novembro 16, 2012

A arte da dialética e a arte da retórica, qual é a Verdade?




Para aqueles que não estão familiarizados com tais palavras, eu sugeriria que lessem um pouco sobre a história dos gregos da Antiguidade, em especial um grupo de filósofos chamados sofistas. Este grupo de filósofos, apesar de muito tempo terem sido relegados à marginalidade da História da Filosofia, hoje são bem mais estudados, e o motivo é porque eles eram mestre numa arte chamada retórica.
Advirto que aqui farei uma comparação entre dialética e retórica com vistas na reflexão que quero trazer, pois a retórica que será colocada aqui no sentido mal do uso, não necessariamente é um instrumento mal em si. Ela pode e deve ser também bem utilizada. O mesmo faço com os sofistas, pois os sofistas trouxeram muita contribuição para a sociedade, porém aqui faço uma apreciação negativa deles em vista de um posicionamento metafísico sobre a Verdade, ou seja, para aqueles, como eu, que crêem numa Verdade Absoluta, o relativismo sofístico é visto de uma forma crítica, e é apenas esta que estou ressaltando em detrimento de toda qualidade que também poderia ser ressaltada nos sofistas. Sendo assim, apenas para esta reflexão, a dialética aqui colocarei como um ponto positivo e a retórica como negativo.


A retórica, a rigor, é a capacidade de argumentação com intenção de demonstrar as falhas do argumento do oponente, independente do argumento do vencedor estar ou não embasado na Verdade. Significa que a Verdade não é exatamente a finalidade daquele que pratica a retórica (também poderia ser), antes sua prioridade é exatamente convencer o oponente do seu próprio erro de argumento. Desta forma a retórica tem compromisso apenas em identificar a falha do oponente e então superá-lo.
E é por este motivo que os sofistas em geral eram professores de retórica inclusive ensinando os políticos gregos da época, pois o que mais importava para estes – sofistas e políticos - era convencer (isto lembra a política atual?).

Já a dialética, ainda que possa ser utilizada também por pessoas com interesses apenas de convencimento, a priori ela possui uma finalidade um pouco diferente: ela tem por objetivo colocar argumentos opostos diante um do outro, através de perguntas e respostas, e a partir deste confronto encontrar o melhor caminho, o melhor argumento, o melhor sistema de pensamento, e isto porque o “melhor” naturalmente tenderia à Verdade. Quem usava muito deste recurso eram filósofos como Sócrates e Platão, sendo o primeiro mestre do segundo. Estes dois filósofos utilizavam a dialética porque entendiam que no confronto das idéias, de opiniões, de “verdades”, permitiria que a melhor se sobressaísse em direção à alethéia, ou seja, em direção à Verdade. O interesse tanto de Sócrates como de Platão não era com o debate em si,  mas pela Verdade, logo o debate era uma condição necessária, mas não a finalidade, contrário ao pensamento dos sofistas.

Não à toa Sócrates e Platão sempre estavam em confronto com os sofistas de suas épocas, pois ao contrário, como eu disse, de Sócrates e Platão, os sofistas não tinham necessariamente compromisso com a Verdade, mas apenas com o convencimento (a dóxa). Se eles conseguissem convencer a platéia que os assistia, era isto que importava. Já Sócrates foi levado à morte por não se sujeitar apenas ao convencimento, não debatia com interesse de agradar ao público que o ouvia, ao contrário seus debates estavam voltados à busca da Verdade, e isto incomodou os poderosos, político e até a sociedade da época. Sócrates era pouco popular neste sentido, apesar de fazer sucesso entres os mais jovens (aqueles que queriam uma real mudança da atual Atenas na Grécia da época), já com o restante da população era mal visto, e por isso foi perseguido, preso e morto. Não muito diferente ocorreu com Platão, que também foi perseguido, mas ao contrário do seu mestre Sócrates, ele fugiu para não ser morto e como ele mesmo diz: para que Atenas não cometesse o mesmo erro que cometeu ao matar seu mestre.

Já os sofistas não tinham estes problemas. Assumindo a perspectiva crítica que Sócrates e Platão tinham a respeito deles, os sofistas “vendiam” o conhecimento, eles ensinavam a retórica apenas em favor dos interesses próprios ou daqueles que queriam apenas convencer o público. Sendo assim a retórica dos sofistas apesar de “parecer” ter compromisso com a Verdade, no fundo seus interesses era apenas com a aceitação, com o ego, com o poder, com o controle, com o convencimento da massa.

