setembro 28, 2013

Os escolhidos por Deus II




Continuando a ideia que elaborei no último texto, aqui no blog – “Os escolhidos por Deus” – em que eu fiz uma rápida comparação entre o pensamento cristão ortodoxo em relação ao cristão ocidental, para dar uma introdução ao tema central que é o fato de Deus escolher, sim, pessoas para determinadas situações – e isto simplesmente por ele ser Deus -, aproveito para continuar refletindo sob a questão dos “escolhidos” (agora de um ponto de vista negativo) em relação às instituições cristãs, principalmente em relação a nós ocidentais e outras formas de fé.

Não é preciso muita força para perceber o sentimento que, enquanto religiosos temos – que na verdade é o sentimento para todo aquele que defende sua crença de forma fundamentalista – de um tipo de religiocentrismo, ou seja, colocar a sua própria religião/crença como o centro de todas as outras ou o centro para todos os outros, causando um tipo de rejeição.

Quero (re)lembrar que Cristo nunca foi “cristão” (não no sentido institucional como usamos hoje). Jesus veio como Emanuel, como Salvador, como o Ungido de Deus. Jesus veio como propagador da esperança que a humanidade ainda poderia ter para uma relação com Deus. Jesus veio nos dizer que não era “apenas” o povo de Israel o povo “escolhido”, antes todos os povos e nações também. Cada indivíduo que se sujeitasse à verdade e justiça de Deus também seria. Porém, o ser humano, como entendo, é o mesmo desde sempre. Nossos erros, interesses, mazelas, desvios não mudam. O mundo, enquanto tecnologia, muda, mas o ser humano em suas natureza continua a mesma. Celular, computador, carros, fábricas, ciência, etc., nada disso é capaz de mudar a natureza humana que é precária. Nossos pecados se repetem, são sempre os mesmos. Por isso que ainda continuamos pensando como o povo de Israel (e outros povos), que entendia que Deus não poderia ser deus para outros povos, pois ele, Deus, só poderia ser exclusivo, só poderia ser manifestar ao povo de Israel (?), afinal de contas Deus teria “escolhido” apenas ele como povo, e não os outros povos.

Este foi o grande erro do povo de Israel –  judeus – a ponto de não apenas excluírem outros povos da face de Deus (da comunhão), como as pessoas de dentro do seu próprio povo que não seguissem certos rituais religiosos que eles consideravam serem os rituais dignos dos escolhidos, portanto todos que fossem os “escolhidos” deveriam praticar tais rituais. 
Não preciso me alongar aqui, na história a partir da vinda de Cristo, em que Jesus vem e condena não apenas os rituais dos judeus, não apenas a xenofobia religiosa deles, mas muito mais do que isto Jesus condena exatamente a ideia de “escolhidos” que eles detinham. 
De fato Deus havia escolhido o povo de Israel, mas esta escolha não significa que Deus não poderia fazer outras escolhas. Mais do que isto, não significava que a escolha de Deus pelo povo de Israel dava direito aos judeus julgarem as outras nações a ponto de impedi-las de ter também um relacionamento com Deus, ainda que cada um a seu modo. Pior de tudo isto é que mesmo Deus tendo escolhido Israel para propagar sua revelação (e foi para isto que Deus escolheu Israel), este mesmo povo foi condenado por Deus exatamente por não seguir a revelação dada por Deus. Foi Deus, na boca de Jesus e depois da do ap. Paulo (antes os profetas), quem condenou seu próprio povo como sendo um povo rebelde, e por isso estava sendo cortado enquanto os gentios enxertados na Videiras (Cristo).

Este é um tipo de problema que continua se repetindo pela História. Nós religiosos hoje ainda comentemos os mesmos erros, como disse acima. Tendemos a achar que somos os únicos “escolhidos”, e que pessoas que pensam diferente de nós, possuem rituais diferentes, que fazem um caminho diferente, são indignos de serem também “escolhidos” por Deus, no sentido de Deus estender sua misericórdia a quem quer, como quer, quando quer. Nos comportamos ainda como o antigo Israel, entendendo que nós somos melhores, diferentes, únicos, e que todo o resto do mundo merece o fogo do inferno. Será que este tipo de comportamento te lembra alguém?

