julho 29, 2013

O que mais diz querer a verdade é o mais mentiroso de todos!




Queremos a verdade, mas nem tanto assim! Isto é fato.

Tudo bem, talvez você me verá como um radical, um exagerado, e vou aceitar esta sua crítica, até porque talvez eu esteja sendo mesmo. Mas a verdade não é algo radical? E exatamente por ela ser radical é que desconfio que as pessoas que mais dizem querer a verdade são as que mais mentem. E digo isto por uma questão empírica, inclusive comigo mesmo. Eu sei que falar da verdade em tese é sempre mais fácil do que "ser" verdadeiro, e isto é uma luta diária que travo comigo mesmo. Já tive, e tenho, muitos problemas e desafetos por achar que tenho a verdade ou até mesmo por dizer de fato alguma verdade. Ou você mesmo já não teve a experiência de ouvir pessoas que batem no peito e falam da tal verdade com boca cheia, mas quando você olha para elas no seu dia a dia, parecem pessoas tão - me perdoe o vocabulário em "licença poética" - bundonas! 
Eu não acredito em bundões que defendem a verdade. Para mim tem que ser muito macho (não no sentido de gênero aqui) para querer falar e viver na verdade. Desconfio que é por este motivo que Cristo gostava tanto de Pedro, o apóstolo. Não tanto pelas habilidades de Pedro, até porque ele era um ogro; mas pela sua coragem - para os desavisados, Pedro abandonou Jesus não por falta de coragem, pois ele defendeu Jesus no monte; ele abandonou por decepção e confusão. Cristo sabia da coragem de Pedro, e por isso deveria ser um líder. Aliás, acho que Cristo chamou os corajosos em primeiro lugar. Não que os medrosos não tenham sua chance, mas a chance de deixaram de ser bundões.

Claro que no mundo existem(iram) "não bundões" mentirosos em outro sentido. Pessoas que levam povos e nações à mentira com argumento de que perseguem e defendem a verdade. Hitler foi um bom exemplo disto. Mas mesmo estes seriam bundões em relação à seguir a verdade cristã, que é do que eu venho falar aqui, pois seguir o cristianismo não é questão de coragem no sentido lato do termo, mas coragem no sentido de mudança de vida, percepção, intenção - conversão. Logo, até Hitler teria que ser muito macho para isto. 

Quem é que já não ouviu ou viu alguém falar que é sincero, que gosta da verdade, que abomina a mentira. Dificilmente você ouvirá alguém falar que mente deliberadamente, que não é tão verdadeiro assim ou coisa parecida. Mas o fato é que a maior parte das pessoas lida bem com a mentira, e isto por um motivo muito simples: viver pautado na verdade necessariamente nos obriga a enfrentar a todo instante tudo e a todos (o mundo), e este é um desafio difícil para qualquer mortal. Não à toa Jesus foi crucificado exatamente porque viveu pautado na verdade, ele enfrentou tudo e todos, pois sua missão era exatamente trazer as Boas Novas, e as Boas Novas tem como prerrogativa combater o engano, a mentira, o erro, inclusive daqueles mais chegados. Quando Cristo disse para Pedro que deveria se apartar, o chamando de Satanás, Jesus não estava falando da incorporação de Satanás em Pedro (muitos entendem assim a passagem) - coisa que só ocorreu com Judas, e por isso era o traidor (Jo 13:26-27) -, mas da mentira da qual Pedro cria achando ser a verdade, querendo evitar que Jesus fosse crucificado (Mc 8:33). Pedro estava preso às "coisas dos homens" naquele momento, e não às de Deus. E as coisas dos homens são a meias verdades, a mentira. Foi isto que Jesus expulsou, a mentira, sendo seu pai Satanás (Luc 22:31)

Desta forma, eu desconfio da maioria das pessoas que dizem combater a mentira se dizendo pautados na verdade, mas vivem rodeados de um monte de “amiguinhos”, tudo está sempre bem, curtem a vida a todo instante, estão cheios de “sucesso” recebendo tapinhas nas costas, etc. Não estou dizendo que uma pessoa que busca a verdade necessariamente deve ser uma pessoa que só cria confusão, é mal quista, é odiada ou coisa parecida. O que estou dizendo é que a maioria diz que vive lutando pela verdade, mas só faz isto quando lhe é confortável, quando está em maioria, quando as consequências não são tão ruins para ela (pode até ser para os outros); pois na maioria das vezes o que fazemos é fugir da verdade quando o “calo aperta”.