Talvez você que chegou à leitura até aqui esteja se perguntando: mas o que tudo isto tem haver, para que saber sobre história da Filosofia Antiga?  Então eu te respondo: porque muitos hoje ainda não conseguem diferenciar aqueles que apenas querem convencer daqueles que querem a Verdade ainda que a Verdade não seja plenamente alcançada.

Os que querem convencer utilizarão de todos os recursos possíveis para isto, seu compromisso não é com a Verdade, ainda que eles digam que é. Pois este tipo de "sofista atual" apenas quer ser acreditado pelos outros, quer ser bem quisto, quer ser aceito, quer privilégios, e para isto usa dos subterfúgios mais baixos, mesquinhos e mentirosos. Em alguns casos até mesmo farão isto inocentemente, mas ainda assim serão sofistas. O sofista atual se esconde por trás dos argumentos, e nem sempre são argumentos sofisticados, podem até ser simples, às vezes carregados de emocionalismo barato, usa de falácia ad verecudiam (apelo à autoridade da pessoa), falácia ad hoc (muda o objetivo do argumento), falácia ad baculum (apelas para ameaças), falácia ad hominun (critica a pessoa e não o argumento dela), etc. São falácias comuns que são usadas na retórica, porque como eu disse o retórico não está preocupado com a Verdade, antes está apenas preocupado em convencer, em ser aceito. Ao contrário, o dialético, aqui representado, que busca a Verdade, não utilizará qualquer subterfúgio, sua preocupação primeira não é convencer, mas é a Verdade, e por isso nem sempre será bem quisto, aceito, até mesmo ouvido. Se não estou enganado o próprio cristianismo mostra isto em diversos momentos, enquanto os milagres ocorriam, enquanto a palavra era de bonança, enquanto agradava os ouvidos, a população e os religiosos seguiam a Cristo, mas quando ele tocava em assuntos sérios, então ele era deixado de lado, e por falar da Verdade foi abandonando até mesmo pelos seus discípulos mais próximos, negado e morto sob o clamor daqueles que outrora o seguiam.

Isto que aqui estou colocando não é algo da minha cabeça, estes são fatos verídicos da História no que diz respeito a estes grupos de filósofos supracitados. Mas este tema não se destina só à Filosofia, isto ocorre desde os bate-papos mais comuns até os grandes debates políticos, religiosos, etc. Sempre existirão dois grupos de pessoas: os que usam argumentos apenas para convencer e os que usam para encontrar a Verdade. Tanto num caso como no outro haverá confronto, a diferença será as intenções. E normalmente os que buscam pela Verdade serão sempre mal quistos pela maioria, pois a maioria gosta de ouvir coisas que agradam, que soam bem no ouvido, que massageia o ego, que atrai. Ao contrário da Verdade que não mede esforços, não tem compromisso com A ou B, mesmo que magoe o melhor amigo o compromisso deve ser com a Verdade, pois é a Verdade que pode sustentar verdadeiros relacionamentos, pensamentos, instituições, estruturas, não o contrário.

Sendo assim, é comum vermos pessoas buscarem a aceitação, a boa opinião, a vontade da maioria, a personalidade, a boa condição financeira, a posição ou status, a família, a tradição, etc., alegando que é a tudo isto a Verdade. Mas a Verdade não está atrelada a nada disto.
Para termos ideia da dimensão do que estou dizendo, ainda que um bandido, um estuprador, um mafioso diga uma Verdade, ainda assim será Verdade independente de quem é a pessoa. Ao contrário, se tivermos um santo, uma anjo, um apóstolo, cometo até mesmo uma heresia aqui, mas se até Jesus dissesse uma mentira, ela não seria uma Verdade só por que foram estas as pessoas que a disseram, a Verdade independe da pessoa que a profere ou não. E antes que eu seja achincalhado, ressalvo que Jesus é a Verdade, foi apenas a título de exemplo, que é um recurso de argumento quando levado ao absurdo para compreender melhor o argumento.

  
 Assim, devemos parar com a mania de avaliar se uma frase, uma argumento, uma ideia é verdadeira ou não com base em retórica. Devemos prezar pela Verdade que anda de mãos dadas com uma postura mais dialética. Portanto não é uma pessoa que faz a Verdade, a Verdade é ela mesma independente de quem a fala. Aquele que não estiver disposto a um confronto, a uma observação, a uma postura com base na dialética, inevitavelmente sempre cometerá retórica, será um sofistas, ainda que seja com as melhores das intenções.