Talvez você esteja pensando que sou um relativista. Não, não sou! Até porque relativismo para mim não é compatível com crença alguma, pois uma religião para existir precisa ter algum fundamento, ainda que pequeno, já o relativismo destrói com todo fundamento. Mas o fato de não ser relativista não significa que eu consiga estabelecer perfeitamente o que convém ser o fundamento verdadeiro ou conheça por completo aquilo que Deus propõe para a humanidade como fundamento. Enquanto cristão – e os fundamentos que o cercam – entendo que Deus quer relacionar-se com a humanidade acima de tudo, com cada indivíduo; e para isto facilitou este acesso de várias formas, desde seus juízes, profetas, apóstolos, Cristo, até nós hoje como religiosos propagadores das verdades divinas. Porém, não tenho como definir como este relacionamento se dá a outras povos, culturas, nações que não possuem o mesmo acesso que eu, como cristão ocidentalizado tive/tenho. Não há como eu encaixotar o relacionamento de Deus, em relação a outros povos, a partir das minhas experiências pessoais, do meu pífio conhecimento, da minha limitada sabedoria; seria arrogância e prepotência demais da minha parte, que as Escrituras não me permitem ter.

Para os que não sabem os primeiros cristãos, após a missão dos apóstolos, forma espalhados pelo mundo, principalmente após a queda de Jerusalém em 70 d.C. Os cristãos não se conheciam em geral, vinham de locais e culturais díspares, por isso tinham comportamentos bem diferentes uns dos outros. Os próprios apóstolos tiveram dificuldade em aceitar isto quando souberam que alguns – fora do grupo dos judeus convertido – estavam recebendo o batismo espiritual também. Eles não entendiam como Deus estava alcançando os chamados gentios, pois eles, cristãos judeus, achavam que mesmo o Cristo teria vindo apenas para os judeus (os “escolhidos”) – leia Atos.
Muitos cristãos no início do cristianismo viviam isolados nos desertos, estes eram considerados monges ou monásticos, e em grande parte ortodoxos. Outros, mesmo sendo ocidentais, se isolavam do mundo (se tornando monges católicos). Alguns cristãos tiveram contado com outras formas de pensamento filosóficas, como a epicurista, a estoica, a gnóstica, sendo esta última de grande influência num dos principais pensadores cristãos do ocidente: Santo Agostinho de Hipóna. 
Este contado de diferente ordem para cada grupo cristão, criou formas diferentes de ritos, liturgias, teologias, e automaticamente na forma como os mesmo se relacionavam com Deus.

Ainda tivemos cristãos influenciados por diferentes culturas: pelos judeus ligados a Roma, outros ligados à Grécia, outros ligados ao Egito (vindos do exílio), outros que haviam se estabelecido na África, outros poucos migrados para a Ásia. Não era difícil ver nos primeiros séculos cristãos que recebiam influencia e influenciavam outros grupos religiosos como islâmicos e judeus. Não é preciso muito para entender que estes grupos cristãos pensavam bem diferente de nós ocidentais hoje.
Como se não bastasse, ainda temos, dentro de uma linha ocidental, cristão que se tornam separatista (sem instituições, apenas com líderes específicos), cristãos católicos (latinos e orientais), cristãos protestantes (mesmo anteriores a Lutero), cristãos reformados (a partir de Calvino), cristãos protestantes específicos (como os anglicanos), cristãos missionários históricos (como os puritanos, congregacionistas e metodistas que formaram a maior nação protestante do mundo, os EUA). Ainda temos os episcopais, os quackers, os hunguenotes, e tantos outros grupos ditos cristãos que quando vistos à distância parecem seguir o mesmo Cristo, mas quando aproximados percebemos a clara diferença entre eles e em muitos casos até mesmo vistos, entre eles, como inimigos.
Aqui no Brasil sabemos que os grupos protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais possuem m histórico antigo de críticas mútuas. 
Saindo um pouco da ceara institucionalizada cristã, poderemos encontrar grupos como os islâmicos, budistas, espíritas orientais, judeus, e tantos outros grupos de menor expressão, que advogam para si também a fé em (um) Deus a partir de suas culturas, experiências, conhecimento.

Sendo assim, uma pessoa que se diz cristã, não precisa ser relativista, por outro lado deve ter humildade suficiente para admitir que os “escolhidos” já erraram muitas vezes na História, por assumirem uma postura arrogante, prepotente, julgadora. Um cristão defende acima de tudo não uma instituição, não um corpo doutrinário, não um conjunto teórico de fundamentos de uma instituição específica (teologia) – ainda que todas essas tenham seu valor -, mas a crença e a esperança de que Deus, na pessoa de Cristo, veio nos dizer: eu quero me relacionar com a humanidade, basta ela querer, e não é você ou qualquer outra pessoa quem irá impedir isto que não seja o próprio sujeito. 
Pense nisto!

Att.
Fabiano Mina