janeiro 17, 2013

O preço da liberdade é a escolha, e o da escolha são os acertos e erros!





Muitas vezes nos pegamos questionando porque a vida nos prega algumas surpresas, e em grande parte desagradáveis. A partir disto começamos a buscar respostas de todos os tipos possíveis, dos mais coerentes aos mais escabrosos. Em meio a tantos questionamentos e tentativas de respostas, muitas vezes começamos a colocar até mesmo Deus no meio delas a nosso modo. Daí surgem religiosidades, técnicas espiritualistas, teologias, mantras, gospel, manias, rituais, gurus, líderes espirituais, manipuladores de poder ou das massas, intérpretes de escrituras sagradas, instituições religiosas, etc. É o ser humano há milênios tentando sempre responder o irrespondível, ou tentando manipular o imanipulável. E não se enganem, o ser humano faz isto até hoje, ainda que pense ser ele moderno, mas de moderno só possui a casca (formas), pois o modo de pensar continua sendo o mesmo: acreditamos sempre que temos as respostas ou que a teremos definitivamente. No final das contas a religião é isto: é a tentativa de fazer da fé uma resposta palpável, lógica, manipulável. 

Vou tentar melhorar esta compreensão. Significa que porque tentamos responder grande parte dos nossos questionamentos, tendemos a “fabricar” respostas, ou seja, criamos um mundo nosso de afirmações e queremos que Deus se adéque a ele. Passamos inclusive a acreditar que Deus de fato age, pensa, afirma algumas coisas simplesmente porque é assim que pensamos ele no “nosso” mundo. Porém, bastaria um pouco mais de esforço, sinceridade e uma boa pitada de reflexão profunda para percebermos que a maior parte das nossas respostas, ideias, pensamentos sobre a vida e Deus são apenas fabricações humanas. Com isto não estou aqui me aproximando de algum tipo de ateísmo velado ou ceticismo pós-moderno, estou apenas afirmando que Deus está muito além dessas ideias mirabolantes que criamos a respeito dele, e muito mais do que isto Deus está muito distante das respostas que tentamos dar acerca dele, ou mesmo da vida. É por isso que grande parte das mensagens, ensinamentos, palestras, seja lá o que for que falem de Deus, no final das contas são superficialidades, são fabricações humanas, são aspirações individuais ou coletivas, transformadas em dogmas, em regras, em leis. São interpretações fajutas em grande parte, que são tentativas de respostas, mas que não passam de tentativas apenas.

Sei que este tipo de compreensão ou constatação não é algo quisto pela maioria, e é exatamente por isso que a maioria vive brincando de ser religioso, de ter fé, de “conhecer” a Deus, ainda que seja por boa intenção e com sinceridade (boa intenção e sinceridade não são sinônimas de estar ou conhecer a verdade, lembre-se disto!). Esta constatação da qual falo é de que conhecemos muito pouco sobre os desígnios divinos, sobre o sentido ou a lógica da vida, principalmente sobre nosso “destino” ou algo parecido. O fato é que nem conhecemos exatamente o que vai acontecer conosco daqui alguns minutos, quanto mais tentar elaborar respostas cosmológicas, ainda que lógicas, sobre a vida. 

Também não estou dizendo que não devamos fazer isto (buscar repostas), na verdade todas as formas de ciências que temos no mundo são, no final das contas, tentativas de respostas. Por outro lado, uma coisa é tentar, outra coisa é conseguir. O ser humano é movido pela busca, e por isso constantemente buscamos respostas, o sentido último e significado da vida. Mas a fé em um mundo celeste, ou uma vida divina, não é exatamente viver alicerçado em respostas coerentes e lógicas; muitas vezes é o contrário disto: é viver alicerçado na fé exatamente porque a vida não possui sentido claro e objetivo. É viver pela fé exatamente porque nunca teremos respostas suficientes por mais que nos esforcemos. Isto porque a vida é um paradoxo constante, porque não temos domínio nem mesmo das nossas vidas particulares. Logo, a única saída – e ser quiser chamar de coerente – é no meio do caos, dos paradoxos, da falta de sentido, acreditar que no final de tudo há um Sentido Maior, ainda que não o conheçamos de imediato nesta vida, e é a isto que a fé nos remete. É aí que ela se torna válida, é aí que ela fica mais forte, pois a fé é exatamente a “in-coerência” num mundo de insistentes fabricações coerentes, mas sem nunca lograrmos êxito. A fé é a crença que surge exatamente pela falta de lógica no mundo. Um mundo que de tão efêmero nunca temos respostas duradouras e definitivas. É por isso que a fé nos impulsiona a Deus. Não porque Deus nos dê as respostas que queremos, mas porque ele é a resposta que precisamos, ou seja: num mundo sem respostas, a única resposta é a fé nele.

E talvez alguém questione: - por que um mundo assim, onde não há lógica, coerência, onde há paradoxos, onde não temos todas as respostas que gostaríamos? Eu diria: este é o preço da liberdade, da escolha, de poder viver com uma identidade. E neste caminho acertamos e erramos, em grande parte mais erramos. Se fosse o contrário disto, se tivéssemos tudo logicamente perfeito, respondido, objetivo, não tenha dúvidas que aí não residiria a liberdade nem a escolha, antes apenas as “cartas marcadas” de um mundo mecânico e de um deus limitado pela lógica. 
Deus é Liberdade exatamente porque ele não pode ser mensurado nem limitado pela lógica humana. Pense nisto!

Att.
Fabiano Mina