Espero assim que possamos melhor avaliar nossos políticos, religiosos, professores, jornalistas, noticiários, livros, teses, etc., tudo aquilo que nos passe a impressão de Verdade.

Att.

Fabiano Mina

novembro 13, 2012

Os estúpidos destroem a oportunidade de conhecimento





Para aqueles que não estão familiarizados com este tipo de frase, existe uma passagem bíblica em II Ped 3:16 onde o apóstolo Pedro (?) faz menção a alguns ensinamentos cristãos escritos pelo apóstolo Paulo, que era um dos - se não o apóstolos mais letrado - responsáveis por ensinamentos de difícil compreensão que algumas pessoas insistentemente na época achavam que dominavam, mas acabavam ensinando ou falando uma porção de baboseiras sobre o cristianismo destruindo o verdadeiro conhecimento do Evangelho, daí o título deste texto.

Claro que a frase na Bíblia aparece mais “educada” do que o título que coloquei; normalmente vem escrita em algumas traduções assim: "...os indoutos e inconstantes destorcem... para sua própria perdição..." Mas convenhamos, sabemos que a tradução das Escrituras muitas vezes tem certo eufemismo. O fato é que há um monte de gente estúpida e indecisa que acha que sabe do que está falando em matéria de cristianismo, quando sai por aí ensinando, pregando, comentando, até mesmo profetizando, um monte de bobagem que somos obrigados a aguentar.

Quando falo que somos obrigados é porque vivemos na época dos medíocres, ou seja, o mundo cada vez mais é nivelado por baixo. Isto já estava acontecendo lá na época dos apóstolos, quanto mais hoje! Muitos que eram de baixo conhecimento na época  queriam nivelar a religião cristã por baixo, a partir deles, e hoje em pleno século XXI isto é cada vez mais recorrente. Eu já escrevi sobre isto algumas vezes, mas sempre é bom lembrar: só porque alguns possuem acesso às novas tecnologias acham que isto é sinônimo de “sabedoria”, de inteligência, de criatividade. Só porque conseguem se comunicar com alguém lá do outro lado do planeta com um click de botão, acham que estão anos luz distante em inteligência dos medievais, quando só provam cada vez mais a estupidez só por pensarem assim.

E o que temos visto são os estúpidos dominando cada vez mais o mundo e se infiltrando cada vez mais na religião cristã (ou evangélica, como queiram!). E o pior é que estes não podem mais ser contrariados como antes, pois quando são confrontados, quando são redarguidos, quando são “resistidos na cara” (alá apóstolo Paulo contra o comportamento de Pedro e Barnabé aos Gálatas), estes se doem, são defendidos pela mesma corja da qual fazem parte, se sentem feridos, fazem biquinho, quando não usam o tal do argumento do “amor cristão” (se soubesse mesmo o que é isto) para respaldarem suas ignorâncias e mediocridade religiosa. Querem fazer do cristianismo seu lugar de conforto pessoal. Significa que eles podem falar o que querem, ensinar as bobagens que bem lhe vierem à cabeça, e temos que ouvir e ver estas bobagens calados, e se reclamamos recebemos a pecha de ignorantes, insensíveis, anti-espirituais e coisas do tipo. Pior ainda, estes estúpidos se auto-intitulam líderes, ministros, pastores, professores, diretores, apóstolos, pai (!), semi-deuses. E não se engane, não estou falando apenas daqueles que vemos no "jardim do vizinho", falo dos que estão no nosso jardim.

Então o que tenho visto é gente achando que sabe do que está falando só porque procura praticar uma vida ritualística religiosa metódica. Veja que não estou dizendo que são todos mal intencionados ou que não há espirituais neste meio, porém o verso que eu citei, do qual Pedro chama atenção, é de que há estúpidos (indoutos) e pessoas volúveis (inconstantes) que estão querendo ensinar coisas que não sabem e acabam perdendo a oportunidade de aprenderem com quem sabe ou no mínimo ficarem calados para não falar bobagem. Quero também deixar claro que não estou dizendo que não devemos nos arriscar, perguntar, até mesmo passar o que achamos que é certo, o problema está quando achamos que nosso ensinamento é o suficiente, que nossa tal espiritualidade encobre nossa ignorância, que o conhecimento constante é desnecessário com a desculpa que Deus "vê o coração". É deste tipo de comportamento infantil, ridículo, limitado que estou criticando. Pessoas que só porque se consideram bons religiosos se sentem no direito de assumir postos de liderança intelectual da qual não estão habilitadas. Quando não, confundem igreja com circo ou empresa, pois se tais pessoas conseguirem fazer a congregação dar risadas ou administrar bem o caixa da igreja, pronto!, lá está o novo líder da igreja. 

