fevereiro 25, 2013

Pode ou não pode, eis a questão!





É fato que grande parte das pessoas buscam sempre um tipo de “muleta” para viverem suas vidas, em todos os sentidos. O ser humano é um ser estranho, pois na mesma medida em que ele anela por liberdade, também busca algum tipo de regra dada por algum “tutor” para sua vida. Não que na vida não precisemos de pessoas que nos auxiliem de alguma forma, mas o ideal seria caminharmos para um amadurecimento cada vez maior, sem precisar desses “tutores”, afinal de contas - análogo a uma criança que depois que aprendeu a andar deve caminhar sozinha - quando vamos obtendo experiências na vida, aprendendo com nossos acertos e erros, criando nossas convicções, deveríamos aprender a andar cada vez mais com nossas próprias pernas, e não com a dos outros. Deveríamos cada vez menos pedir permissão, autorização, direção, etc., para os “tutores”, das coisas que já deveriam ser superadas por nós ou no mínimo já conhecidas. Mas é claro que na realidade não é bem assim. A maioria ainda prefere “tutores”, prefere que assumam suas responsabilidades, suas vidas, que digam o que deve ou não ser feito. E aqui não estou falando de crianças ou adolescentes, estou me referindo aos adultos, dos mais novos aos mais velhos.

Esta mania de buscar sempre “tutores” para nossas vidas, ao meu ver, na maioria dos casos, é sinônimo de covardia. Todos precisamos em alguma medida de direção, mas se repararmos na maioria das solicitações, dos assuntos, das dúvidas, dos desejos e interesses, veremos que são em grande parte problemas infantis, as mesmas quimeras, as mesmas angústias imaturas dos que buscam por “tutores” e não por emancipação. Como eu disse - raras exceções - para mim isto é covardia. Covardia no sentido de medo de enfrentar as próprias decisões, medo de errar, medo das consequências, medo do julgamento alheio, de enfrentar os próprios medos. Então fica mais fácil submeter outros às nossas responsabilidades, fica mais fácil deixar que os "tutores" decidam por nós. Covardes!

Assim é o que a religião – hoje em dia evangélicos têm sido campeões nisto – tem feito ao longo dos séculos. Sempre as famigeradas perguntas: pode ou não pode, isto é ou não pecado, é errado fazer isto ou aquilo, isto é lícito, isto é legal, etc. Ficam buscando justificativas ou permissões para algum tipo de comportamento ou interesse específico, quando a religião verdadeira (verdadeira no sentido de ligar-se a Deus) não deve perpetuar este tipo de infantilidade. Pior ainda é que continuamos a incentivar este tipo de comportamento infantil na medida em que não permitimos que as pessoas tomem suas próprias decisões como “adultos” que devem ser. Então assumimos suas responsabilidades. A questão não é apenas se pode ou não pode (devemos refletir sobre a moral e ética), mas se estamos também dispostos a assumir as consequências das nossas decisões, estamos?

Já sei, já sei, algum "espiritual de plantão" que possui uma capacidade ímpar vai dizer: o que vale é o que está escrito nas Escrituras. A estes eu respondo: o dia em que você me provar que há consenso dos tais "espirituais" acerca do que está nas Escrituras, então eu aceitarei este argumento. Enquanto isto, o máximo que eu aceito é que as "interpretações" são diferentes (todas sujeitas a erros e limitações), o que prova duas coisas pelo menos: 1) nem tudo é tão explícito assim, exigindo certas escolhas às vezes incertas; 2) nós todos somos limitados na interpretação dos escritos sagrados, o que sugere que nossas verdades nem sempre são as verdades sagradas. Isto implica que nós, como adultos, é quem deveremos fazer nossas escolhas de forma madura, clara, objetiva, sem transferir a responsabilidade para ninguém E seja lá qual for a decisão, alguém iremos desagradar.  

