setembro 28, 2013

Os escolhidos por Deus II




Continuando a ideia que elaborei no último texto, aqui no blog – “Os escolhidos por Deus” – em que eu fiz uma rápida comparação entre o pensamento cristão ortodoxo em relação ao cristão ocidental, para dar uma introdução ao tema central que é o fato de Deus escolher, sim, pessoas para determinadas situações – e isto simplesmente por ele ser Deus -, aproveito para continuar refletindo sob a questão dos “escolhidos” (agora de um ponto de vista negativo) em relação às instituições cristãs, principalmente em relação a nós ocidentais e outras formas de fé.

Não é preciso muita força para perceber o sentimento que, enquanto religiosos temos – que na verdade é o sentimento para todo aquele que defende sua crença de forma fundamentalista – de um tipo de religiocentrismo, ou seja, colocar a sua própria religião/crença como o centro de todas as outras ou o centro para todos os outros, causando um tipo de rejeição.

Quero (re)lembrar que Cristo nunca foi “cristão” (não no sentido institucional como usamos hoje). Jesus veio como Emanuel, como Salvador, como o Ungido de Deus. Jesus veio como propagador da esperança que a humanidade ainda poderia ter para uma relação com Deus. Jesus veio nos dizer que não era “apenas” o povo de Israel o povo “escolhido”, antes todos os povos e nações também. Cada indivíduo que se sujeitasse à verdade e justiça de Deus também seria. Porém, o ser humano, como entendo, é o mesmo desde sempre. Nossos erros, interesses, mazelas, desvios não mudam. O mundo, enquanto tecnologia, muda, mas o ser humano em suas natureza continua a mesma. Celular, computador, carros, fábricas, ciência, etc., nada disso é capaz de mudar a natureza humana que é precária. Nossos pecados se repetem, são sempre os mesmos. Por isso que ainda continuamos pensando como o povo de Israel (e outros povos), que entendia que Deus não poderia ser deus para outros povos, pois ele, Deus, só poderia ser exclusivo, só poderia ser manifestar ao povo de Israel (?), afinal de contas Deus teria “escolhido” apenas ele como povo, e não os outros povos.

Este foi o grande erro do povo de Israel –  judeus – a ponto de não apenas excluírem outros povos da face de Deus (da comunhão), como as pessoas de dentro do seu próprio povo que não seguissem certos rituais religiosos que eles consideravam serem os rituais dignos dos escolhidos, portanto todos que fossem os “escolhidos” deveriam praticar tais rituais. 
Não preciso me alongar aqui, na história a partir da vinda de Cristo, em que Jesus vem e condena não apenas os rituais dos judeus, não apenas a xenofobia religiosa deles, mas muito mais do que isto Jesus condena exatamente a ideia de “escolhidos” que eles detinham. 
De fato Deus havia escolhido o povo de Israel, mas esta escolha não significa que Deus não poderia fazer outras escolhas. Mais do que isto, não significava que a escolha de Deus pelo povo de Israel dava direito aos judeus julgarem as outras nações a ponto de impedi-las de ter também um relacionamento com Deus, ainda que cada um a seu modo. Pior de tudo isto é que mesmo Deus tendo escolhido Israel para propagar sua revelação (e foi para isto que Deus escolheu Israel), este mesmo povo foi condenado por Deus exatamente por não seguir a revelação dada por Deus. Foi Deus, na boca de Jesus e depois da do ap. Paulo (antes os profetas), quem condenou seu próprio povo como sendo um povo rebelde, e por isso estava sendo cortado enquanto os gentios enxertados na Videiras (Cristo).

Este é um tipo de problema que continua se repetindo pela História. Nós religiosos hoje ainda comentemos os mesmos erros, como disse acima. Tendemos a achar que somos os únicos “escolhidos”, e que pessoas que pensam diferente de nós, possuem rituais diferentes, que fazem um caminho diferente, são indignos de serem também “escolhidos” por Deus, no sentido de Deus estender sua misericórdia a quem quer, como quer, quando quer. Nos comportamos ainda como o antigo Israel, entendendo que nós somos melhores, diferentes, únicos, e que todo o resto do mundo merece o fogo do inferno. Será que este tipo de comportamento te lembra alguém?

