novembro 16, 2012

A arte da dialética e a arte da retórica, qual é a Verdade?




Para aqueles que não estão familiarizados com tais palavras, eu sugeriria que lessem um pouco sobre a história dos gregos da Antiguidade, em especial um grupo de filósofos chamados sofistas. Este grupo de filósofos, apesar de muito tempo terem sido relegados à marginalidade da História da Filosofia, hoje são bem mais estudados, e o motivo é porque eles eram mestre numa arte chamada retórica.
Advirto que aqui farei uma comparação entre dialética e retórica com vistas na reflexão que quero trazer, pois a retórica que será colocada aqui no sentido mal do uso, não necessariamente é um instrumento mal em si. Ela pode e deve ser também bem utilizada. O mesmo faço com os sofistas, pois os sofistas trouxeram muita contribuição para a sociedade, porém aqui faço uma apreciação negativa deles em vista de um posicionamento metafísico sobre a Verdade, ou seja, para aqueles, como eu, que crêem numa Verdade Absoluta, o relativismo sofístico é visto de uma forma crítica, e é apenas esta que estou ressaltando em detrimento de toda qualidade que também poderia ser ressaltada nos sofistas. Sendo assim, apenas para esta reflexão, a dialética aqui colocarei como um ponto positivo e a retórica como negativo.


A retórica, a rigor, é a capacidade de argumentação com intenção de demonstrar as falhas do argumento do oponente, independente do argumento do vencedor estar ou não embasado na Verdade. Significa que a Verdade não é exatamente a finalidade daquele que pratica a retórica (também poderia ser), antes sua prioridade é exatamente convencer o oponente do seu próprio erro de argumento. Desta forma a retórica tem compromisso apenas em identificar a falha do oponente e então superá-lo.
E é por este motivo que os sofistas em geral eram professores de retórica inclusive ensinando os políticos gregos da época, pois o que mais importava para estes – sofistas e políticos - era convencer (isto lembra a política atual?).

Já a dialética, ainda que possa ser utilizada também por pessoas com interesses apenas de convencimento, a priori ela possui uma finalidade um pouco diferente: ela tem por objetivo colocar argumentos opostos diante um do outro, através de perguntas e respostas, e a partir deste confronto encontrar o melhor caminho, o melhor argumento, o melhor sistema de pensamento, e isto porque o “melhor” naturalmente tenderia à Verdade. Quem usava muito deste recurso eram filósofos como Sócrates e Platão, sendo o primeiro mestre do segundo. Estes dois filósofos utilizavam a dialética porque entendiam que no confronto das idéias, de opiniões, de “verdades”, permitiria que a melhor se sobressaísse em direção à alethéia, ou seja, em direção à Verdade. O interesse tanto de Sócrates como de Platão não era com o debate em si,  mas pela Verdade, logo o debate era uma condição necessária, mas não a finalidade, contrário ao pensamento dos sofistas.

Não à toa Sócrates e Platão sempre estavam em confronto com os sofistas de suas épocas, pois ao contrário, como eu disse, de Sócrates e Platão, os sofistas não tinham necessariamente compromisso com a Verdade, mas apenas com o convencimento (a dóxa). Se eles conseguissem convencer a platéia que os assistia, era isto que importava. Já Sócrates foi levado à morte por não se sujeitar apenas ao convencimento, não debatia com interesse de agradar ao público que o ouvia, ao contrário seus debates estavam voltados à busca da Verdade, e isto incomodou os poderosos, político e até a sociedade da época. Sócrates era pouco popular neste sentido, apesar de fazer sucesso entres os mais jovens (aqueles que queriam uma real mudança da atual Atenas na Grécia da época), já com o restante da população era mal visto, e por isso foi perseguido, preso e morto. Não muito diferente ocorreu com Platão, que também foi perseguido, mas ao contrário do seu mestre Sócrates, ele fugiu para não ser morto e como ele mesmo diz: para que Atenas não cometesse o mesmo erro que cometeu ao matar seu mestre.

Já os sofistas não tinham estes problemas. Assumindo a perspectiva crítica que Sócrates e Platão tinham a respeito deles, os sofistas “vendiam” o conhecimento, eles ensinavam a retórica apenas em favor dos interesses próprios ou daqueles que queriam apenas convencer o público. Sendo assim a retórica dos sofistas apesar de “parecer” ter compromisso com a Verdade, no fundo seus interesses era apenas com a aceitação, com o ego, com o poder, com o controle, com o convencimento da massa.