Alguém já viu uma pessoa formada em mecânica querer fazer uma cirurgia de coração? Ou um padeiro dar um de marceneiro? Quem sabe um cabeleireiro fazer um projeto arquitetônico de um prédio? Talvez estes até pudessem arriscar fazer uma destas coisas que não fossem de suas alçadas, mas é certo que não fariam com a excelência que o especialista pode, logo perderiam a oportunidade ficarem quietos em seus cantos. É mais ou menos isto que tem ocorrido hoje e é disto que Pedro está tratando. 

Ainda tem gente que confunde orar muito (?), subir e descer monte, ir a igreja cotidianamente, fazer campanha, ajudar os pobres, etc., com discernimento, conhecimento, ensino, pregação. Eventualmente uma pessoa pode ter todas estas coisas, mas isto não significa que ocorre com todos necessariamente o domínio do conhecimento bíblico só porque praticam tais coisas. Há coisas que devemos deixar para quem sabe, e foi o apóstolo Pedro quem disse não eu. Ele deixa isto claro no mesmo capítulo 3 de II Ped no verso 15, ressaltando a “sabedoria” de Paulo, ou seja, havia coisas que não cabia aos “espirituais” de plantão que na verdade eram estúpidos, muito menos cabia aos ritualistas ou até mesmo aos bem intencionados. Havia coisas que só cabia a pessoas como o apóstolo Paulo (temos alguém parecido com ele hoje? Meu Deus, melhor nem pensar nisto!). 
A espiritualidade seja de quem for não elimina o fato de que há coisas que nos foge ao conhecimento.

Porém basta ler alguns textos na internet, redes sociais, ouvir pregações de púlpito, músicas evangélicas, ensinamentos em roda de amigos, teologias de seminários, até mesmo textos de blogs como este que vos escrevo, para perceber como os estúpidos e inconstantes estão dominando o que chamamos de cristianismo. Tudo bem, talvez você pense que eu seja o estúpido também, mas isto não elimina o fato de você também poder ser um. 

Os estúpidos falam das coisas cristãs como se fossem temas novos e que nunca foram profundamente debatidos ou tratados por tantos homens de fé há séculos atrás. Homens de grande envergadura que dedicaram dias, meses, anos de suas vidas para conhecerem tais assuntos e temas, mas que hoje são ignorados por esses estúpidos que acham que estão trazendo coisas novas ou soluções novas.

Eu sugeriria para estes estúpidos e inconstantes que lessem um pouco dos textos da Patrística como Santo Agostinho, da Escolástica como Tomás de Aquino e Duns Scoto, de cristãos místicos como Mestre Eckhart ou Teresa de Ávila, dos cristãos gnósticos ou neoplatônicos como Pseudo-Dionísio ou Nicolau de Cusa. Sobre os primeiros protestantes do século XIII como John Huss e John Wycliffe, protestantes como Lutero, reformadores como Zwínglio, Knox, Calvino ou Arminius. Ler a aprender mais com teólogos e pregadores de grande calibre como Charles Spurgeon, Jorge Whitefield, Jhonatan Edwards, John Wesley. Ler sobre movimentos como dos anabatistas, batistas, puritanos, quackers, os movimentos avivalistas dos séculos XVIII e XIX no Ocidente, especialmente nos EUA. Os grandes missionários na Velha Europa ou vida devota como de uma Madre Tereza, São Francisco de Assis, a história de Bunyan ou mesmo de um Gandhi. Ler mais sobre os movimentos que ocorreram pela História, como o cristianismo pós-nazismo, que criaram novas perspectivas como o neoliberalismo teológico e a neo-ortodoxia como a de Karl Barth ou Paul Tillich, o cristianismo existencialista, fenomenológico ou humanista, a Teologia da Libertação, os primeiros movimentos pentecostais no século XIX-XX, as grandes influências teóricas filosóficas e teológicas radicais que mudaram as tradições, as teologias, os rituais, a cosmovisão das instituições cristãs atuais, as divergências, os acordos, as lutas e as tentativas de paz. Ler e conhecer mais sobre as atuais descobertas científicas, antropológicas, biológicas, etc. Sair da alienação que a mediocridade tem passado que não passa de pseudo-espiritualidade.
Sim, também podemos e devemos aprender com pessoas mais simples, menos letradas, mas isto não significa que devemos ignorar estes acima citados, pois seria o mesmo que dizer que os textos e ensinos do apóstolo Pedro seriam suficientes e que os de Paulo seriam descartáveis - não foi isto que Pedro sugere nesta sua passagem supracitada aqui no início, ao contrário. A simplicidade deve ser observada, porém a complexidade também deve ser respeitada.