Talvez você esteja pensando que sou um relativista. Não, não sou! Até porque relativismo para mim não é compatível com crença alguma, pois uma religião para existir precisa ter algum fundamento, ainda que pequeno, já o relativismo destrói com todo fundamento. Mas o fato de não ser relativista não significa que eu consiga estabelecer perfeitamente o que convém ser o fundamento verdadeiro ou conheça por completo aquilo que Deus propõe para a humanidade como fundamento. Enquanto cristão – e os fundamentos que o cercam – entendo que Deus quer relacionar-se com a humanidade acima de tudo, com cada indivíduo; e para isto facilitou este acesso de várias formas, desde seus juízes, profetas, apóstolos, Cristo, até nós hoje como religiosos propagadores das verdades divinas. Porém, não tenho como definir como este relacionamento se dá a outras povos, culturas, nações que não possuem o mesmo acesso que eu, como cristão ocidentalizado tive/tenho. Não há como eu encaixotar o relacionamento de Deus, em relação a outros povos, a partir das minhas experiências pessoais, do meu pífio conhecimento, da minha limitada sabedoria; seria arrogância e prepotência demais da minha parte, que as Escrituras não me permitem ter.

Para os que não sabem os primeiros cristãos, após a missão dos apóstolos, forma espalhados pelo mundo, principalmente após a queda de Jerusalém em 70 d.C. Os cristãos não se conheciam em geral, vinham de locais e culturais díspares, por isso tinham comportamentos bem diferentes uns dos outros. Os próprios apóstolos tiveram dificuldade em aceitar isto quando souberam que alguns – fora do grupo dos judeus convertido – estavam recebendo o batismo espiritual também. Eles não entendiam como Deus estava alcançando os chamados gentios, pois eles, cristãos judeus, achavam que mesmo o Cristo teria vindo apenas para os judeus (os “escolhidos”) – leia Atos.
Muitos cristãos no início do cristianismo viviam isolados nos desertos, estes eram considerados monges ou monásticos, e em grande parte ortodoxos. Outros, mesmo sendo ocidentais, se isolavam do mundo (se tornando monges católicos). Alguns cristãos tiveram contado com outras formas de pensamento filosóficas, como a epicurista, a estoica, a gnóstica, sendo esta última de grande influência num dos principais pensadores cristãos do ocidente: Santo Agostinho de Hipóna. 
Este contado de diferente ordem para cada grupo cristão, criou formas diferentes de ritos, liturgias, teologias, e automaticamente na forma como os mesmo se relacionavam com Deus.

Ainda tivemos cristãos influenciados por diferentes culturas: pelos judeus ligados a Roma, outros ligados à Grécia, outros ligados ao Egito (vindos do exílio), outros que haviam se estabelecido na África, outros poucos migrados para a Ásia. Não era difícil ver nos primeiros séculos cristãos que recebiam influencia e influenciavam outros grupos religiosos como islâmicos e judeus. Não é preciso muito para entender que estes grupos cristãos pensavam bem diferente de nós ocidentais hoje.
Como se não bastasse, ainda temos, dentro de uma linha ocidental, cristão que se tornam separatista (sem instituições, apenas com líderes específicos), cristãos católicos (latinos e orientais), cristãos protestantes (mesmo anteriores a Lutero), cristãos reformados (a partir de Calvino), cristãos protestantes específicos (como os anglicanos), cristãos missionários históricos (como os puritanos, congregacionistas e metodistas que formaram a maior nação protestante do mundo, os EUA). Ainda temos os episcopais, os quackers, os hunguenotes, e tantos outros grupos ditos cristãos que quando vistos à distância parecem seguir o mesmo Cristo, mas quando aproximados percebemos a clara diferença entre eles e em muitos casos até mesmo vistos, entre eles, como inimigos.
Aqui no Brasil sabemos que os grupos protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais possuem m histórico antigo de críticas mútuas. 
Saindo um pouco da ceara institucionalizada cristã, poderemos encontrar grupos como os islâmicos, budistas, espíritas orientais, judeus, e tantos outros grupos de menor expressão, que advogam para si também a fé em (um) Deus a partir de suas culturas, experiências, conhecimento.