Sinceramente eu percebo certo eufemismo quando em alguns discursos religiosos ouvimos falar: - olha, isto não é pecado, mas não pode fazer, não é bem assim. Oras! Afinal, pode ou não? É ou não é errado? Isto que supostamente não pecado diminui ou não o caráter ou moral de uma pessoa? Tal prática no torna menos santos e espirituais ou não?
Será que poderíamos pensar em uma alternativa de que nem tudo é tão "preto no branco", exigindo de nós certa avaliação contextual do momento de tal prática? De qualquer forma quem decide diante deste contexto, não seria o próprio sujeito que o vivencia?
Algumas pessoas, sejam as crianças-adultas ou os "tutores" delas, não querem admitir que certas coisas não podemos nem devemos avaliar ou julgar pelos outros, já que algumas decisões são pontuais, locais, específicos para determinado momento, e não universal como num livro de "pode não pode". Logo, deveríamos estar mais preocupados em ensinar ou permitir que as pessoas cresçam em vez de ficarmos decidindo sempre por elas, aplicando a elas nossas parcas avaliações espiritualistas.

Desta forma, por estarmos rodeados de tantas crianças mimadas, ficamos em cima do muro com medo de admitir e falar para elas que certas coisas não estão tão explícitas assim, então elas quem deverão decidir enquanto adultos que devem ser. Algumas coisas dependem de uma avaliação pessoal do próprio indivíduo, a partir de suas experiências, suas limitações, de seus entendimentos, de seus interesses. Há coisas que não estão escritas como num decálogo ou como um livro de "receita de bolo" da boa moral. O que exige de nós uma contínua reflexão, embasado sempre em cada contexto específico.

Não! Antes que você imagine, não estou sugerindo um relativismo (aconselho você entender melhor o conceito relativismo, caso tenha pensado nisto). Na verdade o que sugiro é muito mais unívoco, é uma verdade fundamental, é universal. E que verdade é esta? A de que adultos devem decidir acerca daquilo que não está explícito nos livros sagrados (seja de qual religião for).
Naquilo em que um livro sagrado for explícito - como matar, roubar, atentar à segurança, etc. -, não há discussão. Mas no que não for explícito, não adianta este papo de que “para mim” é assim ou assado então façam o que eu digo da forma que eu interpreto, ou acreditem em mim porque sou o que melhor interpreta as Escrituras. Este sim seria um discurso não só relativista (estaria relativo ao sujeito), mas bem prepotente. Naquilo em que não há explicitamente um regra, a REGRA então é: faça aquilo que sua maturidade lhe disser, faça aquilo que sua consciência madura mandar, faça aquilo que os princípios e valores que você conquistou ao longo da vida lhe apontarem. Desde que se lembre que as consequências dos seus atos são suas, somente suas.
Portanto, relativismo é quando falamos que não há verdade absoluta ou universal. Mas o que estou propondo é que existe sim uma verdade universal e absoluta nestes casos: a de que há certas coisas que cabem ao indivíduo decidir baseado em suas experiências e contexto, conjunto aos princípios que este possuir. Esta é uma dialética da qual o homem nunca escapará.

Veja que todos aqueles que seguem princípios (e estes sim, e somente estes são explícitos em livros sagrados quaisquer que forem) são capazes de fazerem suas escolhas. Com isto também não estou dizendo que todas nossas escolhas serão corretas, até porque não existe um “santo” se quer que tenha acertado em tudo ou feito todas as escolhas corretas, ou você conhece alguém? O que estou dizendo é que nossas escolhas, uma vez pautadas em princípios, aquilo que não for explícito deve ser de responsabilidade pessoal, de fórum íntimo, sem “tutores”, pois isto infantiliza em vez de “libertar-nos” para nossas responsabilidades individuais, afinal de contas seremos cobrados um dia, seja como for, por nossas decisões (ou pela omissão delas). Logo, se seremos cobrados, então que sejamos por aquilo que decidirmos e não pelo que os outros decidirem por nós.

