janeiro 13, 2013

A crítica dos hipócritas aos hipócritas





Um dia desses, cá com meus botões, eu estava perguntando: por que as tão velhas e famigeradas críticas que fazemos a tantas coisas de forma tão diversa, não surtem os resultados esperados? Por que temos tão aguçada e encorpada crítica ao mundo, mesmo assim o mudo parece piorar (mesmo em se tratando dos religiosos)?
Claro que numa resposta mais apressada, tenderíamos a pensar que isto ocorre porque não há boa vontade daqueles que estão no poder, dos que são os manipuladores das massas, dos que possuem o controle do saber e do pensar. Tais críticas possuem lá seu fundamento, mas acredito que a problemática é ainda mais profunda.

Se recorrermos aos textos bíblicos, por exemplo, veremos que Cristo foi ferrenho crítico dos hipócritas de sua época, homens que se submetiam a seus próprios valores moralistas, mas nunca aos valores verdadeiramente universais. Significa que esses hipócritas estavam preocupados apenas em criar regras e leis que lhes dessem aparência de paladinos da boa moral, porém tais regras eram utilizadas apenas para manter a manipulação da qual eles usufruíam diante do povo, além da bajulação que recebiam por consequência de tal manipulação. Por isso as críticas de Cristo, já bem conhecidas, voltaram-se nesta direção aos hipócritas religiosos de sua época de forma contundente.

Porém, é normal esquecermos que Cristo também foi um crítico daqueles que caminharam junto com ele. Sim! Homens, mulheres e crianças, das mais diferentes esferas, interesses, comportamentos, seguiram a Cristo. Alguns o seguiram por questões físicas, outros por econômicas, alguns por interesse de poder divino, outros por liberdade, e assim por diante homens e mulheres estavam envoltos de uma esperança que em grande parte não era a esperança trazida por Cristo, mas a esperança particular de cada um deles, a esperança de melhorar suas vidas individuais, egoístas, enquanto a esperança trazida por Cristo era voltada ao todo, ao macro, ao mundo. Como ele mesmo posteriormente provaria: que seria necessário morrer o grão (sacrifício de cruz) para que frutificasse a salvação de todos (muitos). Esta era a sua mensagem: aqueles que abrissem mão dos interesses individuais em pró do coletivo (mensagem que é estranha à atual pós- modernidade da qual vivemos), estes teriam entendido a mensagem do Evangelho.

E isto foi vivido também por seus doze discípulos. Além da já famosa e conhecida história de traição de Judas Iscariotes, os outros onze discípulos, que se tornariam apóstolos, também foram autores de hipocrisias diante de Cristo.
Como já sabemos, os “filhos do trovão” tinham interesse por posição de poder, Pedro foi relutante à missão cristã que lhe foi conferida, fazendo da luta de Cristo a sua própria luta (um zelote), Tomé exigiu uma prova para sustentar a promessa de ressurreição que Cristo havia feito, e assim por diante os discípulos se relacionaram com Cristo em grande parte por interesses outros que não os de Cristo. Há uma interessante passagem que retrata bem este interesse egoísta dos discípulos, se achando parte de um grupo dominante separado dos demais. Quando eles perguntam a Cristo se deveriam matar alguns samaritanos – reclamando o fogo do profeta Elias - que negaram acolhida a eles quando estavam em viagem a Jerusalém (Luc 9:54). Um pouco antes, neste mesmo capítulo citado, os discípulos haviam pedido para proibir outros de expulsarem demônios porque não faziam parte do mesmo “grupo” religioso do qual eles achavam que pertenciam exclusivamente - só porque caminhavam com Cristo (mal sabiam eles que estar com Cristo não era uma questão física apenas).

Outras passagens poderiam ser utilizadas para demonstrar que a crítica que Cristo fez aos religiosos hipócritas de sua época, foi feita em diversas vezes aos seus discípulos. A maioria deles, ou todos, foram duramente repreendidos diversas vezes por Cristo exatamente porque eram hipócritas que se achavam no direito de criticar outros, inclusive os outros hipócritas. Até aí nada mudaria, pois um hipócrita não muda uma situação necessária apenas criticando outros hipócritas. Uma crítica hipócrita não muda a hipocrisia muito menos a paralisia da qual uma pessoa, região ou nação vivencia.
Desta forma, muito mais do que apenas criticar os religiosos, Cristo queria eliminar a hipocrisia vivida inclusive no meio daqueles que o seguiam.

O mundo atual não tem mudado não é porque não conhecemos aquilo que deve ser feito, não é porque não existem condições propícias, não é porque não conhecemos o “caminho das pedras”, mas porque em grande parte somos hipócritas criticando outros hipócritas. Somos nós querendo poder, controle, holofotes, ascensão, fama, dinheiro, etc. Nós continuamos usando a religião para mascarar nosso egoísmo, nosso individualismo, nosso mal interior. Continuamos a criar “grupos”, a fazer religião para nosso bel prazer, para nossa satisfação pessoal. Não queremos o outro, o diferente, o intruso no nosso meio. Ainda nos achamos superiores, únicos dignos de receber bênçãos divinas, ainda achamos que a última palavra a respeito de Deus é a nossa, continuamos criando facções, distinções, nossas orações querem apenas cura e dinheiro, mas nunca, ou pouco, falam da nossa hipocrisia. Na melhor das hipóteses as orações pedem para melhorar o grupo religioso do qual fazemos parte, e o resto que “se dane”. Ah claro! Alguns dirão que a oração deve ser para os "domésticos da fé". Taí a hipocrisia reinando outra vez. O que queremos é conforto para nós, lugar de acomodação, queremos relaxar, é por isso que nossas orações pedem para Deus nosso conforto, nosso luxo, nosso bem estar, porque somos hipócritas fingindo querer o bem do próximo.

Alguns ainda arriscam mostrar abertamente quem de fato são: quais são seus pensamentos, seus ideais, suas motivações, sem reservas, sem medo de represálias, sem cobranças externas. Por outro lado não modificam em nada para melhor o meio em que vivem, não se esforçam, não lutam, apenas se tornam mais um bando de críticos à distância, teóricos verbais hipócritas, sem ações efetivas e factuais no meio em que vivem. Suas ações são ensossas, são críticos do meio religioso em que vivem, mas não alteram em nada, não mudam nada, não lutam para nada, apenas fingem. 

E assim caminha a humanidade, de bando em bando, de hipócritas em hipócritas, uns criticando os outros, mas em nada mudando o mundo. Que Deus nos ajude!

Att.

Fabiano Mina