Sendo assim, uma pessoa que se diz cristã, não precisa ser relativista, por outro lado deve ter humildade suficiente para admitir que os “escolhidos” já erraram muitas vezes na História, por assumirem uma postura arrogante, prepotente, julgadora. Um cristão defende acima de tudo não uma instituição, não um corpo doutrinário, não um conjunto teórico de fundamentos de uma instituição específica (teologia) – ainda que todas essas tenham seu valor -, mas a crença e a esperança de que Deus, na pessoa de Cristo, veio nos dizer: eu quero me relacionar com a humanidade, basta ela querer, e não é você ou qualquer outra pessoa quem irá impedir isto que não seja o próprio sujeito. 
Pense nisto!

Att.
Fabiano Mina




setembro 21, 2013

Os escolhidos por Deus I


Calma! Não irei aqui falar da velha e famigerada polêmica entre calvinistas e arminianos – apesar de, particularmente, entender que o calvinismo possui mais coerência “lógica” do que a arminiana -, pois sinceramente não acho que nenhuma dessas duas teologias dão conta do que chamamos de “revelação divina” (Escrituras). E isto por um motivo muito simples: os cristãos ortodoxos (do Oriente - Bizâncio) possuem uma crítica séria contra os cristãos latinos (Ocidente – Jerusalém), da qual partilho, ao afirmar que nós ficamos tão preocupados em tentar elaborar teses teológicas acerca de Deus, e da sua revelação, que acabamos nos distanciando dele e de sua verdade.
Confesso que tenho uma enorme tendência a concordar (ainda que em parte, afinal de contas ainda estou enraizado no ocidentalismo cristão), pois nossa teologia nada mais é do que uma cópia muito mal feita de pensadores escolásticos, como Tomás de Aquino, que tentaram de todas as maneiras harmonizar a filosofia grega com o cristianismo, afim de busca respostas conceituais para aquilo que conhecemos como revelação (as Escrituras). Esta forma de racionalizar o cristianismo pela escolástica ocorreu na Idade Média por volta do século X-XII (muito depois do nascimento do cristianismo) quando a escolástica torna-se uma forma não só apologética, mas acima de tudo sistematizada de tratar da religião cristã, quando então chega ao seu auge a partir de Tomás de Aquino, considerado por muitos o maior sistematizador das Escrituras na era cristã medieval (ao contrário do que muitos pensam Santo Agostinho, muito antes de Tomás, nunca foi um sistemático, e por isso parte da patrística). Tomás de Aquino recebe forte crítica de cristãos ortodoxos e/ou místico por ser considerado aquele que fez do cristianismo uma religião mais presa a conceitos do que à realidade e/ou vida cristã prática. A Igreja cristã ocidental até hoje sofre dos males desta forma de fazer cristianismo, que está mais preocupada com modelos do que com o conteúdo cristão.

Com isto, o cristianismo ocidental mergulhou na forma interpretativa de tratar as Escrituras, sempre ancorada na lógica aristotélica. Ou seja, significa que qualquer outra forma de compreender, lidar ou interpretar as Escrituras, que não fosse pelo escrutínio lógico-aristotélico - este encampado pelo cristianismo escolástico - era visto como erro, até mesmo como heresia. Hoje não é diferente, pois qualquer forma de pensar o cristianismo que não seja nos moldes teológicos ocidentais (ou aristotélico) é visto como uma forma espúria. Não é difícil de vermos nas igrejas protestantes e evangélicas no ocidente, mais preocupadas com modelos e formas. E acabam se tornando igrejas abstratas, que tratam o cristianismo de forma muito distante da realidade das pessoas.

