fevereiro 18, 2013

Cuidado! Nem toda "criança" é bem vinda para Cristo.





Deixa eu aplacar alguns possíveis ânimos antes de mais nada. A criança da qual me refiro está implícita no livro de Filipenses, e explícita no livro de Hebreus a seguir. Claro que a criança no sentido metafórico que sugere inocência e humildade, que Cristo ressalvou em seus discursos evangelísticos e exortatórios, é salutar. Por outro lado, há alguns aspectos na criança que também podem e devem ser ressaltados do ponto de vista negativo.  
Neste último fim de semana, acompanhando aulas de religião cristã junto a professores e alunos na igreja Batista IBG, busquei uma reflexão a partir de dois textos bíblicos importantes: Filipenses 1:18, e Hebreus 5:10-14 (simultaneamente e respectivamente dados nas salas de jovens e adultos). A despeito de uma hermenêutica mais aguçada, que seria possível a partir destes dois textos, o que enfatizarei aqui é a relação entre o "fazer" e a "intenção/motivação" baseado na maturidade cristã. 

Veja que o primeiro livro citado trata da manifestação, ampliação e repercussão do Evangelho, porém com o detalhe de que o autor de Filipenses alerta para a motivação desta pregação que é diversa; que às vezes pode ser boa, mas muitas vezes má ("por inveja e porfia"). No capítulo e versos citados de Hebreus, se ressalta a infantilidade daqueles que já deveriam ter uma prática cristã madura (contraposto à ideia de criança), consistente, bem fundamentada; que suscita a crítica do autor de Hebreus alegando que, ali, os tais cristãos “necessitam de leite e não de sólido alimento” (v. 12), ou seja, usando como exemplo meu próprio filho, quando ele ainda pequeno eu o nutria com alimento diferente do meu e da minha esposa. Obviamente porque ele não tinha preparo fisiológico de um adulto para absorver alguns alimentos. Mais do que isto, ele não tinha condições orgânicas de traduzir alguns alimentos em benefício próprio, isto porque alguns alimentos necessitavam primeiro de um “amadurecimento” orgânico, coisa que um criança ainda não possui. 
Assim é a analogia que o autor de Hebreus faz com alguns que apesar de estarem algum tempo na prática da vida cristã, ainda eram vistos pelo autor como crianças, como rasos, superficiais, limitados no crescimento e entendimento do verdadeiro Evangelho. A consequência disto era um "fazer" cristão, superficial, engessado, formalista, pragmático; tudo aquilo que não reflete a profundidade com a qual o autor de Hebreus compara posteriormente com a ação e motivação dos "pais da fé" (cap. 11).

É este o paralelo que encontro em Filipenses e Hebreus nos versos supracitados. Muitos estão “fazendo” alguma coisa no campo religioso, até apresentando “obras”, já algum tempo praticando a vida cristã, mas ainda não passam de "crianças", seja pelos maus motivos, pelas más intenções (ainda que o Evangelho esteja sendo pregado), seja pelo erro ritualístico, pela prática tradicionalista, pelas condutas religiosas superficiais, seja pela leitura – no sentido de entendimento – errada que se faz do Evangelho. Neste paralelo que faço entre estes dois textos, há tanto o erro pelas motivações (Filipenses) como pela prática religiosa em si (Hebreus). E tudo isto ocorre porque no lugar de “homens”, admitimos “crianças” para conduzir, fundamentar, divulgar, acrescer em nossa vida cristã.

Os erros das “crianças” são bastante comuns. Elas (os "religiosos-crianças") dizem o tempo todo que a vida cristã importante é a do indivíduo, o seu testemunho diário é que vale mais do que a prática religiosa institucional (pública institucional), mas na prática, dão mais valor para práticas/obras institucionais do que a vida individual, dão mais valor ao “fazer” do que ao “ser”. E isto por um simples motivo: “crianças” têm mais dificuldades em refletir, em observar, em identificar o "ser" do que o "fazer"; o fazer sempre é mais fácil e atrai mais, e criança gosta daquilo que atrai.
As “crianças” preferem sempre aqueles que as adulam, que lhes tragam doces, que lhes coloquem no colo. Por isso procuram sempre pelos bajuladores, por aqueles que concordam com suas ideias, seus comportamentos, mesmo que elas estejam no rumo errado ou equivocado, afinal de contas “crianças” não gostam de ser contrariadas.
“Crianças” preferem sempre o que dá certo, e não o que é verdadeiro. Veja que certo e verdadeiro não precisam ser coisas antagônicas, mas também não são coisas necessárias. Às vezes o que dá certo não significa que é o verdadeiro, e vice e versa. 
As “crianças” são monopolizadoras, e isto é típico de qualquer criança. Usando outra vez o exemplo do meu filho, ele pensa que o mundo gira em torno dele, pois, segundo a psicopedagogia e as ciências psico-cognitivas, a criança só percebe o mundo ao seu redor, que exige reciprocidade e limites, depois de madura. Portanto, enquanto criança tudo que ela fará será em pró de si mesma, de suas ideias, de seus desejos, e não olhando para o outro, para o todo. 
Uma criança mesmo quando se mostra receptiva, aberta ao diálogo, só o faz se o que propomos estiver na direção que ela determina, que ela deseja, caso contrário, como toda criança, ela se torna arredia, indisciplinada, às vezes rancorosa e vingativa, logo passiva de correção ou exortação. Mas as “crianças” nunca querem se preocupar com estas tais supostas querelas religiosas, pois dá muito trabalho, exige reflexão, pensamento, autocrítica, saber ouvir mais do que falar. Não adianta berrar ou espernear, é preciso responsabilidades de gente grande.  Então elas preferem continuar "crianças" em vez de crescer (não à toa,  ap. Paulo disse ter deixado de ser criança para só então fazer coisas de adulto).

