dezembro 10, 2012

Atire a "segunda" pedra!







Todos nós, ou pelo menos aqueles que estão familiarizados com a mensagem cristã, sabem que em determinado momento Cristo estava reunido com seus discípulos, quando foi inquirido por alguns dos religiosos de sua época, judeus, questionando a respeito da Lei que até então vigorava (João 8:1-11).

Na Lei dos judeus, prescrita por Moisés, dizia que toda mulher adultera deveria ser apedrejada (o homem também caso fosse pego em flagrante).  O apedrejamento era uma forma de não apenas evitar que se cometessem pecados deste tipo: adultério, fornicação, estupro, etc., mas também uma forma de expurgar o mal do meio do povo de Deus, pois uma vez que uma pessoa cometesse tal ato, ela seria uma pessoa "contaminada", e tal contaminação deveria ser eliminada do meio do povo, caso contrário, esta pessoa, ainda estando em vida, seria uma tipo de incentivo ao pecado, ainda que ela fosse castigada de alguma forma, pois nenhum castigo eliminaria o fato de que aquela pessoa era uma viva-contaminada, e estando viva carregava em si aquele mal, aquela mácula, aquele comportamento que esfacelava a família, o povo de Deus. Devemos lembrar que tal Lei foi escrita sob a vontade divina, foi o próprio Deus quem determinou a Moisés a Lei ao seu povo hebreu.

Mas como se sabe, e esta passagem retrata bem isto, o povo de Deus – escolhido por Ele mesmo a dedo – nunca foi capaz de cumprir a Lei. Ainda que Deus dissesse para o povo o que deveriam fazer, e para isto operasse milagres, sinais e maravilhas em seu meio, mesmo assim o povo sempre pecou, sempre caminhou na contra-mão do que Deus determinava. E o que podemos pensar disto? Que Deus, sendo Ele onisciente, não foi capaz de prever que o povo jamais o obedeceria? Claro que Deus sabia, e é por isso que o apóstolo Paulo afirmou que a Lei nunca foi motivo de salvação, mas apenas “aio” (sinal) para algo maior: Cristo.

As leis e regras, assim como doutrinas nunca foram e nunca serão o caminho para nos encontrarmos com Deus. Quando Deus criou a Lei é preciso lembrar que não era esta sua intenção primeira. Deus fez isto apenas para mostrar que quanto mais Ele queria se aproximar do povo, mais o povo se afastava dele, e a Lei era apenas mais um sinal do afastamento do povo diante dele. Deus já havia tentado se aproximar do povo antes e pós dilúvio, quando tirou o povo das mãos de faraó, também durante a peregrinação do deserto por 40 anos, e assim por diante. A arca da aliança, os juízes, os reis, os templos (de Davi e Salomão) na verdade nunca deveriam ter sido criados para termos uma relação com Deus, antes se tornaram "intermediações" exatamente por culpa do homem, pois segundo o início do livro de Gênesis (se literal ou não, o que importa aqui é o princípio ontológico e teleológico) Deus fazia questão de ter um relacionamento tête-à-tête com o ser humano desde a criação até os dias atuais.

Assim todas as coisas que foram posteriormente criadas para nos relacionarmos com Deus, foram coisas intermediárias que na verdade apenas serviram como sinal, pois no final das contas o que sempre deveria estar no foco era o próprio Deus, não estas coisas intermediárias.

Assim foi feito com a Lei de Moisés, os judeus continuaram se agarrando à Lei, fazendo dela o motivo máximo da relação dos homens com Deus.
Jesus sabia que aquela era uma pergunta capciosa feita a ele (se deveria ou não apedrejar a mulher segundo a Lei), pois se Jesus dissesse que a Lei era inválida, ele estaria também ridicularizando a própria Lei que seu Pai – Deus – deu, e ao mesmo tempo se dissesse que era válida, ele se contradiria, pois ele próprio não era a favor da pena de morte nos termos da Lei, logo se cumprisse a Lei ele se equipararia aos próprios judeus que cobravam o cumprimento da Lei – no capítulo anterior, João 7, Cristo já havia debatido acerca do propósito da Lei e da incoerência em querer aplicá-la para circuncisão no sábado, mas não para salvar vidas no mesmo sábado.

Era isto que Cristo coloca em questão no seu ministério: A Boas Novas não existem para prejudicar, para condenar, para matar, mas para trazer vida e em abundância. Cristo estava fazendo em seu ministério sempre um contra-ponto com a Lei, pois a Lei apresentava regras para punir, para matar, para eliminar, enquanto Cristo era a própria Vida, a “água da vida” (João 7:38). Ele estava demonstrando que sua doutrina não era nova, não era temporal, não estava limitada à letra da Lei (lembrando que o foco nunca foi a Lei, mas o próprio Cristo), sua doutrina era advinda da eternidade, do infinito, era anterior à Lei, era divina (João 7:16).

