março 09, 2013

Adoro o pecado, por isso luto contra a Graça.









Parafraseando a fala de um pensador que eu ouvi alguns dias atrás: se nós levássemos a sério realmente quem somos, em nosso mais íntimo, perceberíamos que o pecado é um fato e a Graça uma necessidade.

Que a nossa a vida é uma vida mais cheia de falhas, erros, limitações, isto é um fato incontestável, apesar de ter sempre alguém por aí achando que mais acerta do que erra na vida ou que é menos pecador. Isto ocorre porque somos seres imperfeitos vivendo em um mundo cheio de contingências, e o encontro dessas duas coisas não poderia ser outro do que uma vida cheia de falhas, erros, imperfeições. Logo, o que mais comemoramos em nossas vidas, principalmente ao chegar no final dela, é quando estes acertos de alguma forma nos eleva, quando eles nos permitem dizer que enfrentamos a vida com todas nossas armas e a “vencemos” no sentido de não ter desistido, e não no sentido de ter mais acertado do que errado. E um acerto específico, em relação à escolha que queremos enquanto significado de vida,  podemos atribuir à Graça.
Esta Graça é a necessidade que temos para conseguir enfrentar esta vida cheia dessas contingências, além das escolhas erradas que continuamente fazemos. 

Por outro lado há ainda aqueles que adoram mais o pecado. E pecado aqui não estou colocando apenas como aquelas falhas morais e éticas que normalmente os religiosos gostam de listar como se o cumprimento desta lista o fizessem “menos” pecadores. Estou dizendo o pecado no sentido mais ontológico que ele pode ter. Significa que nós somos "o" pecado (fabricamos erros), ou seja, nós constantemente falhamos (erramos = pecamos) mesmo quando não queremos ou por ignorância (cometemos erros por ignorância em algum sentido). Temos limitações, somos um poço de erros. Claro que isto faz parte do fato de sermos este ser incerto, imperfeito, limitado, e é exatamente por isso que necessitamos da Graça, pois é ela que nos “absolve” de quem nós mesmo somos; para só então nos tornarmos ou dar-nos a oportunidade de ascender a Deus. Porém, esta Graça constantemente é combatida pelos céticos-religiosos e/ou legalistas. Isto porque eles sempre olham mais para o pecado do que para a própria Graça. Eles adoram o pecado.

Quando digo isto, estou dizendo que os religiosos sempre falam e apontam para o óbvio: todos pecam, todos nós somos pecadores mesmo sendo crentes em Deus (Cristo). O problema é que isto está mais no  nosso discurso religioso do que propriamente na prática. Vivemos alegando que somos pecadores, mas na prática sempre fazemos questão de nos diferenciar um dos outros, mesmo dentro da própria religião, baseado em comportamentos legalistas. E é por isso que adoramos o pecado.

Estes tipos de religiosos adoram falar de pecado, apontar pecado, criticar o pecado, listar pecados, atribuir pecados, até mesmo fabricar novos pecados. Eles adoram o pecado, se regozijam pelo pecado, pois uma vez que houvesse a possibilidade de não mais existir o pecado (sua força que arrasta para a morte eterna), o "motivo desses religiosos para existirem" acabaria. Este tipo de religioso vai a um encontro religioso para ouvir o que o orador tem a dizer sobre o pecado e vibra quando a lista de pecados é dita, ou quando o "profeta"  acusa alguém de pecado, ou quando uma pessoa é desmascarada pelo seu pecado. Ele estuda sempre com foco no pecado, ele quer saber especificamente como aquele pecado existe ou se manifesta para então identificá-lo nos outros. Ele adora ver um acusação enfática e uma ação imediata contra o pecado alheio, uma vez que ele se sente o "paladino" da boa conduta religiosa.

Caso não tenham percebido, foi exatamente contra este tipo de religioso, “adorador” do pecado, que Jesus se levantou. Foram aqueles que quiseram atirar a pedra na prostituta, foram estes mesmos adoradores do pecado, pois apenas o pecado poderia proporcionar para eles aquela cena de linchamento público (nada mais regozijante do que existir o pecado para poder punir alguém, não?). O mesmo ocorreu como os críticos que reclamaram quando Cristo tive bate papo com a mulher samaritana, com os beberrões, glutões, com os cobradores de impostos, com os necessitados. Os adoradores do pecado foram quem reclamaram do trabalho aos sábados feito por Jesus e seus discípulos, e os mesmos que não aceitavam o perdão sem os sacrifícios mosaico (Lei de Moisés), uma vez que se o perdão proposto por Jesus fosse um fato, o pecado, que era a grande arma de acusação dos religiosos legalistas, perderia sua força. Até mesmo o irmão mais velho do Filho Pródigo não soube viver sua própria vida sem se valer do pecado do irmão, ele se alimentava do pecado alheio. 