É por isso que tanto em Filipenses 1:18 como em Hebreus 5:10-14, clama-se não por “crianças”, mas por homens; porém o que naquele momento estava ocorrendo era a prevalência de “crianças” na comunidade cristã da época em vez de homens. 
O Evangelho não deve existir só pelo "fazer", mas pelo saber porque se faz e como se faz. O fazer não deve ser um fazer por motivações quaisquer, mas um fazer com motivações genuínas e fundamentadas. Logo, não é pelo “muito” fazer, mas por um fazer certeiro, verdadeiro, com fundamento,e aí reside a diferença entre homens e crianças. 

Homens não se preocupam em fazer o próprio marketing, em agradar esse ou aquele, antes se aprofundam em suas convicções em pró de um fazer cristão bem respaldado. Homens não encaram a religião como profissão ou trabalho, por isso estão prontos para largar cargos, títulos, poder, lugar, dinheiro; se isto significar crescimento, melhora, aprofundamento, autocrítica, etc. Homens não estão presos a coisas ou pessoas, mas a ideias de um cristianismo genuíno, ainda que resulte em magoar pessoas. É por isso que o próprio autor de Felipenses diz que aprendeu a viver em todas as situações, sejam elas quais forem.
Homens não ficam procurando culpados, afinal de contas todos são em alguma medida, inclusive eles, os homens, culpados quando algo dá errado em uma comunidade. Eles simplesmente buscam homens para caminhar junto com eles, pois sabem que homens assumem suas responsabilidades, enquanto "crianças" apenas reclamam, choram, esperneiam, quando na melhor das hipóteses ficam felizes quando são elogiadas ou quando pegas no colo.
Os homens requeridos em Hebreus, tipificados pelos "heróis da fé", são diferente dos que só o leite podiam tomar. Alguns assuntos, algumas críticas, algumas soluções, algumas ideias, só podem ser ditas, faladas, cobradas de homens, e não de "crianças". E não confundam o ser homem com a idade do sujeito. Hebreus está tratando de pessoas que já deveriam “ser mestres” devido a idade ou tempo que tinham, tanto cronológica como no cristianismo, porém ainda eram “crianças”, aquelas crianças com comportamentos que citei acima. Veja então que ser criança, muito mais do que idade, está atrelado às motivações e ao fazer da vida cristã e não à idade (apenas).

Homens se cansam de ver coisas sérias sendo levadas por crianças. Ainda que eu ame meu filho, ainda que suas intenções sejam as melhores, eu não conseguiria ver meu filho dirigir meu carro, pagar as minhas contas, dar as ordens na casa, conduzir a família. Isto seria um absurdo. O mesmo ocorre na vida religiosa: quando deixamos “crianças” mandarem, controlarem, estabeleceram regras e caminhos para a vida cristã, isto causa revolta, assim como ocorreu com o autor de Hebreus. Da mesma forma o autor de Filipenses admite que o Evangelho até pode continuar a ser pregado, o que não significa que o está da maneira ou motivação correta quando feito por crianças.

Devemos então avaliar e levar a sério nossas decisões, nossos interesses, nossas práticas. Não podemos mais ficar escondidos no “fazer”, pois isto não garantiu que os cristãos lá em Hebreus estivessem no caminho certo. Não podemos mais usar a pregação do Evangelho como desculpa para camuflar nossas verdadeiras intenções no meio religioso do qual participamos. É preciso deixar de sermos “crianças”, ou é preciso exigir que as “crianças” que estão em nosso meio deem espaço para os homens, para os adultos resolverem o que deve ser resolvido e fazer o que deve ser feito. E tudo isto para o bem de nós mesmos, se é que queremos um Evangelho forte e consistente.

Por favor, que as “crianças” não se ofendam.

Att.

Fabiano Mina