Portanto quando Jesus usa de tamanha sabedoria, ele não invalida peremptoriamente a Lei de Moisés. Ele até poderia dizer que sua doutrina era “anterior” (eterna) à Lei de Moisés, logo mais válida, mas não! Jesus mostra que a Lei continuava válida desde que todos estivessem dispostos a aplicá-la a si mesmos, pois a Lei não era apenas para apontar uma falha pontual por mais grave que fosse – no caso o adultério – mas para apontar que TODOS indistintamente são passíveis de reprovação divina, de castigo, de morte, pois é pela Lei que conhecemos de fato que somos pecadores (Rm 3:20). A Lei não veio para apontar para “os outros”, mas para nós mesmos, ou seja, para TODOS indistintamente. A Lei por definição não excluía ninguém, ela não absolvia ninguém, ao contrário, ela demonstrava que todos que por ela caminhassem seriam dignos de morte, pois “Israel, que buscava a lei da justiça não chegou à lei da justiça” (Rm 9:31), ou seja “não há um justo sequer, um que busque a Deus" pela força da Lei (Rm 3:11).

Jesus então diz:  - atire a primeira pedra aquele que não possui algum pecado. Parafraseando seria: aquele que não é pecador, aquele que não enxerga algum motivo de morte em si mesmo, aquele acha que está livre de toda a condenação da Lei, então mate! E se for matar, lembre-se que esta mesma ação deverá ser destinada a você mesmo e à sua família. Alguém está disposto a isto?! Seria mais ou menos isto que Jesus estava dizendo.

Então aqueles religiosos ao ouvir isto foram se retirando, segundo o texto, desde os mais velhos aos mais novos. No verso 9 do mesmo capítulo 8, veio-lhes à "consciência" obviamente seus próprios pecados. E saindo os mais velhos isto significa que por serem mais velhos se lembram de tudo o que fizeram em suas jornadas de vida, quantos pecados cometeram durante suas longas vidas, e sabiam que a Lei nunca seria capaz de justificar seus próprios pecados. E isto porque alguns pecados até poderiam ser remidos, segundo a Lei, através do sacrifício de animais, porém quem disse que os homens de fato sacrificavam a favor de TODOS os seus pecados utilizando animais? Será que todo e qualquer pecado de fato era feito sacrifício de animais? O sacrifício muitas vezes não era apenas coisa para "inglês ver"? Já imaginou quantos animais os homens deveriam conseguir para sacrificar cada um dos pecados que cometiam diante de Deus? E aqueles que não tinham os animais suficientes para expiação do pecado, será mesmo que admitiam em público seus pecados sob o risco de morte? E os que faziam seus pecados escondidos e continuam vivos sem ninguém saber, onde a Lei operava aí? 
Não é difícil imaginar que muitos pecados os hebreus/judeus não sacrificavam em animais ainda que a Lei os obrigassem, pois seria o mesmo que admitir em público (na hora da entrega dos animais para sacrifício) a tamanha quantidade de seus pecados. Isto sem falar que segundo Jesus, os pecados de pensamento eram tanto quanto sérios como os pecados visíveis, como o de adultério, quando ele diz: "ao que cobiçar uma mulher, já em seu coração cometeu adultério com ela" (Mt 5:28), ou seja, ainda que exteriormente alguém pudesse sacrificar em favor dos seus pecados, no caso do pensamento provavelmente não o faziam, mas Cristo considerava  pecado nos mesmos termos de "morte", se adultério. E será que os judeus sacrificavam também em favor dos seus "pensamentos"? Acho muito difícil, e Cristo obviamente sabia disto. 

E quanto os mais jovens que saíram depois dos mais velhos? Da mesma forma os mais jovens, que gostam de ser mais arrogantes normalmente loucos para apedrejar alguém, pois os mais jovens têm a mania de achar que sabem muito (?), perceberam que se os mais velhos que devem ser “referência” de santidade ou pelo menos comportamento moral saíram, quanto mais eles deveriam sair também, já que numa tradição judaica os mais velhos é quem devem ser respeitados e seguidos, não os jovens. Assim Jesus, escrevendo sabe-se lá o que na terra, se levanta mostra para a mulher que seus algozes foram embora, e diz que ela poderia ir também.
Antes de ir embora Jesus diz à mulher: "não peques mais". Claro que ele diria isto, pois se não o dissesse poderiam criar ideia de que ele estava sendo conivente com o pecado de adultério. Mas Jesus também sabe que a mulher, como qualquer outro, possui ainda, infelizmente, a condição intrínseca em si de pecar, ainda que lute contra o pecado (que é o dever de todo cristão). Logo mesmo sabendo que a mulher continuaria sendo uma pecadora, ainda que não no mesmo pecado, o dever de Jesus era de criticar o pecado mostrando para a mulher que o dever dela era de lutar contra o pecado; por isso o motivo dele ter sido imperativo: "vá e não peques mais". Que parafraseando pode ser: mesmo eles não te apedrejando, o seu comportamento foi errado e não deve ser repetido.