Destarte, não vivam uma vida infantilizada sempre perguntando as mesmas coisas, se pode isto, se pode aquilo, se isto é certo, se isto é errado. É preciso chegar uma hora em que tenhamos nossas próprias convicções, sigamos nossos próprios caminhos, ainda que lá na frente percebamos que errarmos e que será preciso voltar (o Filho Pródigo passou por isso, mas decidiu). E não tenha medo de errar, todos erramos. Admitir que erramos é algo óbvio demais para termos medo de admitir e isto faz parte da vida. Até porque se alguém reclamar que suas decisões foram erradas, questionem assim: aquele que nunca errou em suas decisões, atire a primeira pedra. O preço da liberdade é a escolha, o preço da escolha é o acerto, mas também o erro.

É isto, cresça!

Fabiano Mina




fevereiro 18, 2013

Cuidado! Nem toda "criança" é bem vinda para Cristo.





Deixa eu aplacar alguns possíveis ânimos antes de mais nada. A criança da qual me refiro está implícita no livro de Filipenses, e explícita no livro de Hebreus a seguir. Claro que a criança no sentido metafórico que sugere inocência e humildade, que Cristo ressalvou em seus discursos evangelísticos e exortatórios, é salutar. Por outro lado, há alguns aspectos na criança que também podem e devem ser ressaltados do ponto de vista negativo.  
Neste último fim de semana, acompanhando aulas de religião cristã junto a professores e alunos na igreja Batista IBG, busquei uma reflexão a partir de dois textos bíblicos importantes: Filipenses 1:18, e Hebreus 5:10-14 (simultaneamente e respectivamente dados nas salas de jovens e adultos). A despeito de uma hermenêutica mais aguçada, que seria possível a partir destes dois textos, o que enfatizarei aqui é a relação entre o "fazer" e a "intenção/motivação" baseado na maturidade cristã. 

Veja que o primeiro livro citado trata da manifestação, ampliação e repercussão do Evangelho, porém com o detalhe de que o autor de Filipenses alerta para a motivação desta pregação que é diversa; que às vezes pode ser boa, mas muitas vezes má ("por inveja e porfia"). No capítulo e versos citados de Hebreus, se ressalta a infantilidade daqueles que já deveriam ter uma prática cristã madura (contraposto à ideia de criança), consistente, bem fundamentada; que suscita a crítica do autor de Hebreus alegando que, ali, os tais cristãos “necessitam de leite e não de sólido alimento” (v. 12), ou seja, usando como exemplo meu próprio filho, quando ele ainda pequeno eu o nutria com alimento diferente do meu e da minha esposa. Obviamente porque ele não tinha preparo fisiológico de um adulto para absorver alguns alimentos. Mais do que isto, ele não tinha condições orgânicas de traduzir alguns alimentos em benefício próprio, isto porque alguns alimentos necessitavam primeiro de um “amadurecimento” orgânico, coisa que um criança ainda não possui. 
Assim é a analogia que o autor de Hebreus faz com alguns que apesar de estarem algum tempo na prática da vida cristã, ainda eram vistos pelo autor como crianças, como rasos, superficiais, limitados no crescimento e entendimento do verdadeiro Evangelho. A consequência disto era um "fazer" cristão, superficial, engessado, formalista, pragmático; tudo aquilo que não reflete a profundidade com a qual o autor de Hebreus compara posteriormente com a ação e motivação dos "pais da fé" (cap. 11).

É este o paralelo que encontro em Filipenses e Hebreus nos versos supracitados. Muitos estão “fazendo” alguma coisa no campo religioso, até apresentando “obras”, já algum tempo praticando a vida cristã, mas ainda não passam de "crianças", seja pelos maus motivos, pelas más intenções (ainda que o Evangelho esteja sendo pregado), seja pelo erro ritualístico, pela prática tradicionalista, pelas condutas religiosas superficiais, seja pela leitura – no sentido de entendimento – errada que se faz do Evangelho. Neste paralelo que faço entre estes dois textos, há tanto o erro pelas motivações (Filipenses) como pela prática religiosa em si (Hebreus). E tudo isto ocorre porque no lugar de “homens”, admitimos “crianças” para conduzir, fundamentar, divulgar, acrescer em nossa vida cristã.