É por isso que acredito que líderes religiosos (ou famosos religiosos) que dizem falar a verdade são raros, pois líderes religiosos não são aqueles que falam a verdade quando estão com um microfone não mão, quando estão diante de uma “platéia” num ambiente direcionado, quando estão numa posição de maioria ou de autoridade sob outros. Ser líder assim é moleza! Eu quero ver quando for minoria, quando estiverem num ambiente hostil, quando tiverem que “resistir na cara” seus outros líderes ou chefões (Gl 2:11) que controlam esta mesma maioria ou a massa religiosa, ainda que isto lhe custe seu "emprego", seu status, ou seu salário. 
A verdade é que líderes religiosos que fazem da sua “vocação” de fé uma “carreira religiosa”, não podem nem conseguem falar a verdade, pois isto seria o mesmo que arriscar a posição institucional da qual tanto perseguem. E é por isso que líderes religiosos autênticos são raros – existem, graças a Deus!

Da mesma forma não acredito muito em qualquer jovem que queira ser líder de fato, compromissado com a verdade - e me perdoem os jovens, já fui um –, muito menos em religiões formadas/lideradas apenas por jovens. E antes que alguém me venha com exemplos bíblicos de jovens sinceros e autênticos, primeiro quero lembrar que o que consideramos jovens hoje, na época bíblica eram considerados já homens (devido a vida de maturidade que levavam. Davi p. ex., era pastor de ovelhas e lutava com feras no campo ainda jovem), pois a ideia de jovem ou adolescente é invenção recente e moderna, bem diferente dos jovens de 3.000 anos atrás. Também quero lembrar que a exceção não vale para a regra, e aqui, obviamente, estou tratando da regra.
Desconfio de jovens por motivos óbvio, pois jovens em geral, principalmente na atual modernidade, estão normalmente mais preocupados em serem aceitos, em fazerem parte de um grupo social que os acolha, querem ser vistos, são ainda inseguros, a vaidade (centro das atenções) ainda é marcante neles. Significa que o jovem não arrisca tanto na vida como um adulto já mais estabilizado faz, pois, em tese, o adulto já amadureceu (deveria), já conquistou coisas, já sofreu as decepções básicas da vida, logo o adulto, ao contrário do jovem, tem mais “cacife” para arriscar, enquanto o jovem ainda está mais preocupado com seu círculo social (amigos, baladas, gatinha, shows, passeios, etc.) do que propriamente com esta verdade dura e difícil que a religião propõe. 
Não à toa Cristo convocou, primeiramente, adultos na sua comissão de frente (os apóstolos), ainda que admitisse que as crianças (logo os jovens) eram importantes; o mesmo relatou apóstolo João em sua carta também. Cristo sabia que para enfrentar as consequências de se pregar as Boas Novas, teriam que ser homens maduros, desapegados praticamente de tudo na vida, em alguns casos até mesmo da família de sangue (Mt 10:35-37), pois as consequências seriam desastrosas, como foram. Seguir nesta verdade não é qualquer um que fará, ainda que ela seja oferecida a todos de alguma forma (o fato de oferecer para todos, não significa que será de todos, como tudo na vida).

Também não acredito em "pop star" religioso. Quanto mais um religioso fica “famoso”, menos eu acredito que ele se compromete com a verdade, pois a fama não tem compromisso com a verdade, a fama tem compromisso com a quantidade, com “bom” retorno, com o sucesso, e em grande parte com o dinheiro. Os pop star que vemos por aí falam sempre “meias verdades”, pois meias verdades agradam a gregos e troianos. Mas como sabemos, a verdade não pode agradar a todos; há de agradar a um e desagradar a outro (Mt 6:24). Não estou falando apenas dos famosos midiáticos, estes são bastante óbvios (lembrando: com suas exceções, se é que tem). Estou falando destes que circulam em nossos meios religiosos locais. Sim! Temos os famosos das igrejas, das comunidades religiosas, das massas populares. Não querem a fama da de Paulo, de Pedro. Aquela fama de estarem dispostos a tudo em favor da verdade, não! Querem a fama para agaranhar fãs, querem os sorrisos fajutos, as meias verdades, e assumem pouco ou nenhum risco. Ou seja, é a fama do pop star religioso que não quer conflitos, não quer confronto, não quer questionamentos, não quer o contraditório, quer apenas a zona de conforto para continuar obtendo o seu sucesso desejado.