Tudo isto unido a uma detida, minuciosa e paciente leitura das Escrituras nas suas mais diversas traduções, análises, entendimento, hermenêutico e exegético, nutrido sempre por um espírito humilde. Não humildade no sentido piegas e religioso no sentido de coitadinho, de bonitinho ou de boa intenção, mas humilde no sentido de que o conhecimento acerca das Escrituras, como disse Pedro, não era coisa para qualquer um, não pelo menos como Paulo escreveu, logo devemos estar dispostos a conhecer sempre. Deixa eu adivinhar: poucos estão dispostos a tal desafio, e é exatamente por isso que os medíocres, que sempre são a maioria, estão no controle cada vez mais. 

E esses estúpidos dirão que tudo isto é perda de tempo, que apenas eles possuem a real espiritualidade, que conhecer cristianismo é ser um simples-ignorante, ou seja, dizem que o excesso de conhecimento atrapalha a espiritualidade, pois o verdadeiro espiritual não precisa de conhecimento já que “Deus dá” (?) tudo o que ele precisa saber (conhecem heresias que nasceram assim?).
Eu até concordo que Deus nos dê o conhecimento que Ele bem entender, mas até aí ignorar o conhecimento que Deus também nos deu oportunidade de desenvolver, e isto através da vida de milhares de homens fiéis que passaram por esta vida, é no mínimo coisa de gente estúpida. O que na verdade só reflete e prepotência, arrogância e falsa humildade desses que se intitulam espirituais pautados em suas ignorâncias acerca do cristianismo.

Sim, o cristianismo é para todos (quem?), a salvação é algo simples, o acesso a Deus é a coisa mais fácil do mundo para os quebrantados de coração, mas não confundamos tudo isto com o necessário ensinamento, com a salutar pregação, com a objetiva declaração explícita do Evangelho. Tais coisas não são tão simples assim, caso contrário teríamos que rasgar esta passagem de II Ped 3:16 e nos perguntar porque Deus designou o apóstolo mais letrado para escrever a maioria dos livros e cartas aos gentios. 

Contudo, - como tudo que tem ocorrido em nossos dias - os estúpidos e inconstantes continuarão tendo vez, continuarão sendo os mais bem quistos, continuarão sendo os que terão mais voz, pois num mundo onde habita cegos, o caolho quando surge facilmente se torna rei, já diria o adágio popular.

Então antes de você achar que sabe do que está falando, ensinando, pregando, antes de achar que está trazendo algo novo, antes de achar que sabe mais do que o irmão que estuda, antes de achar que espiritualidade é sinônimo de burrice, antes de achar que boa intenção é sinônimo de verdade, antes de achar que o conhecimento é coisa para bitolado e anti-espiritual, antes de achar que Deus o elegeu como paladino da sua igreja, antes de achar que suas orações resolvem todas as questões de conhecimento e sabedoria, antes de achar que você descobriu uma coisa na Bíblia que ninguém antes havia descoberto, antes de achar que você é praticamente o porta voz de Deus na Terra, leia um pouco, só um pouco, destas indicações que citei acima. Não são minhas, são de homens e mulheres que se dedicaram ao Evangelho de Cristo, pessoas que abriram mão de muita coisa para ensinar os feitos do cristianismo e combater heresias de suas épocas (quando não, eles mesmos as criaram, é certo!) e ainda assim não conseguiram atingir o pleno conhecimento de Cristo. Antes de eu e você acharmos que conhecemos o suficiente, que aprender é desnecessário e que nossa espiritualidade é medida pela nossa estupidez, que tal aprendermos um pouco mais?!

São essas pessoas que não saem da frente da TV, ficam mais tempo em redes sociais, ficam tagarelando frases clichês de evangélicos, ficam recitando letras músicas gospel da moda, em vez de estudarem mais sobre tais coisas sobre o cristianismo, que ainda acham que sabem do que estão falando: o tal do mecânico que quer dar um de médico! Estúpidos? Inconstantes?

