novembro 03, 2012

Sério! Se não for tête-à-tête, então não é de verdade.




Parece-me ser necessário distinguir o que falamos (escrevemos) do que o que somos, ou o que pensamos do que o que expressamos em público, pois ainda há uma enorme confusão em se distinguir o “ser” do “pensar”, o “escrever” do “sentir”, ainda que haja alguma relação entre estas coisas.

Alguns se percebem sérios, enquanto outros que os observam não os levam a sério. Outros se acham ótimas pessoas, altruístas, empáticas, enquanto os que os observam os acham péssimos, mesquinhos, antipáticos. Há aqueles que se acham as piores de pessoas do mundo, enquanto acabam conquistando a maior parte daqueles com os quais se relacionam. Ou seja, nós podemos pensar muitas coisas ao nosso próprio respeito, podemos escrever muitas coisas de nós mesmos, nem por isso é exatamente o que somos, pois o que somos passa por uma série de coisas que não é possível definir superficialmente, à distância, lendo algumas poucas frases, etc.

Mas se o que pensamos de nós mesmos já não é necessariamente o que somos de fato, quanto mais aquilo que falamos ou escrevemos para os outros ou sobre os outros. Muito menos alguns devaneios nossos, pois se o que pensamos ao nosso respeito nos enganam, quanto mais, então, o que escrevemos de nós ou sobre outras pessoas e coisas. 

É claro que a maior parte das pessoas com quem temos contato à distância, só nos conhecerão pelo que escrevemos, por exemplo. Então farão uma imagem de nós exatamente pelo que lêem sobre o que supostamente pensamos através desses escritos. Mas estas mesmas pessoas deveriam ter o mínimo de crivo para saber que este tipo de “conhecimento” é superficial demais, é muito longe de ser a realidade sobre uma pessoa. Tentar interpretar pessoas pelo que lemos é muito distante da realidade sobre elas mesmas. O mundo está repleto de exemplos assim: pessoas que nunca imaginávamos que seriam de determinada forma, se revelam de outra, isto é muito comum vermos, por exemplo, no meio artístico. Tendemos a ver famosos e interpretá-los de uma forma, mas suas vidas se mostram completamente diferentes quando vão sendo expostas. 

E assim é a humanidade desde que ela é humanidade, ou seja, não é uma novidade. Pintores, poetas, filósofos, escritores, artistas, etc., todos que se manifestam em suas obras, através de suas idéias, pelas suas reflexões, não são necessariamente aquilo que elas escrevem, pintam, criam. É claro que isto serve para mim, mas isto serve para todos indistintamente.
Através de textos, de livros, de poesias, de reportagens, de frases em redes sociais, alguns se apresentam como fortes, quando são fracos; outros se apresentam como singelos, quando são complexos; outros complexos, quando são singelos; alguns como amorosos, quando são odiosos; enquanto alguns como odiosos estão cheios de amor. E assim por diante, vamos lendo, absorvendo, apreciando os trabalhos e reflexões de tantas pessoas no mundo, e nem por isso significa que as conhecemos de verdade.

É sério! Não há como conhecermos as pessoas se não convivermos com elas em suas vidas cotidianas. Este é um grave erro que o ser humano continua cometendo. É por isso que a religião engodou e engoda grande parte das pessoas no mundo, e mesmo nós que estamos no meio dela, e até alguns de nós que nos portamos como críticos a ela, muitas vezes cometemos os mesmos erros, pois avaliamos as pessoas à distância. Impossível!

O cristianismo já havia denunciado isto há séculos. Não podemos avaliar pessoas à distância, não podemos julgar à distância, não podemos atribuir bondade ou maldade desta forma, pois a religião tentou fazer isto e por este motivo foi criticada por Cristo.

Cristo foi um cara que obteve muitos seguidores em sua época, mas fez questão de conhecer alguns de seus discípulos pessoalmente, profundamente, tête-à-tête, estes eram os doze apóstolos. Mas mesmos entre os doze, Cristo buscou um relacionamento ainda mais profundo com alguns deles: Pedro e João, e cada um ao seu estilo e personalidade.

Assim deveríamos entender a vida, como Cristo nos ensinou. E foi por isso que o próprio Cristo disse que conheceríamos a ele não só pelo que “leríamos” sobre ele, mas pelo que conheceríamos dos seus “pequeninos”, ou seja, do tête-à-tête com as pessoas. E este tête-à-tête pode nos revelar coisas boas ou desagradáveis, mas nada disto importa. Cristo disse que se queremos realmente ser discípulos dele, devemos lhe dar com os bons e os maus, os fortes e os fracos, os melhores e os piores. Só assim poderíamos ser chamados de cristãos. Aqueles que evitam tais situações, evitam a realidade que está fora do discurso, do que se escreve, do que se lê, do que se diz, aqueles que evitam conhecer  o melhor e o pior de cada ser humano, estes não poderão ser chamados de cristãos.  

Da mesma forma que não podemos julgar uma pessoa porque lemos alguma coisa dela ou sobre ela, ao contrário, seremos julgados por não buscarmos o tête-à-tête.
Então como é que queremos avaliar pessoas a distância? Como é que queremos definir o que alguém pensa ou deixa de pensar apenas pelo que lemos dela ou sobre ela, pelo que interpretamos ao nosso bel prazer se não possuíamos este tête-à-tête?

É sério! Não conheço as pessoas por causa do que é escrito em suas redes sociais, em seus livros, pelo que pintam, pelas poesias, por suas músicas, por seus status, muito menos elas me conhecerão.
Ainda sou a favor do tête-à-tête, mas isto também não é para todos. Vivemos num mundo de superficialidades, e estamos deixando que o superficial assuma o controle. As redes sociais são um bom exemplo disto. Os superficiais tanto julgam através destas redes como querem que os julguemos através delas. E isto é um grave erro que não podemos cair!

Não! Não se deixe levar pelo que você lê. Seja para o bem ou para o mal. Aquilo que lemos pode e até deve nos edificar de alguma forma, mas longe está de refletir quem são as pessoas por trás de seus escritos. Só conhecemos as pessoas tête-à-tête, seja para o bem e para o mal. E isto requer tempo, paciência, investimento, e se não estivermos dispostos a fazer isto, então devemos parar de falar duas coisas: que conhecemos as pessoas de verdade e que somos cristãos.

P.S.: te respeito simplesmente pelo fato de ter quisto me conhecer melhor!

Att.

Fabiano Mina