setembro 06, 2013

A lógica retributiva! Uma mecânica bíblica?



Como não poderia ser diferente, a maioria de nós segue uma lógica retributiva na vida (dar ou fazer para receber). Significa dizer que tudo o que fazemos é na intenção de ter algum retorno, ou seja, assim como tudo na vida (ou quase tudo) possui sua causa e consequência passamos a entender que nossas ações, nosso esforço, nossas intenções, nossas energias, devem também ter o retorno desejado. Portanto, esta lógica retributiva diz que tudo o que fizermos, de uma forma ou de outra, trará algum tipo de fruto. O mundo segue esta lógica, e não é diferente para os religiosos e religiões em geral. As pessoas seguem a Deus se não é para fugir do inferno, é para ter benesses nesta vida. É por este motivo que eu não acredito que pessoas, em primeiro momento (ainda neófitos) seguem a Deus pelo tal do “amor”. Este estágio vem bem depois. Todos nós buscamos a Deus pelos motivos mais supérfluos, mesquinhos, ou até mesmo necessários; mas seguimos sempre esperando algum tipo de retorno – retribuição.

O que está por trás desta lógica, é a ideia de o mundo todo segue, que é de uma “mecânica”. Está mecânica nos ensina que A+B dará resultado de C. Assim aprendermos nos discursos, nas frases, nos conselhos do tipo: estude e será alguém na vida; trabalhe muito e terá o seu pão de cada dia; acorde cedo, durma tarde e terá sua recompensa; ame e será amado; faça o bem e lhe retribuirão com o bem; etc. Então achamos que vida segue esta mecânica simples do faça isto e terá aquilo. Mas não é bem assim, a vida é bem mais obscura e complexa. E não é diferente no que se refere a vida espiritual.

Claro que muitas destas coisas podem acontecer como causa e consequência de uma ação. O problema não é este, o problema é dizer ocorrerá com “todos” e da mesma forma inadvertidamente. Falar que porque uma causa gerou determinada consequência para determinada pessoa, não é o mesmo que dizer que “sempre” ocorrerá com outras.
E talvez você esteja perguntando por que não. Eu digo porque esta lógica é uma invenção da nossa mente humana. Somos nós quem a inventamos com “medo” de admitir e enfrentar este mundo que não possui lógica. É uma reação psicológica, apenas isto.
E o que estou aqui dizendo não é algo da minha cabeça, basta você olhar para o mundo e verá que os justos, os certos, os bons, os honestos  nem sempre são aqueles que desfrutam das melhores coisas desta vida – “melhores” em todos os sentidos seja material, emocional, pessoal, espiritual, etc.Muitas pessoas que são dedicadas, esforçadas, bondosas, justas, etc., às vezes sofrem muito mais do que outras que possuem um comportamento completamente oposto a elas. Esta já seria uma prova suficiente para quebrar qualquer argumento de uma mecânica lógica retributiva. Porém, caso alguém ainda queira recorrer a outras fontes, basta buscar a própria vida de Jó. Este é um personagem intrigante das Escrituras. Muitos olham para a vida de Jó quando Deus deu o “dobro” do que ele tinha perdido. Mas a questão aí não é o dobro que ele recebeu, e sim qual teria sido o motivo para Deus ter tirado tudo o que ele tinha. Pela lógica retributiva Deus não deveria ter permitido tudo aquilo com Jó, já que ele era um “homem justo e bom”. Mesmo assim Deus permitiu, e por um simples motivo: Ele é Deus, faz o que quer, como bem quer, e não depende de nenhuma lógica retributiva humana. O mesmo ocorreu quando Deus agraciou Jó com o dobro. Não foi por uma lógica retributiva que Deus o fez, pois Jó também foi repreendido por Deus por questioná-lo. Deus deu o dobro simplesmente por que quis e não por merecimento de Jó. Se Jó merecia (“se”) alguma coisa, perdeu tudo quando questionou Deus.