Com toda esta introdução o que quero dizer é que até hoje, nós ocidentais, temos ainda a mania de tentar definir, conceituar, delimitar as ações e vontades de Deus a partir dos nossos conceitos teológicos pré-formatados. Tentamos limitar Deus aos nossos modelos racionais e dogmáticos, o que, por definição, é uma contradição – já diria os ortodoxos – pois a religião em si é antinômica em relação a qualquer sistema lógico ou racional, isto porque a religião não faria parte da via racional, mas da via intuitiva (ou mística para os ortodoxos).
O caminho para conhecer e viver Deus não seria o caminho da argumentação, mas dos sentidos (intuição, afeição, mística cristã), e por ser dos sentidos, ele é subjetivo, portanto nunca sistematizado, generalizado, universal e fixo a regras. Ao contrário da razão, os sentidos não conceituam verdades, eles apenas às vivem. Seria mais honesto da nossa parte admitirmos de uma vez por todas que Deus não está sob nosso controle conceitual, e não temo a menor ideia de como Deus lida com a humanidade a priori, ainda que haja coincidências ou aparentes manifestações que sigam algum padrão.

Ao tentarmos sistematizar as Escrituras criamos tantos modelos, regras, formatos de religião; bem como cultos, ministérios, programas, etc., achando que este é o caminho, quando na verdade estamos apenas dando sequência ao projeto tomasiano existente desde o medieval.
Com isto nos afastamos da essência "mística" (cristã ortodoxa) do que seria vivenciar a revelação divina. Tendemos a exercitar tanto nossos conceitos racionais e pragmáticos que nos afastamos do que convém ser o cristianismo na sua forma primitiva (essencial, original, pura). Mesmo aqueles que dizem estar manifestando alguma forma livre ou pura de cultuar a Deus, na verdade apenas tentam manipular a divindade ou seu poder (mesmo que inconscientemente).
É importante entender quando chamo de primitiva, não é no sentido de voltarmos às praticas arcaicas de cristianismo (sempre me soa ridículo alguém que diz querer voltar a viver num cristianismo primitivo no sentido histórico), mas primitivo no sentido de nos livramos da tentativa de criar modelos para as formas como Deus deve tratar conosco, ou se manifestar no tempo e espaço em sua Igreja.

É por este motivo que acredito que Deus continua agindo da forma que quer, como quer, com quem quer, sem nenhum tipo de modelo sistemático do qual possamos enquadrá-lo. Não são nossas orações, mantras, campanhas, insistência, reivindicações, etc., que fazem Deus agir assim ou assado, ao contrário, Deus sempre agirá de forma misteriosa, cabendo a nós apenas admitir suas ações via Graça.

É por essas e outras que entendo que Deus é quem escolhe aqueles que deverão agir em determinadas situações, seja na igreja institucional ou fora dela. Deus escolhe pessoas que possuirão uma ação diferenciada, uma condição específica, uma habilitação singular. Infelizmente muitos têm dificuldade de entender isto: que nem todos são “escolhidos” por Deus.
Como eu disse no início, não estou falando de escolha na perspectiva calvinista (apesar do princípio ser o mesmo), mas no sentido da soberania divina para toda e qualquer situação que cabe a Deus. O fato de Deus convidar “todos” (sei que há controvérsias) para a salvação, não implica que chame todos para as mesmas tarefas, ações, situações; ao passo que não dota a estes todos com as mesmas habilidades e não designa a todos estes para as mesmas tarefas e missões.
Creio piamente que há pessoas “especiais” chamadas por Deus que surgem na Terra de tempos em tempos para fazerem uma diferença de tamanho alcance que poucos conseguem alcançar as mesmas façanhas.

Não são todos “escolhidos” para enfrentar viagens, fome, dor, sofrimento, luta, desafios, etc., e ao mesmo tempo abdicar do luxo, da vida suburbana, da tecnologia, do conforto, da segurança, do salário, da família, da vida planejada, etc. Poucos são os "escolhidos" que Deus chama (como Paulo, Pedro, Davi, Moisés, Abraão, Noé...) para situações específicas que a vasta maioria resignaria. Porém, o que vejo é muita gente se achando escolhido por Deus, mas fazendo tanta besteira e atrapalhando aqueles a quem Deus realmente separou para seus desígnios misteriosos.

