maio 02, 2013

Cristo nos ensinou a desacelerar, o mundo a acelerar. Quem você irá seguir?






Um dos efeitos do modo frenético em que vivemos é a ansiedade. Psicologicamente dizendo a ansiedade é a espera por algo incerto, ou melhor, é a incerteza de que se terá aquilo que se almeja no tempo em que se deseja. Ela se difere da esperança (esperar) porque a esperança é paciente, ou seja, a esperança é uma espera com parcimônia (Hb 6:15). Já a ansiedade é o desejo de ter alguma coisa, chegar a algum lugar, tornar-se alguém, no menor tempo possível. Portanto, o ansioso não tem seu foco na qualidade daquilo que deseja ou espera, mas no próprio tempo; significa que o menor tempo para o ansioso é tanto quanto importante quanto aquilo que ele almeja. O que é contrário ao esperançoso, que deseja algo, mas o caminho que ele trilha está voltado para a segurança, para a qualidade, para a profundidade. Temos assim diametralmente opostos o esperançoso do ansioso. Enquanto o primeiro busca qualidade e aprofundar-se, o segundo busca o menos tempo possível, logo a superficialidade e quantidade. O primeiro despende tempo o segundo reduz o tempo.

Quem ensinou (ler comentário final) isto foi Cristo quando disse a seus discípulos: “Portanto vos digo: Não estejais apreensivos [ansiosos] pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis” Lucas 12:22. Jesus disse isto aos discípulos comparando nos versos anteriores com uma pessoa que almeja a todo custo ascender financeiramente na vida, e que acaba fazendo desta ascensão seu foco principal. Se compararmos esta passagem com o mudo pós-moderno que atualmente vivemos, este foco recebe uma dose de aceleração ainda maior, pois numa economia capitalista atual, a lógica é daquele que chegar primeiro será aquele que sairá na frente na corrida pelo “ouro” desejado.
Porém Cristo fez uma comparação neste capítulo com os animais, como os pássaros, que vivem uma vida tranquila (esperançosa!) porque vivem-na voltada para aquilo que é necessário (desacelerado) e não para o que é supérfluo (acelerado). A superficialidade normalmente nos torna muito ansiosos, porque se pararmos para pensar a maior parte das vezes estamos acelerando nossas vidas mais em função do que é supérfluo do que o que é necessário. Não que devamos viver uma vida pautada apenas no que é necessário - acho isto praticamente impossível (pelo menos aqui no Ocidente onde há poucos monges e franciscanos...rs!) - mas o supérfluo não deveria ser aquilo que dita a velocidade para nossas vidas.

Jesus ainda disse a seus discípulos: “Não pergunteis, pois, que haveis de comer, ou que haveis de beber, e não andeis inquietos [ansiosos]. Porque as nações do mundo buscam todas essas coisas; mas vosso Pai sabe que precisais delas. Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” Lucas 12:29-31.
Veja que Cristo diz que não é preciso estar inquietos, pois o mundo vive preocupado também com as “mesmas coisas”. Mas de quais coisas Cristo estaria falando? Veja que a lógica capitalista e a aceleração que esta impõe ao mundo é tão absurda que até os religiosos ao lerem esta passagem, atrelam-na a coisas que não foram prometidas por Cristo, ou seja, a coisas supérfluas (secundárias) como carro, casa, dinheiro, fama, etc., quando as tais “coisas” estão nos versículos 22; 28-29 que dizem sobre: vestimenta, comida, bebida, apenas isto.
Significa que Cristo diz que o mundo vive ansioso por coisas “necessárias” também (comer, vestir, beber), mas esta não deveria ser a preocupação dos cristãos (ali os apóstolos). Oras! Se não deveriam ter ansiedade por estas coisas que são “necessárias”, imagina só por coisas supérfluas!

Os religiosos atualmente usam mal o verso seguinte, que diz: “Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” Lucas 12:31. As tais “coisas acrescentadas” não são coisas supérfluas (secundárias) como muitas vezes nos é ensinado em cultos religiosos, como: dinheiro, emprego, casa, carro, etc. São as coisas necessárias (básicas) dos versos citados: comida, vestimenta, bebida (veja que não são só estas três coisas, pois o básico é mais do que isto, estas três coisas são citadas como uma espécie de arquétipo, como resumo da vida básica, mas esta explanação fica para uma próxima vez).