Também não acredito nos mal dizentes. Estes não querem a verdade, eles querem apenas que concordemos com eles. Eles querem a religião do jeito deles, a igreja deles, o líder deles. O mal dizente reclama de tudo e todos, e acha que é o único que tem razão – a verdade – só porque seu intuito é de ser ouvido e aceito, e quando não é, ele "solta o verbo". Este não tem obrigação com a verdade, ele tem obrigação com sua “opinião”. O mal dizente confunde facilmente opinião com verdade. Ele se esquece que a verdade não é uma ideia, uma lógica bem construída, um argumento bem posto. A verdade é algo primeiro “dado”, ou seja, é algo que independe da pessoa que a profere, pois falo aqui da verdade revelada (bíblica), a verdade dada por Deus. Mas o mal dizente defende a “sua” verdade, esquecendo que a verdade ainda que seja dada ou revelada por Deus, não é fácil de ser “alcançada” e entendida, e por isso se faz necessário o todo, o conjunto, a reunião, o debate, o confronto, o estudo de/com muitos; na comunhão eclesial, com o bom senso. Não conseguimos chegar à verdade sozinhos devido nossas limitações e imperfeições. Diferente de Cristo, todos seus seguidores, desde os apóstolos até nossos dias, tiveram que lutar muito para alcançar a verdade, entendê-la e absorvê-la. Chegar à verdade é uma luta diária e incessante. Logo aqueles que apenas reclamam, que criticam gratuitamente, são apenas mal dizentes que acham que têm a verdade só porque discordam por discordar, criticam por criticar, apontam defeitos sem mexer um “dedo sequer” (Mt 23:4). A verdade em nós é uma construção, ela não vem pronta de uma vez só! Cristo é a verdade, mas compreendê-la depende de tempo e esforço.

Muito menos acredito que os “humildizinhos” das religiões possuem a verdade. Muitos confundem humildade com autocomiseração. Pessoas que sofrem por diversos motivos tendem achar que são as únicas que sofrem, e porque sofrem acham que Deus as ilumina com a verdade simplesmente em função de seus sofrimentos. Isto é mentira! Ninguém é mais ou menos espiritual por causa do sofrimento, haja visto que muitos sofrem no mundo e continuam maus caráter. É verdade que o sofrimento pode nos ajudar a nos tornar humildes no sentido de admitirmos nossas limitações e nossa necessidade diante de Deus (e quem é que não sofre?). Mas Deus não concede ou encaminha alguém à verdade por causa do sofrimento, mas por causa da sua admissão diante dele (nossa confissão, postura, intenção em Deus). Logo, eu desconfio grandemente de pessoas que sofrem e usam do sofrimento como muleta. O apóstolo Paulo nos ensinou bem isto quando disse saber lidar tanto com o prazer quanto com o sofrimento. Paulo foi o mesmo homem independente da situação que passasse. Ele defendia a verdade, apenas isto. Não usava o sofrimento como desculpa, quando tratou sobre seu sofrimento foi para contrapor aqueles que diziam que ele, enquanto apóstolo, vivia em status, em boa vida, ou ao contrário, quando alguns se achavam os únicos sofredores enquanto ele supostamente nunca teria sofrido, portanto não seria merecedor da posição que detinha.

Bom, há muito outros grupos que poderiam ser citados que apregoam defender ou obter a verdade, enquanto querem viver uma vida sossegada, bem aceita, segura, confortável, de sucesso, etc., usando o conceito de verdade muito mais como marketing. Mas no fundo, todo ser humano é assim em alguma medida. Assim somos nós! No fundo sabemos que lidar com a verdade é um risco muito grande e que contrapõe esta vida de sucesso e regalias que tanto almejamos. 

Aqueles que querem mesmo ser líderes religiosos, devem ter em mente que pregar a verdade acima de tudo é assumir riscos diários. Aqueles jovens que querem seguir a verdade inevitavelmente terão que ser a exceção, e isto dói. Aqueles que batem no peito e contrariam tudo e a todos dizendo que falam a verdade, mas vivem recebendo tapinhas nas costas, devem ter em mente que perdem seu tempo e o dos outros vivendo na mentira.

Enfim, os que querem ser cristãos e não entendem sua vocação, vivem um cristianismo covarde, fraco, mirrado, limitado; pois ser cristão é ter que fazer escolhas todos os dias a todo instante, e muitas vezes, como foi com Abraão, ter que sacrificar aquilo é mais de precioso em nós: neste caso aqui do tema: a mentira. Sacrificar nossas mentiras, nossas ilusões, nossa falsidade, nosso “jeitinho brasileiro” é algo muito difícil; e eu e você sabemos disso. 
Você ainda quer ser verdadeiro? Pense nisto!

Att.

Fabiano Mina