Sim leia as Escrituras, medite nelas, ore muito; se quiser até faça lá seus mantras ou rituais evangélicos se você acha que isto lhe dá super-poderes de evangélico (?), mas não ignore o ensinamento, o conhecimento, seja sábio e saia da sua estupidez, saia da sua mediocridade, baixe a bola e agradeça a Deus por ter colocado pessoas muito antes de você no mundo para que você não precisasse começar estudar todas estas coisas do zero outra vez, e bons estudos!

Att.

Fabiano Mina

novembro 06, 2012

Uma vida fracassada, pra quem?





Assista o vídeo, se preferir primeiro leia o texto: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=dwdX8XND40U

Há tempos eu não via um vídeo que tratasse de um tema a respeito do atual Evangelho que temos vivido no Brasil (e no mundo) com tamanha profundidade e ao mesmo tempo com tanta simplicidade. E este é um tema que venho perseguindo ao longo dos anos, particularmente.

Desde que me conheço por cristão sempre tive lá meus conflitos (quem não os teve?), e dentre eles um dos que mais me incomoda, desde então, é o fato de vermos um Evangelho bem “pregado”, mas tão mal “vivido”. Eu que iniciei minha caminhada cristã em uma denominação que sempre prezou pela “prosperidade” dos seus membros, tive desde o início um ensinamento de que todo e qualquer cristão deveria ser triunfante aqui na Terra. Mas não era um triunfo no sentido teleológico ou escatológico, mas um triunfo no sentido de conquistas, posses, ganhos, sucesso, tudo que pudesse ser antônimo ao fracasso que o mundo consumista, capitalista e utilitarista hoje nos ensina. Por isso sai da tal denominação.

De certa forma estas mensagens de sucesso na Terra sempre me incomodaram, e não pelo fato de um cristão ser ou não bem sucedido na Terra, até porque as Escrituras não proíbem o sucesso dos cristãos aqui no mundo, mas pelo fato de não entender isto como um fim em si mesmo, como uma necessidade à vida cristã, como uma obrigação de Deus para conosco, como uma meta a ser conquistada. Sempre entendi que o sucesso e o fracasso que um cristão pode viver no mundo não é em nada diferente da de um não-cristão, pois ser bem sucedido ou fracassado no mundo depende de uma série de relações existenciais, ou hoje, relações comuns da vida, das oportunidades que temos e até mesmo com um pouco de “sorte”. Não podemos negar que alguns chegam ao sucesso sem fazer metade do esforço que outros vivem fazendo sem o mesmo êxito. 
Esta não deveria ser a pauta para uma vida espiritual, ao contrário! A vida espiritual é aquela que dá um salto na fé (já diria Sören Kierkegaard, um existencialista cristão de quem gosto muito sobre este tema: fé), e saltar na fé é viver, se for o caso, uma vida sem garantias terrenas, sem sucesso imediato, sem segurança financeira, é simplesmente caminhar com Cristo mesmo que não se tenha onde “reclinar a cabeça”. Apesar deste discurso ser bem frequente nas igrejas evangélicas (e em outras religiões), fato é que a maioria quer sucesso aqui, esta maioria não admite de forma nenhuma viver uma vida singela, sem regalias, luxo, fama. E pior, vive culpando, quando não o diabo, o próprio Deus, vive se perguntando onde errou, quando talvez a resposta seria: não há nada de errado, a vida de sucesso que eu, Deus, tenho para você é esta mesma, viver uma vida cristã simples. 

E veja que não estou dizendo a respeito de cristãos que chegam ao final de vida, percebem que não há mais como lutar por uma vida de regalia e então se contentam com este discurso da simplicidade, não! Estou falando daqueles que estão no início ou auge da vida, e "juram de pé junto" que ser cristão é ser bem sucedido na vida em todos os sentidos, principalmente financeiramente; aliás, a financeira seria em primeiro lugar para a grande maioria destes.

Veja que não é meu intuito em fazer apologia de miséria cristã, não sou defensor do mendicantismo, porém entendo que se há um estado ou situação onde conseguimos refletir com mais serenidade na vida cristã, é do lado da vida simples, comum, sem regalias, luxo, riquezas. E para os que possuem estas condições de luxo e riqueza, das quais considero exceções na vida dos cristãos, que tais pessoas tenham a tamanha firmeza cristã para conseguir lhe dar com tantas tentações que esta vida de luxo pode proporcionar. Sendo assim, não defendo que os cristãos não possam ser bem sucedidos, só acho que esta não é a mensagem do cristianismo que deva ser apregoada como prioridade. Ao contrário, esta é uma condição, como eu disse há pouco acima, “natural” a todos que tanto cristãos como não-cristãos podem vivenciar nesta vida, e isto independe de uma vida espiritual correta em Cristo, pois o “sol e a chuva cai tanto para justos como para ímpios”; negar isto seria negar a realidade. Tanto cristãos como ímpios, dependendo das situações, oportunidades que acometem suas vidas e do próprio esforço, determinará o sucesso ou fracasso de cristãos e não-cristãos aqui na Terra.