Os erros das “crianças” são bastante comuns. Elas (os "religiosos-crianças") dizem o tempo todo que a vida cristã importante é a do indivíduo, o seu testemunho diário é que vale mais do que a prática religiosa institucional (pública institucional), mas na prática, dão mais valor para práticas/obras institucionais do que a vida individual, dão mais valor ao “fazer” do que ao “ser”. E isto por um simples motivo: “crianças” têm mais dificuldades em refletir, em observar, em identificar o "ser" do que o "fazer"; o fazer sempre é mais fácil e atrai mais, e criança gosta daquilo que atrai.
As “crianças” preferem sempre aqueles que as adulam, que lhes tragam doces, que lhes coloquem no colo. Por isso procuram sempre pelos bajuladores, por aqueles que concordam com suas ideias, seus comportamentos, mesmo que elas estejam no rumo errado ou equivocado, afinal de contas “crianças” não gostam de ser contrariadas.
“Crianças” preferem sempre o que dá certo, e não o que é verdadeiro. Veja que certo e verdadeiro não precisam ser coisas antagônicas, mas também não são coisas necessárias. Às vezes o que dá certo não significa que é o verdadeiro, e vice e versa. 
As “crianças” são monopolizadoras, e isto é típico de qualquer criança. Usando outra vez o exemplo do meu filho, ele pensa que o mundo gira em torno dele, pois, segundo a psicopedagogia e as ciências psico-cognitivas, a criança só percebe o mundo ao seu redor, que exige reciprocidade e limites, depois de madura. Portanto, enquanto criança tudo que ela fará será em pró de si mesma, de suas ideias, de seus desejos, e não olhando para o outro, para o todo. 
Uma criança mesmo quando se mostra receptiva, aberta ao diálogo, só o faz se o que propomos estiver na direção que ela determina, que ela deseja, caso contrário, como toda criança, ela se torna arredia, indisciplinada, às vezes rancorosa e vingativa, logo passiva de correção ou exortação. Mas as “crianças” nunca querem se preocupar com estas tais supostas querelas religiosas, pois dá muito trabalho, exige reflexão, pensamento, autocrítica, saber ouvir mais do que falar. Não adianta berrar ou espernear, é preciso responsabilidades de gente grande.  Então elas preferem continuar "crianças" em vez de crescer (não à toa,  ap. Paulo disse ter deixado de ser criança para só então fazer coisas de adulto).

É por isso que tanto em Filipenses 1:18 como em Hebreus 5:10-14, clama-se não por “crianças”, mas por homens; porém o que naquele momento estava ocorrendo era a prevalência de “crianças” na comunidade cristã da época em vez de homens. 
O Evangelho não deve existir só pelo "fazer", mas pelo saber porque se faz e como se faz. O fazer não deve ser um fazer por motivações quaisquer, mas um fazer com motivações genuínas e fundamentadas. Logo, não é pelo “muito” fazer, mas por um fazer certeiro, verdadeiro, com fundamento,e aí reside a diferença entre homens e crianças. 

Homens não se preocupam em fazer o próprio marketing, em agradar esse ou aquele, antes se aprofundam em suas convicções em pró de um fazer cristão bem respaldado. Homens não encaram a religião como profissão ou trabalho, por isso estão prontos para largar cargos, títulos, poder, lugar, dinheiro; se isto significar crescimento, melhora, aprofundamento, autocrítica, etc. Homens não estão presos a coisas ou pessoas, mas a ideias de um cristianismo genuíno, ainda que resulte em magoar pessoas. É por isso que o próprio autor de Felipenses diz que aprendeu a viver em todas as situações, sejam elas quais forem.
Homens não ficam procurando culpados, afinal de contas todos são em alguma medida, inclusive eles, os homens, culpados quando algo dá errado em uma comunidade. Eles simplesmente buscam homens para caminhar junto com eles, pois sabem que homens assumem suas responsabilidades, enquanto "crianças" apenas reclamam, choram, esperneiam, quando na melhor das hipóteses ficam felizes quando são elogiadas ou quando pegas no colo.
Os homens requeridos em Hebreus, tipificados pelos "heróis da fé", são diferente dos que só o leite podiam tomar. Alguns assuntos, algumas críticas, algumas soluções, algumas ideias, só podem ser ditas, faladas, cobradas de homens, e não de "crianças". E não confundam o ser homem com a idade do sujeito. Hebreus está tratando de pessoas que já deveriam “ser mestres” devido a idade ou tempo que tinham, tanto cronológica como no cristianismo, porém ainda eram “crianças”, aquelas crianças com comportamentos que citei acima. Veja então que ser criança, muito mais do que idade, está atrelado às motivações e ao fazer da vida cristã e não à idade (apenas).

