caminho, quando na verdade estamos apenas dando sequência ao projeto tomasiano existente desde o medieval.
Com isto nos afastamos da essência "mística" (cristã ortodoxa) do que seria vivenciar a revelação divina. Tendemos a exercitar tanto nossos conceitos racionais e pragmáticos que nos afastamos do que convém ser o cristianismo na sua forma primitiva (essencial, original, pura). Mesmo aqueles que dizem estar manifestando alguma forma livre ou pura de cultuar a Deus, na verdade apenas tentam manipular a divindade ou seu poder (mesmo que inconscientemente).
É importante entender quando chamo de primitiva, não é no sentido de voltarmos às praticas arcaicas de cristianismo (sempre me soa ridículo alguém que diz querer voltar a viver num cristianismo primitivo no sentido histórico), mas primitivo no sentido de nos livramos da tentativa de criar modelos para as formas como Deus deve tratar conosco, ou se manifestar no tempo e espaço em sua Igreja.

É por este motivo que acredito que Deus continua agindo da forma que quer, como quer, com quem quer, sem nenhum tipo de modelo sistemático do qual possamos enquadrá-lo. Não são nossas orações, mantras, campanhas, insistência, reivindicações, etc., que fazem Deus agir assim ou assado, ao contrário, Deus sempre agirá de forma misteriosa, cabendo a nós apenas admitir suas ações via Graça.

É por essas e outras que entendo que Deus é quem escolhe aqueles que deverão agir em determinadas situações, seja na igreja institucional ou fora dela. Deus escolhe pessoas que possuirão uma ação diferenciada, uma condição específica, uma habilitação singular. Infelizmente muitos têm dificuldade de entender isto: que nem todos são “escolhidos” por Deus.
Como eu disse no início, não estou falando de escolha na perspectiva calvinista (apesar do princípio ser o mesmo), mas no sentido da soberania divina para toda e qualquer situação que cabe a Deus. O fato de Deus convidar “todos” (sei que há controvérsias) para a salvação, não implica que chame todos para as mesmas tarefas, ações, situações; ao passo que não dota a estes todos com as mesmas habilidades e não designa a todos estes para as mesmas tarefas e missões.
Creio piamente que há pessoas “especiais” chamadas por Deus que surgem na Terra de tempos em tempos para fazerem uma diferença de tamanho alcance que poucos conseguem alcançar as mesmas façanhas.

Não são todos “escolhidos” para enfrentar viagens, fome, dor, sofrimento, luta, desafios, etc., e ao mesmo tempo abdicar do luxo, da vida suburbana, da tecnologia, do conforto, da segurança, do salário, da família, da vida planejada, etc. Poucos são os "escolhidos" que Deus chama (como Paulo, Pedro, Davi, Moisés, Abraão, Noé...) para situações específicas que a vasta maioria resignaria. Porém, o que vejo é muita gente se achando escolhido por Deus, mas fazendo tanta besteira e atrapalhando aqueles a quem Deus realmente separou para seus desígnios misteriosos.

Grande parte dos evangélicos se acham “escolhidos”, mas está óbvio que não são em sua maioria. Eles fazem as mesmas coisas, os mesmos rituais, frequentam os mesmos lugares, repetem as mesmas frases - são em grande parte uma cópia mal feita dos modelos e formatos de cristianismo ocidental aristotelizado que se preocupam mais com forma do que com conteúdo. E só porque se esforçam para passar um ar de bons samaritanos, se intitulam diferente do resto da população, quando em grande parte fazem as mesmas ações sociais, como tantos outros religiosos, só que com um nome diferente: o de evangélicos.
Com isto não estou dizendo que estes não devam fazer suas benfeitorias, isto é salutar. O que digo é que não deveriam ser achar “os” escolhidos, pois os escolhidos são bem diferentes destes. Os escolhidos são vistos não pela forma, mas pelo conteúdo. Não por modelos, mas por ações. Não pela escolho por algo, mas pela negação de algo. Dificilmente são ovacionados pela multidão, ainda que trabalhem afinco por ele. Provavelmente não terão uma vida tranquila, formal, igual aos demais em sua volta, pois os "escolhidos" o são exatamente para viverem um vinda única - e por isso são escolhidos.

Pessoas “escolhidas” por Deus não mudam por acaso nem superficialmente, mas com profundidade. Não aceitam meias verdades, vão até o fim dela. Não medem consequências materiais, apenas as humanas. Não se prendem ao conforto, ao cotidiano, ao trabalho, à família bem planejada; ao contrário estão dispostos a arriscar todas estas coisas, inclusive a própria vida. Eles não são missionários mais longe do que são de perto. Não são pregadores formatados, mas pregadores que desformatam. Não ensinam cartilha, antes ensinam a fugir delas. Não só pregam a Cristo, mas buscam por ele e convidam os demais. Não falam de amor, eles amam. Não são amiguinhos, são verdadeiros. Não andam em bando, desmancham estes. Não se preocupam com fama, antes a repudiam. Não estão nos lugares comuns, mas nos mais estranhos e com os estranhos. Não se gabam nem alardeiam seus bons feitos, antes pedem silêncio como forma de humildade. Não querem palco, querem o chão. Não andam com os mesmos, preferem sempre os diferentes, o novo Não sentam nas primeiras fileiras, nem se dobram aos empoleirados, mas com os necessitados e famintos. Mais doam do que pedem, mais oram do que ensinam, mas ouvem do que falam, mais observam do que se apresentam. Estão sempre dispostos, prontos para a guerra, de malas prontas para recomeçar, famintos de justiça, sedentos pela misericórdia e sempre tardios ao julgamento. Não menosprezam, antes agregam, não aceitam o erro, mas principalmente o seu próprio. Estão abertos para aprender e fechados para o definitivamente definir.

Não! Os escolhidos não são uma “raça” que se acha por aí em qualquer lugar. Não é aquele simplesmente que fala ou canta bem, que é conhecido ou famoso, que tem posses ou atributos, que tem carisma ou alegria. Os escolhidos passam despercebidos em grande parte (pelo menos despercebidos dos religiosos - vide João Batista), e quando os percebemos eles já foram, porém suas heranças são marcantes e profundas, se perpetual. Aliás, o que os "escolhidos" fazem é sempre pesando na posteridade. Eles não lutam por eles, nunca em causa própria, mas pelo próximo.

Não! Os "escolhidos" não estão em qualquer banco de igreja. Não estão “batendo cartão” dominical. Não estão querendo agradar a gregos e troianos. Não pedem a palavra. Os "escolhidos", ainda que entre nós, não são como nós, pois são raros.
Sim! Estou procurando um "escolhido", talvez eu o ache por aí. Graças a Deus por eles existirem, ainda que sejam raros.


Fabiano Mina