Ao longo desta caminhada cristã que tenho vivido, que é curta, porém cheia de experiências pessoais, tenho encontrado dois tipos de pessoas: as que fazem do sucesso na Terra o seu norte para a vida religiosa, e os que fazem do sucesso no Céu o seu norte para com Cristo, e uma coisa não necessariamente desembocará na outra.
Apesar de conhecer religiosos cristãos de sucesso na vida cotidiana, eu tenho tido muito mais admiração por pessoas com sucesso na vida cristã ainda que simples, isto porque não tenho visto os que buscam sucesso na vida cotidiana buscar com a mesma intensidade o sucesso na vida cristã. Particularmente eu mesmo tive algumas oportunidades na vida de escolher um caminho que fosse para este tal sucesso cotidiano e que fosse o sinônimo do sucesso espiritual, mas no final das contas eu sempre me esbarrei nestes meus conflitos; eu tenho dificuldades em ser ganancioso nesta vida (mesmo no sentido bom da palavra), o que me atrapalha em ser um cara de sucesso cotidiano. Mas não justifico estes meus conflitos com esta mensagem, eu estou justificando olhando para as Escrituras e observando testemunhos de pessoas como neste vídeo indicado acima.

Então, longe de querer defender pessoas de insucesso na vida que fazem do discurso do “bom cristão”, de que só se é bom só porque se é pobre, o que defendo como mais importante deste vídeo - que foi indicação de um grande cara: Esdras, vulgo “Fininho”(obrigado meu irmão pela indicação!) - é que estes relatos tratam o "fracasso" dos ministérios de cristãos como sendo um discurso e uma realidade importante para confrontar um falso Evangelho que tem sido propagado pelas igrejas afora em todo o Brasil, e quem tem ludibriado neófitos na fé que querem ver em seus ministérios ou nos seus “chamados”, uma escada para o sucesso, para o sustento financeiro, para a fama, para o ganho pessoal. E quando conseguem o sucesso terreno tão desejado muitos se deixam engodar pelos desejos deste mundo, e quando não conseguem se frustram e perdem longos anos da vida buscando respostas por seus fracassos pessoais. É o que temos visto nas igrejas: pessoas usando púlpito, microfone, liderança, ministério, para se auto promoverem, para chamar atenção para si mesmos, para ter seus poucos minutos de fama.

Bom... fato é que estas minhas inquietações são bem retratadas neste vídeo. Ele é longo, mas importante ao meu ver. Então destine parte do seu tempo para vê-lo apenas se você realmente está disposto a viver talvez uma vida de “fracasso no mundo, mas de sucesso em Cristo”.

Att.

Fabiano Mina

novembro 03, 2012

Sério! Se não for tête-à-tête, então não é de verdade.




Parece-me ser necessário distinguir o que falamos (escrevemos) do que o que somos, ou o que pensamos do que o que expressamos em público, pois ainda há uma enorme confusão em se distinguir o “ser” do “pensar”, o “escrever” do “sentir”, ainda que haja alguma relação entre estas coisas.

Alguns se percebem sérios, enquanto outros que os observam não os levam a sério. Outros se acham ótimas pessoas, altruístas, empáticas, enquanto os que os observam os acham péssimos, mesquinhos, antipáticos. Há aqueles que se acham as piores de pessoas do mundo, enquanto acabam conquistando a maior parte daqueles com os quais se relacionam. Ou seja, nós podemos pensar muitas coisas ao nosso próprio respeito, podemos escrever muitas coisas de nós mesmos, nem por isso é exatamente o que somos, pois o que somos passa por uma série de coisas que não é possível definir superficialmente, à distância, lendo algumas poucas frases, etc.

Mas se o que pensamos de nós mesmos já não é necessariamente o que somos de fato, quanto mais aquilo que falamos ou escrevemos para os outros ou sobre os outros. Muito menos alguns devaneios nossos, pois se o que pensamos ao nosso respeito nos enganam, quanto mais, então, o que escrevemos de nós ou sobre outras pessoas e coisas. 