Grande parte dos evangélicos se acham “escolhidos”, mas está óbvio que não são em sua maioria. Eles fazem as mesmas coisas, os mesmos rituais, frequentam os mesmos lugares, repetem as mesmas frases - são em grande parte uma cópia mal feita dos modelos e formatos de cristianismo ocidental aristotelizado que se preocupam mais com forma do que com conteúdo. E só porque se esforçam para passar um ar de bons samaritanos, se intitulam diferente do resto da população, quando em grande parte fazem as mesmas ações sociais, como tantos outros religiosos, só que com um nome diferente: o de evangélicos.
Com isto não estou dizendo que estes não devam fazer suas benfeitorias, isto é salutar. O que digo é que não deveriam ser achar “os” escolhidos, pois os escolhidos são bem diferentes destes. Os escolhidos são vistos não pela forma, mas pelo conteúdo. Não por modelos, mas por ações. Não pela escolho por algo, mas pela negação de algo. Dificilmente são ovacionados pela multidão, ainda que trabalhem afinco por ele. Provavelmente não terão uma vida tranquila, formal, igual aos demais em sua volta, pois os "escolhidos" o são exatamente para viverem um vinda única - e por isso são escolhidos.

Pessoas “escolhidas” por Deus não mudam por acaso nem superficialmente, mas com profundidade. Não aceitam meias verdades, vão até o fim dela. Não medem consequências materiais, apenas as humanas. Não se prendem ao conforto, ao cotidiano, ao trabalho, à família bem planejada; ao contrário estão dispostos a arriscar todas estas coisas, inclusive a própria vida. Eles não são missionários mais longe do que são de perto. Não são pregadores formatados, mas pregadores que desformatam. Não ensinam cartilha, antes ensinam a fugir delas. Não só pregam a Cristo, mas buscam por ele e convidam os demais. Não falam de amor, eles amam. Não são amiguinhos, são verdadeiros. Não andam em bando, desmancham estes. Não se preocupam com fama, antes a repudiam. Não estão nos lugares comuns, mas nos mais estranhos e com os estranhos. Não se gabam nem alardeiam seus bons feitos, antes pedem silêncio como forma de humildade. Não querem palco, querem o chão. Não andam com os mesmos, preferem sempre os diferentes, o novo Não sentam nas primeiras fileiras, nem se dobram aos empoleirados, mas com os necessitados e famintos. Mais doam do que pedem, mais oram do que ensinam, mas ouvem do que falam, mais observam do que se apresentam. Estão sempre dispostos, prontos para a guerra, de malas prontas para recomeçar, famintos de justiça, sedentos pela misericórdia e sempre tardios ao julgamento. Não menosprezam, antes agregam, não aceitam o erro, mas principalmente o seu próprio. Estão abertos para aprender e fechados para o definitivamente definir.

Não! Os escolhidos não são uma “raça” que se acha por aí em qualquer lugar. Não é aquele simplesmente que fala ou canta bem, que é conhecido ou famoso, que tem posses ou atributos, que tem carisma ou alegria. Os escolhidos passam despercebidos em grande parte (pelo menos despercebidos dos religiosos - vide João Batista), e quando os percebemos eles já foram, porém suas heranças são marcantes e profundas, se perpetual. Aliás, o que os "escolhidos" fazem é sempre pesando na posteridade. Eles não lutam por eles, nunca em causa própria, mas pelo próximo.

Não! Os "escolhidos" não estão em qualquer banco de igreja. Não estão “batendo cartão” dominical. Não estão querendo agradar a gregos e troianos. Não pedem a palavra. Os "escolhidos", ainda que entre nós, não são como nós, pois são raros.
Sim! Estou procurando um "escolhido", talvez eu o ache por aí. Graças a Deus por eles existirem, ainda que sejam raros.