O que a história de Jó quer nos ensinar, não é a lógica retributiva do “se” (causa) eu fizer isto ou aquilo, “então” (efeito) Deus fará isto ou aquilo para mim. Não! A história dele nos ensina que tanto quando Deus tirou e quando deu alguma coisa para Jó, não foi por NENHUMA lógica retributiva. Nem a “justiça” de Jó o impediu de perder tudo, nem sua reclamação o impediu de receber o dobro.
Portanto, todos aqueles que querem ensinar “receitas de bolo” de como Deus deve agir conosco, pautado nesta “lei” (mecânica) espiritual, com certeza não levam muito a sério os fatos que ocorrem na vida das pessoas nem nos textos bíblicos contextualizados.
Claro que em se tratando de vida cotidiana, as chances de alguém mais esforçado, lutador, honesto, justo, etc., ter êxito na vida é teoricamente maior, mas é só teoricamente, pois tudo pode acontecer.

Quem aprendeu duramente esta lição foi o salmista Asafe (leia todo o capítulo), quando ele diz lá em 73:3 “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.” Asafe ainda seguia uma lógica retributiva, pois ele via os “ néscios e ímpios” prosperarem, enquanto ele, como servo de Deus, não. Então sua inveja crescia, achando que por ser servo de Deus ele teria o direito (consequência) de ser prospero. Só então de meditar muito entendeu que o “caminho” dele era difente: “Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles.” 73:16-17.
Para Asafe não foi fácil entender esta lição, ele mesmo diz no verso 16 que foi “muito doloroso” aprender isto.
Sim! É doloroso entender que não devemos e não vamos servir a Deus dentro de um discurso retributivo, de uma lógica da retribuição da prosperidade, seja ela qual for no âmbito que for. Deus nunca terá obrigação alguma de nos dar nada, pois já foi muito além nos dando sua Graça, e que “nos basta”.
Nem todos gostam de ouvir este discurso que coloco aqui, pois preferem “picotar” textos bíblicos para forçar a ideia (psicológica) de que possuem algum direito diante de Deus. Mas isto não é certo. Teremos sim, muitas pessoas justas, honestas, bondosas que terão muita prosperidade nesta vida, mas teremos pessoas assim também vivendo o inverso. E foi por isso que o Ap. Paulo nos advertia a aprendermos viver com muito, mas também com pouco. E não tente entender esta “lógica” divina, não cometa o mesmo erro de Asafe e de Jó.

Talvez ainda alguém esteja pensando: mas há tantos versos bíblicos que ensinam a lógica retributiva para aqueles que confiam e esperam no Senhor. Eu concordo! Mas este tipo de retribuição é diferente, ou seja, quando receberíamos, sobre o quê e o quê? Veja que a Bíblia nunca garantiu que por sermos honestos, justos, esforçados, nossa retribuição seria aqui em vida necessariamente, muito menos em forma de dinheiro, saúde, etc. Como diz as Escrituras em Mateus 5:45 “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” Nesta vida, mesmo para o justo, a luta é a mesma do que para o injusto, mas as consequências nem sempre são. Muitas vezes o justo até sofre mais exatamente por ser justo, e este é o preço a ser pago por aqueles que esperam não só nesta vida, mas na vida vindoura (a parousia).

E este é o problema de muitos religiosos que não querem aceitar que nesta vida não há uma lógica retributiva da qual Deus é obrigado a nos agraciar. Muito menos há uma lógica retributiva para aqueles que são mais justos, honestos, santos, da qual viverão uma vida com mais conforto e regalias, muito pelo contrário. Aí talvez alguém – ainda pensando sob a lógica retributiva – pergunte: por que então devemos ser justos e honestos? Eu digo: porque assim Deus manda, simplesmente porque este é o certo e ser feito. E todo aquele que achar que “só” se deve ser justo, honesto, bom, “se” receber (retribuição) alguma coisa, então este acabou de se mostrar o contrário de tudo que Deus chama de servo e filho dele.

E você, qual “lógica” você segue? A retributiva ou a de Deus? Pense nisto!


Fabiano Mina