Homens se cansam de ver coisas sérias sendo levadas por crianças. Ainda que eu ame meu filho, ainda que suas intenções sejam as melhores, eu não conseguiria ver meu filho dirigir meu carro, pagar as minhas contas, dar as ordens na casa, conduzir a família. Isto seria um absurdo. O mesmo ocorre na vida religiosa: quando deixamos “crianças” mandarem, controlarem, estabeleceram regras e caminhos para a vida cristã, isto causa revolta, assim como ocorreu com o autor de Hebreus. Da mesma forma o autor de Filipenses admite que o Evangelho até pode continuar a ser pregado, o que não significa que o está da maneira ou motivação correta quando feito por crianças.

Devemos então avaliar e levar a sério nossas decisões, nossos interesses, nossas práticas. Não podemos mais ficar escondidos no “fazer”, pois isto não garantiu que os cristãos lá em Hebreus estivessem no caminho certo. Não podemos mais usar a pregação do Evangelho como desculpa para camuflar nossas verdadeiras intenções no meio religioso do qual participamos. É preciso deixar de sermos “crianças”, ou é preciso exigir que as “crianças” que estão em nosso meio deem espaço para os homens, para os adultos resolverem o que deve ser resolvido e fazer o que deve ser feito. E tudo isto para o bem de nós mesmos, se é que queremos um Evangelho forte e consistente.

Por favor, que as “crianças” não se ofendam.

Att.

Fabiano Mina 

fevereiro 14, 2013

Papa Bento XVI, um temor na entrada, mas um sucesso na saída.





Ok... eu resisti o quanto pude, mas não deu, confesso sou um pecador necessitado de misericórdia, pois prometi a mim mesmo que não entraria em debates, faria textos, aumentaria ou alardearia ainda mais a saída do papa Bento XVI (Joseph Alois Ratzinger) do que já está ocorrendo na última semana. Mas pequei, então comentarei mesmo assim.

Bento XVI é, para os que não sabem, considerado um religiosos e teólogo (não é pleonasmo, hein!) conservador. Mas cuidado ao achar que todo conservador é sinônimo de ruim ou antiquado. Há no conservadorismo moral e ético algo necessário, caso contrário toda e qualquer religião que se diga cristã poderia fechar suas portas e ir embora. Bento XVI é desses que têm dificuldade em aceitar que a modernidade (ou pós-modernidade) deva ditar as regras éticas, morais, e acima de tudo teológicas para o mundo (eu também em grande parte). Claro que isto deveria ser óbvio em se tratando de religião, mas infelizmente algumas pessoas não atentam para isto: de que a Igreja, seja católica ou qualquer outra, possui um escopo de mundo diferente da secularidade. Mas é claro que outros estudiosos teólogos e mesmo religiosos sabem disto, e ainda assim são críticos a ele. Logo, o problema não está apenas nisto, no fato dele ser um conservador, mas na forma como ele se dá ao diálogo com outras frentes religiosas - sejam das alas católicas internas à Roma, ou referente às outras religiões no mundo, como judaísmo, islamismo e protestantismo - e com o mundo secular. Neste quesito Bento XVI é bastante enfático em defender sua posição teológica cristã católica conservadora, e a despeito de concordarmos ou não com sua teologia, o mesmo não se pode dizer da sua postura no sentido de ser bastante direto e objetivo em sua postura teológica. E aqui começa minha crítica aos críticos de plantão, e isto porque é desnecessário eu fazer críticas seja ao catolicismo seja ao próprio Bento XVI, pois isto qualquer um poderá ler em diversos livros e textos espalhados por aí.