Fabiano Mina

setembro 06, 2013

A lógica retributiva! Uma mecânica bíblica?



Como não poderia ser diferente, a maioria de nós segue uma lógica retributiva na vida (dar ou fazer para receber). Significa dizer que tudo o que fazemos é na intenção de ter algum retorno, ou seja, assim como tudo na vida (ou quase tudo) possui sua causa e consequência passamos a entender que nossas ações, nosso esforço, nossas intenções, nossas energias, devem também ter o retorno desejado. Portanto, esta lógica retributiva diz que tudo o que fizermos, de uma forma ou de outra, trará algum tipo de fruto. O mundo segue esta lógica, e não é diferente para os religiosos e religiões em geral. As pessoas seguem a Deus se não é para fugir do inferno, é para ter benesses nesta vida. É por este motivo que eu não acredito que pessoas, em primeiro momento (ainda neófitos) seguem a Deus pelo tal do “amor”. Este estágio vem bem depois. Todos nós buscamos a Deus pelos motivos mais supérfluos, mesquinhos, ou até mesmo necessários; mas seguimos sempre esperando algum tipo de retorno – retribuição.

O que está por trás desta lógica, é a ideia de o mundo todo segue, que é de uma “mecânica”. Está mecânica nos ensina que A+B dará resultado de C. Assim aprendermos nos discursos, nas frases, nos conselhos do tipo: estude e será alguém na vida; trabalhe muito e terá o seu pão de cada dia; acorde cedo, durma tarde e terá sua recompensa; ame e será amado; faça o bem e lhe retribuirão com o bem; etc. Então achamos que vida segue esta mecânica simples do faça isto e terá aquilo. Mas não é bem assim, a vida é bem mais obscura e complexa. E não é diferente no que se refere a vida espiritual.

Claro que muitas destas coisas podem acontecer como causa e consequência de uma ação. O problema não é este, o problema é dizer ocorrerá com “todos” e da mesma forma inadvertidamente. Falar que porque uma causa gerou determinada consequência para determinada pessoa, não é o mesmo que dizer que “sempre” ocorrerá com outras.
E talvez você esteja perguntando por que não. Eu digo porque esta lógica é uma invenção da nossa mente humana. Somos nós quem a inventamos com “medo” de admitir e enfrentar este mundo que não possui lógica. É uma reação psicológica, apenas isto.
E o que estou aqui dizendo não é algo da minha cabeça, basta você olhar para o mundo e verá que os justos, os certos, os bons, os honestos  nem sempre são aqueles que desfrutam das melhores coisas desta vida – “melhores” em todos os sentidos seja material, emocional, pessoal, espiritual, etc.Muitas pessoas que são dedicadas, esforçadas, bondosas, justas, etc., às vezes sofrem muito mais do que outras que possuem um comportamento completamente oposto a elas. Esta já seria uma prova suficiente para quebrar qualquer argumento de uma mecânica lógica retributiva. Porém, caso alguém ainda queira recorrer a outras fontes, basta buscar a própria vida de Jó. Este é um personagem intrigante das Escrituras. Muitos olham para a vida de Jó quando Deus deu o “dobro” do que ele tinha perdido. Mas a questão aí não é o dobro que ele recebeu, e sim qual teria sido o motivo para Deus ter tirado tudo o que ele tinha. Pela lógica retributiva Deus não deveria ter permitido tudo aquilo com Jó, já que ele era um “homem justo e bom”. Mesmo assim Deus permitiu, e por um simples motivo: Ele é Deus, faz o que quer, como bem quer, e não depende de nenhuma lógica retributiva humana. O mesmo ocorreu quando Deus agraciou Jó com o dobro. Não foi por uma lógica retributiva que Deus o fez, pois Jó também foi repreendido por Deus por questioná-lo. Deus deu o dobro simplesmente por que quis e não por merecimento de Jó. Se Jó merecia (“se”) alguma coisa, perdeu tudo quando questionou Deus.