Este era e continua sendo o grande problema da religião, mesmo a cristã. A grande maioria é adorador do pecado. Repito, não falo aqui do pecado moral e ético, pois estes adoradores do pecado até se esforçam para passar uma “boa imagem” no círculo religioso que frequentam, e até conseguem de certa forma. Por isso evitam ao máximo a pratica de pecados morais para os olhos da sociedade – eram assim que os fariseus se comportavam. Logo não é da proba conduta moral deles que falo, mas do fato da grande maioria deles sobreviver baseado no pecado dos outros. 
Os religiosos vivem apontando pecados, e em cima destes pecados fazem suas “carreiras” religiosas. Até mesmo seus seguidores se agarram mais aos pecados alheios, para se auto valorizarem em cima dos chamados “pecadores mundanos”, do que na Graça que os alcançou, ou seja, é como se criassem uma classe diferente de pecadores, já que os pecadores religiosos, por serem religiosos, seriam "menos" pecadores, seriam pecadores classe A, enquanto o resto do mundo seria "mais" pecadores, os de classe B.

Este tipo de visão contraria o fato de que não é o tipo de pecado (com exceção do pecado que “não tem perdão”, mas isto é para outro dia) que nos diferencia um dos outros, mas a Graça. A Graça não esconde pecado, não camufla pecado, não diferencia pecado; ao contrário, a Graça nos coloca em pé de igualdade diante um dos outros, e mostra que todos nós necessitamos dela, independente de quem somos ou o que fazemos.

Não é um santo, um líder religioso, um mestre, um ancião, um profeta, ninguém se salva do pecado, ninguém é “menos” pecador, ninguém é isento de condenação, e é isto o que incomoda os religiosos, pois os religiosos adoradores do pecado se agarram em performances moralmente aceitas pela sociedade. E porque vivem sob certas regras moralmente aceitas, se julga os pecadores da classe A, mesmo dentro da própria comunidade religiosa da qual pertencem. E decorrente disto, passam a escolher aqueles que estão próximo deles, os que assumirão os cargos religiosos, os que poderão falar em ou ao público, aqueles que terão o direito de condenar o pecado alheio, ensinar, administrar, até mesmo ganhar dinheiro para isto.
Passamos a ter então não um caminho da Graça ("...eu sou o caminho..." disse Jesus), mas uma máquina, uma indústria que se movimenta a partir do pecado alheio. E baseado nisto é que as pregações são feitas, os eventos, as músicas, as estratégias evangelísticas, as missões; inclusive é esta a leitura de santidade que passamos a atribuir a determinadas pessoas. ou seja, a religião cristã começa a ficar viciada em pecados, então começa a perder seu principal sentido de ser (eu disse principal e não único) que são as Boas Novas.      

Precisamos admitir que não só adoramos o pecado do ponto de vista da prática do mesmo (ética e moral), mas também o adoramos nos outros, porque ele se torna “arma” religiosa para nos impor sob os outros, para classificar, para manipular, para se perfazer. Se não admitirmos isto, continuaremos nossas vidas lutando contra a Graça de Deus.

A Graça não é anuladora do pecado, não é conivente com o pecado, mas ao mesmo tempo não é classificadora de pecados. Aliás, a própria Graça só tem sentido de existir exatamente porque "todos pecaram, não há sequer um que busque a Deus". A Graça simplesmente é uma necessidade em um mundo caótico, cheia de pessoas caóticas que precisam de uma direção rumo ao Céu. E é por isso e para isso que Cristo veio, não apenas para lutarmos contra nossos próprios pecados morais (esta luta é infinita), mas para sermos absolvidos de quem nós mesmos somos: adoradores do nosso pecado e do pecado alheio. A Graça nos dá respiro, nos dá alento, nos dá esperança de um dia estarmos livres de quem nós mesmos somos: pecadores que fazem do pecado nosso motivo de viver, quando nosso motivo deveria ser apenas a Graça divina.

Pense nisto, e lute não contra o pecado dos outros, mas contra quem você mesmo é.

Att.

Fabiano Mina