Talvez você que chegou à leitura até aqui esteja se perguntando: mas o que tudo isto tem haver, para que saber sobre história da Filosofia Antiga?  Então eu te respondo: porque muitos hoje ainda não conseguem diferenciar aqueles que apenas querem convencer daqueles que querem a Verdade ainda que a Verdade não seja plenamente alcançada.

Os que querem convencer utilizarão de todos os recursos possíveis para isto, seu compromisso não é com a Verdade, ainda que eles digam que é. Pois este tipo de "sofista atual" apenas quer ser acreditado pelos outros, quer ser bem quisto, quer ser aceito, quer privilégios, e para isto usa dos subterfúgios mais baixos, mesquinhos e mentirosos. Em alguns casos até mesmo farão isto inocentemente, mas ainda assim serão sofistas. O sofista atual se esconde por trás dos argumentos, e nem sempre são argumentos sofisticados, podem até ser simples, às vezes carregados de emocionalismo barato, usa de falácia ad verecudiam (apelo à autoridade da pessoa), falácia ad hoc (muda o objetivo do argumento), falácia ad baculum (apelas para ameaças), falácia ad hominun (critica a pessoa e não o argumento dela), etc. São falácias comuns que são usadas na retórica, porque como eu disse o retórico não está preocupado com a Verdade, antes está apenas preocupado em convencer, em ser aceito. Ao contrário, o dialético, aqui representado, que busca a Verdade, não utilizará qualquer subterfúgio, sua preocupação primeira não é convencer, mas é a Verdade, e por isso nem sempre será bem quisto, aceito, até mesmo ouvido. Se não estou enganado o próprio cristianismo mostra isto em diversos momentos, enquanto os milagres ocorriam, enquanto a palavra era de bonança, enquanto agradava os ouvidos, a população e os religiosos seguiam a Cristo, mas quando ele tocava em assuntos sérios, então ele era deixado de lado, e por falar da Verdade foi abandonando até mesmo pelos seus discípulos mais próximos, negado e morto sob o clamor daqueles que outrora o seguiam.

Isto que aqui estou colocando não é algo da minha cabeça, estes são fatos verídicos da História no que diz respeito a estes grupos de filósofos supracitados. Mas este tema não se destina só à Filosofia, isto ocorre desde os bate-papos mais comuns até os grandes debates políticos, religiosos, etc. Sempre existirão dois grupos de pessoas: os que usam argumentos apenas para convencer e os que usam para encontrar a Verdade. Tanto num caso como no outro haverá confronto, a diferença será as intenções. E normalmente os que buscam pela Verdade serão sempre mal quistos pela maioria, pois a maioria gosta de ouvir coisas que agradam, que soam bem no ouvido, que massageia o ego, que atrai. Ao contrário da Verdade que não mede esforços, não tem compromisso com A ou B, mesmo que magoe o melhor amigo o compromisso deve ser com a Verdade, pois é a Verdade que pode sustentar verdadeiros relacionamentos, pensamentos, instituições, estruturas, não o contrário.

Sendo assim, é comum vermos pessoas buscarem a aceitação, a boa opinião, a vontade da maioria, a personalidade, a boa condição financeira, a posição ou status, a família, a tradição, etc., alegando que é a tudo isto a Verdade. Mas a Verdade não está atrelada a nada disto.
Para termos ideia da dimensão do que estou dizendo, ainda que um bandido, um estuprador, um mafioso diga uma Verdade, ainda assim será Verdade independente de quem é a pessoa. Ao contrário, se tivermos um santo, uma anjo, um apóstolo, cometo até mesmo uma heresia aqui, mas se até Jesus dissesse uma mentira, ela não seria uma Verdade só por que foram estas as pessoas que a disseram, a Verdade independe da pessoa que a profere ou não. E antes que eu seja achincalhado, ressalvo que Jesus é a Verdade, foi apenas a título de exemplo, que é um recurso de argumento quando levado ao absurdo para compreender melhor o argumento.

  
 Assim, devemos parar com a mania de avaliar se uma frase, uma argumento, uma ideia é verdadeira ou não com base em retórica. Devemos prezar pela Verdade que anda de mãos dadas com uma postura mais dialética. Portanto não é uma pessoa que faz a Verdade, a Verdade é ela mesma independente de quem a fala. Aquele que não estiver disposto a um confronto, a uma observação, a uma postura com base na dialética, inevitavelmente sempre cometerá retórica, será um sofistas, ainda que seja com as melhores das intenções.

Espero assim que possamos melhor avaliar nossos políticos, religiosos, professores, jornalistas, noticiários, livros, teses, etc., tudo aquilo que nos passe a impressão de Verdade.

Att.

Fabiano Mina