Mas e se o desfecho tivesse sido outro? E se alguém tivesse lançado a “primeira pedra”? Provavelmente outro lançaria a segunda pedra e os outros assim por diante.
Às vezes alguns não lançam a primeira pedra, mas estão prontos para lançar a segunda, a terceira, a quarta... Estamos diante de relações religiosas atualmente em que esquecemos que a mensagem de Cristo não é uma mensagem de leis morais e éticas que separam pecadores de não-pecadores. A mensagem de Cristo é a mensagem que separa seguidores de não-seguidores, sendo que TODOS continuam pecadores (ainda que uns mais esforçados do que outros). Cristo sabe que somos pecadores e que ninguém pode ser justificado pelo esforço pessoal, pela lei, pelas regras. Isto é coisa de "fariseu moderno". O esforço para ser uma pessoa menos pecadora (se é que existe menos pecador) ou uma pessoa melhor não significa que seremos dignos de entrar no Reino de Deus. Ninguém é digno, nem aqueles fariseus eram, nem a adultera, muito menos qualquer um de nós hoje em dia. Mas ainda há os que estão com a "segunda pedra na mão" prontos para julgar até a morte, porque se acham melhores, se consideram auto-justificáveis por serem cumpridores de regras morais e éticas (diga-se de passagem, Cristo diz que não faz mais do que a obrigação).

A Igreja falha quando quer passar a ideia de que sacerdotes, líderes espirituais, membros, etc., estão em um nível de qualidade moral e ética acima de outras pessoas no mundo, e isto é uma mentira. Pessoas no mundo muitas vezes possuem qualidades morais e ética iguais ou superiores a dos religiosos. Diga-se de passagem Cristo sempre criticou mais ferozmente os religiosos de sua época do que o “mundo” (os pecadores não-religiosos). Ainda ouvimos aqueles famigerados discursos de quem não bebe, não fuma, não usa drogas ilícitas, e praticam algum ritual religioso são "mais dignos" do Reino, quando pecam exatamente porque acham que isto os auto-justificam. Evitar tais práticas pode até ter um caráter social, moral, ético louvável; mas não habilita ninguém a morar com Deus nos céus. Logo, tais discursos deveriam ser "separados" da ideia de salvação e ficar apenas no plano social e moral, porém muitos ainda insistem em ligar as duas coisas, por isso voltam a cometer os mesmos erros que aqueles judeus cometerem diante de Jesus, ao tentarem condenar a adúltera.

Sempre haverá os que estão prontos para lançar a segunda pedra, eles só estão esperando alguém iniciar o apedrejamento para então mostrar quem são: religiosos matadores de almas, quiça de vidas. Estão sempre prontos para denegrir, falar falso testemunho, dividir, fofocar, mal-dizer, rebaixar, expulsar, arrancar, ludibriar, etc. Não, não estou falando de pessoas falhas e pecadoras, pois a adultera também era e Cristo admitiu isto ao dizer para ela não pecar mais. Estou falando de religiosos-pecadores que acham que estão sempre num nível superior, melhor dos demais em seus redores, que se auto-justificam por suas ações "boas"(?), por cumprirem algum tipo de ritual religioso semanal, por desenvolver disciplinas e regras morais e éticas catequéticas.
Repito: moral e ética são coisas boas e devem ser cumpridas em qualquer sociedade, mas não são elas quem nos justificam diante de Deus, pois caso fosse então estaríamos admitindo o retorno da Lei, logo a morte de Cristo seria debalde.

Enquanto alguns estão preocupados com as aparências religiosas, se esquecem que os mesmos religiosos estão também prontos para atirar não só a primeira, mas a segunda pedra até que determinada pessoa “morra”. Uma igreja saudável se volta à mensagem de Cristo, pois é aquela que diz para não pecar sem ameaças de "pedras", sem recorrer à Lei ou regras dogmáticas, sem coerção, sem julgamento antes da hora (do Juízo Final), ao contrário tal igreja simplesmente apregoa as Boas Novas, pois isto basta, o restante deixemos que Cristo faz(rá)!

Att.

Fabiano Mina