Alguém talvez pergunte: e o resto (o secundário), não devemos almejar ou ter? Eu diria que sim, mas estas coisas devem ser conquistadas com o “suor do trabalho” e sem aceleração; com um pouco de empenho e aproveitando as oportunidades que a vida dá sem fugir dos princípios cristãos. E isto nada tem haver com a lógica capitalista impregnada nas atuais igrejas que diz que Deus “prometeu” (?) tais coisas para aqueles que buscarem o Reino de Deus, não! Esta seria uma leitura tendenciosa que religiosos fazem para convencer seus membros a doarem mais do seu tempo e dinheiro (que quase não têm mais) para ter a tal “retribuição” divina supostamente prometida, ou seja, se doarmos nosso tempo e dinheiro para Deus (é para o Reino mesmo?), logo Deus teria que dar as “demais coisas acrescentadas” que prometeu, que seriam dinheiro, carro novo, casa, viagens, títulos, namorado bonito, uma empresa grande, cura de doenças (cura não é uma promessa universal, mas pontual), conversão de familiares, um pedacinho do céu, um patrão bonzinho, um vizinho legal; e tantas outras coisas que se pudéssemos perguntar tête à tête para Cristo hoje, provavelmente ele daria uma boa gargalhada para não dizer que ele choraria de desgosto.

Então as igrejas entram num frenesi capitalista absurdo usando esta teologia barata. Pior que muitas vezes alegam que não estão funcionando dentro desta lógica frenética capitalista, e chegam até a criticar outras denominações ou religiões chamando-as, estas sim, de capitalistas e propagadoras da Teologia da Prosperidade, quando na verdade a vasta maioria segue a mesma lógica da qual critica, só com a diferença do eufemismo barato que praticam em seus discursos.

O que precisamos fazer? Desacelerar!

Precisamos fugir desta lógica acelerada que o capitalismo nos impõe. E não estou aqui sendo utópico achando que o mundo será diferente disto. O que estou dizendo é que enquanto cristãos, quando estamos reunidos em uma igreja, no encontro dominical ou semanal, nas orações, nas meditações das Escrituras, no ensino religioso, nas pregações, no serviço cristão; precisamos fugir desta lógica o máximo que pudermos, caso contrário nos equipararemos ao mundo, como disse Cristo aos seus discípulos.
Pelo menos nestes lugares, que chamamos de Igreja (onde estiver três reunidos em meu nome – disse Jesus). Pelo menos nos relacionamentos cristãos precisamos fugir desta lógica. Mas infelizmente o que vejo é o contrário: estão esgotando cada vez mais os cristãos com esta lógica capitalista nas igrejas. Querem que eles trabalhem cada vez mais, não na direção do que é real e necessário para o serviço cristão (este sim está em falta nas igrejas), mas na direção de um pragmatismo influenciado pela aceleração pós-moderna capitalista, que ensina os religiosos apenas a “fazerem” muito, mas dificilmente para o Reino de Deus.

Os religiosos estão tão afundados nesta lógica que nem percebem o desgaste físico, mental e espiritual ao qual estão sendo submetidos todas as semanas. Os cultos se tornam cada vez mais máquinas de reprodução desta lógica mercantilizadora. E muitos ainda continuam esperando que Deus “acrescente” aquilo que ele prometeu (nos versos citados), quando o que ele prometeu provavelmente já foi dado há muito tempo à maioria de nós, e nem sequer percebemos isto por estarmos cegos por esta lógica capitalista religiosa. E continuamos correndo, fazendo, fazendo e fazendo, e não paramos para refletir, não desaceleramos um segundo só. Achamos que crescer, ter, fazer é sinônimo de servir a Deus, quando na verdade tudo isto pode não passar de exercício fútil.

Poucos são os líderes religiosos que buscam fugir desta lógica, que destinam seu tempo ao que realmente é necessário, que admitem que a busca de um cristão não está nas coisas óbvias do mundo, muito menos na ansiedade pelas coisas básicas da vida, pois as básicas (comer, beber, vestir-se) Deus prometeu que daria – DESDE QUE – para os que buscam o Reino dele, nada além disto. É, infelizmente, um ensino religioso superficial que nos tem tornado mais ansiosos, nos acelerando cada vez mais, então praticamos um anti-evangelho, contrário à real contemplação do Reino.

Cristo nos ensinou a desacelerar, o mundo a acelerar, a quem deveremos seguir, a quem?!

P.S.: numa leitura hermenêutica desta passagem, Cristo está falando diretamente aos que viriam a ser seus comissionados, ou seja, os apóstolos e provavelmente mais alguns poucos seguidores; pois se formos aplicar o texto literalmente teríamos também que fazer o que ele diz nos versos posteriores: “Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não rói” Lucas 12:33. Logo, se seguirmos literalmente, teríamos que virar “fransiscanos” ou “monges tibetanos” (ou coisa parecida). Logo, o que estou levando em consideração aqui é apenas o princípio da “não ansiedade” (inquietação) que Cristo ensino lá aos seus apóstolos, e que continua, ao meu ver, válida para nós hoje.

Att.

Fabiano Mina