O que a história de Jó quer nos ensinar, não é a lógica retributiva do “se” (causa) eu fizer isto ou aquilo, “então” (efeito) Deus fará isto ou aquilo para mim. Não! A história dele nos ensina que tanto quando Deus tirou e quando deu alguma coisa para Jó, não foi por NENHUMA lógica retributiva. Nem a “justiça” de Jó o impediu de perder tudo, nem sua reclamação o impediu de receber o dobro.
Portanto, todos aqueles que querem ensinar “receitas de bolo” de como Deus deve agir conosco, pautado nesta “lei” (mecânica) espiritual, com certeza não levam muito a sério os fatos que ocorrem na vida das pessoas nem nos textos bíblicos contextualizados.
Claro que em se tratando de vida cotidiana, as chances de alguém mais esforçado, lutador, honesto, justo, etc., ter êxito na vida é teoricamente maior, mas é só teoricamente, pois tudo pode acontecer.

Quem aprendeu duramente esta lição foi o salmista Asafe (leia todo o capítulo), quando ele diz lá em 73:3 “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.” Asafe ainda seguia uma lógica retributiva, pois ele via os “ néscios e ímpios” prosperarem, enquanto ele, como servo de Deus, não. Então sua inveja crescia, achando que por ser servo de Deus ele teria o direito (consequência) de ser prospero. Só então de meditar muito entendeu que o “caminho” dele era difente: “Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles.” 73:16-17.
Para Asafe não foi fácil entender esta lição, ele mesmo diz no verso 16 que foi “muito doloroso” aprender isto.
Sim! É doloroso entender que não devemos e não vamos servir a Deus dentro de um discurso retributivo, de uma lógica da retribuição da prosperidade, seja ela qual for no âmbito que for. Deus nunca terá obrigação alguma de nos dar nada, pois já foi muito além nos dando sua Graça, e que “nos basta”.
Nem todos gostam de ouvir este discurso que coloco aqui, pois preferem “picotar” textos bíblicos para forçar a ideia (psicológica) de que possuem algum direito diante de Deus. Mas isto não é certo. Teremos sim, muitas pessoas justas, honestas, bondosas que terão muita prosperidade nesta vida, mas teremos pessoas assim também vivendo o inverso. E foi por isso que o Ap. Paulo nos advertia a aprendermos viver com muito, mas também com pouco. E não tente entender esta “lógica” divina, não cometa o mesmo erro de Asafe e de Jó.

Talvez ainda alguém esteja pensando: mas há tantos versos bíblicos que ensinam a lógica retributiva para aqueles que confiam e esperam no Senhor. Eu concordo! Mas este tipo de retribuição é diferente, ou seja, quando receberíamos, sobre o quê e o quê? Veja que a Bíblia nunca garantiu que por sermos honestos, justos, esforçados, nossa retribuição seria aqui em vida necessariamente, muito menos em forma de dinheiro, saúde, etc. Como diz as Escrituras em Mateus 5:45 “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” Nesta vida, mesmo para o justo, a luta é a mesma do que para o injusto, mas as consequências nem sempre são. Muitas vezes o justo até sofre mais exatamente por ser justo, e este é o preço a ser pago por aqueles que esperam não só nesta vida, mas na vida vindoura (a parousia).

E este é o problema de muitos religiosos que não querem aceitar que nesta vida não há uma lógica retributiva da qual Deus é obrigado a nos agraciar. Muito menos há uma lógica retributiva para aqueles que são mais justos, honestos, santos, da qual viverão uma vida com mais conforto e regalias, muito pelo contrário. Aí talvez alguém – ainda pensando sob a lógica retributiva – pergunte: por que então devemos ser justos e honestos? Eu digo: porque assim Deus manda, simplesmente porque este é o certo e ser feito. E todo aquele que achar que “só” se deve ser justo, honesto, bom, “se” receber (retribuição) alguma coisa, então este acabou de se mostrar o contrário de tudo que Deus chama de servo e filho dele.

E você, qual “lógica” você segue? A retributiva ou a de Deus? Pense nisto!


Fabiano Mina