A crítica a qual me refiro são àqueles que não possuem um postura, conservadora ou liberal, clara e objetiva, então ficam “dançando conforme a música”. Sim... há religiosos nas diversas religiões de hoje que estão mais preocupados em agradar a modernidade, ao “clero” religioso, à diretoria de plantão, aos membros infantilizados, à cúpula Convencional, à conta bancária, do que a sua própria concepção teológica, isto quando tem é claro! O que mais temos são religiosos que ensinam e pregam tanta parafernália que não conseguimos identificar no final das contas qual a postura teológica de tais sujeitos. Eles falam/caminham apenas para onde o “vento sopra”. Se precisar de dinheiro falam de prosperidade, se há fofocas falam de doutrinas, se há cobrança falam de autoridade, se há críticas falam de santidade, se há desvios falam de inferno, e assim por diante. Não que tais coisas não devam ser abordadas, mas o problema fundamental é: qual é a linha teológica desses, suas ideia de cristianismo, suas crenças de forma explícita, seus entendimentos eclesiásticos, suas intenções enquanto ministério, etc. São coisas que nunca estão explícitas, e a maioria faz isto exatamente para escapar, como um peixe escapa das mãos do pescador, das críticas ou cobranças daqueles que têm gabarito para tal, pois quando uma pessoa não se define, não coloca as “cartas na mesa”, fica mais difícil dela ser criticada ou cobrada, ao mesmo tempo que passa ser mais aceita pelos leigos religiosos, ao passo que fica também mais fácil para ela manipular e ao mesmo tempo se moldar conforme o “público religioso” pós-moderno o deseja. Ou seja, são líderes que não moldam o mundo, antes são moldados a “gosto dos clientes” religiosos.

Bento XVI, com toda contestação que também lhe é caro, entrou conservador e saiu conservador objetivamente. Entrou sob olhares de desconfiança, mas saiu muito mais aplaudido, inclusive por seus algozes teólogos (como Hans Küng e Leonardo Boff, grandes teólogos também). Significa que mesmo aqueles que não compartilham de sua postura teológica, concordam que Bento XVI largou a batina porque entendeu que sua teologia não pode resistir aos interesses de seus pares clérigos, que querem um diálogo mais franco com a modernidade, ao mesmo tempo admitiu que não irá abrir mão de sua postura teológica, ainda que para os outros ela esteja ultrapassada (até porque para provar que ele está errado, terá que ser alguém também de grosso calibre teológico, coisa que no mundo atual é coisa para poucos, ou melhor, pouquíssimos). O que ele então faz? Abdica do trono papal. No mínimo um ato corajoso, devemos admitir, para não dizer honroso. Isto não significa que ele “venceu” (que é o que os líderes moderninhos mais estão interessados: em vencer, em sucesso, em dinheiro, em fama, em lugar cativo), significa apenas que ele quer recuperar a paz com sua consciência, ou seja, se não dá para ele exercer objetivamente aquilo que ele defende enquanto religioso, então ele abre espaço para outro (seja por motivo de doença, seja por ideologia teológica conservadora), e que este outro seja objetivo como ele foi. 

Indiferente de seu conservadorismo ser válido ou não para nossa pós-modernidade, o que estou ressaltando é sua clareza, objetividade teológica, sua postura eclesial, que nunca ficou em cima do muro, ao contrário de outros líderes religiosos que o criticam, que se aproveitam deste momento e saem de dentro de suas cavernas, cheias de entulhos de hipocrisia achando que sua saída é pior do que sua entrada, quando é o contrário: sua saída ressalta mais sua postura honrosa do que os interesses eclesiásticos que o levaram ao papado. O críticos religiosos não percebem é que o melhor para eles deveria ser pelo menos duas coisas: assumir de uma vez por todas uma postura teológica, e/ou abrir mão do cargo religioso e ir fazer outra coisa mais proveitosa, em vez de ficar “dançando conforme a música” só para agradar “meia-dúzia” (foi eufemismo, é claro!) de religiosos pós-moderninhos que buscam a religião da mesma forma como vão ao supermercado ou ao shopping fazer compras para massagear o ego.

É isto! Att.

Fabiano Mina