É claro que a maior parte das pessoas com quem temos contato à distância, só nos conhecerão pelo que escrevemos, por exemplo. Então farão uma imagem de nós exatamente pelo que lêem sobre o que supostamente pensamos através desses escritos. Mas estas mesmas pessoas deveriam ter o mínimo de crivo para saber que este tipo de “conhecimento” é superficial demais, é muito longe de ser a realidade sobre uma pessoa. Tentar interpretar pessoas pelo que lemos é muito distante da realidade sobre elas mesmas. O mundo está repleto de exemplos assim: pessoas que nunca imaginávamos que seriam de determinada forma, se revelam de outra, isto é muito comum vermos, por exemplo, no meio artístico. Tendemos a ver famosos e interpretá-los de uma forma, mas suas vidas se mostram completamente diferentes quando vão sendo expostas. 

E assim é a humanidade desde que ela é humanidade, ou seja, não é uma novidade. Pintores, poetas, filósofos, escritores, artistas, etc., todos que se manifestam em suas obras, através de suas idéias, pelas suas reflexões, não são necessariamente aquilo que elas escrevem, pintam, criam. É claro que isto serve para mim, mas isto serve para todos indistintamente.
Através de textos, de livros, de poesias, de reportagens, de frases em redes sociais, alguns se apresentam como fortes, quando são fracos; outros se apresentam como singelos, quando são complexos; outros complexos, quando são singelos; alguns como amorosos, quando são odiosos; enquanto alguns como odiosos estão cheios de amor. E assim por diante, vamos lendo, absorvendo, apreciando os trabalhos e reflexões de tantas pessoas no mundo, e nem por isso significa que as conhecemos de verdade.

É sério! Não há como conhecermos as pessoas se não convivermos com elas em suas vidas cotidianas. Este é um grave erro que o ser humano continua cometendo. É por isso que a religião engodou e engoda grande parte das pessoas no mundo, e mesmo nós que estamos no meio dela, e até alguns de nós que nos portamos como críticos a ela, muitas vezes cometemos os mesmos erros, pois avaliamos as pessoas à distância. Impossível!

O cristianismo já havia denunciado isto há séculos. Não podemos avaliar pessoas à distância, não podemos julgar à distância, não podemos atribuir bondade ou maldade desta forma, pois a religião tentou fazer isto e por este motivo foi criticada por Cristo.

Cristo foi um cara que obteve muitos seguidores em sua época, mas fez questão de conhecer alguns de seus discípulos pessoalmente, profundamente, tête-à-tête, estes eram os doze apóstolos. Mas mesmos entre os doze, Cristo buscou um relacionamento ainda mais profundo com alguns deles: Pedro e João, e cada um ao seu estilo e personalidade.

Assim deveríamos entender a vida, como Cristo nos ensinou. E foi por isso que o próprio Cristo disse que conheceríamos a ele não só pelo que “leríamos” sobre ele, mas pelo que conheceríamos dos seus “pequeninos”, ou seja, do tête-à-tête com as pessoas. E este tête-à-tête pode nos revelar coisas boas ou desagradáveis, mas nada disto importa. Cristo disse que se queremos realmente ser discípulos dele, devemos lhe dar com os bons e os maus, os fortes e os fracos, os melhores e os piores. Só assim poderíamos ser chamados de cristãos. Aqueles que evitam tais situações, evitam a realidade que está fora do discurso, do que se escreve, do que se lê, do que se diz, aqueles que evitam conhecer  o melhor e o pior de cada ser humano, estes não poderão ser chamados de cristãos.  

Da mesma forma que não podemos julgar uma pessoa porque lemos alguma coisa dela ou sobre ela, ao contrário, seremos julgados por não buscarmos o tête-à-tête.
Então como é que queremos avaliar pessoas a distância? Como é que queremos definir o que alguém pensa ou deixa de pensar apenas pelo que lemos dela ou sobre ela, pelo que interpretamos ao nosso bel prazer se não possuíamos este tête-à-tête?

É sério! Não conheço as pessoas por causa do que é escrito em suas redes sociais, em seus livros, pelo que pintam, pelas poesias, por suas músicas, por seus status, muito menos elas me conhecerão.
Ainda sou a favor do tête-à-tête, mas isto também não é para todos. Vivemos num mundo de superficialidades, e estamos deixando que o superficial assuma o controle. As redes sociais são um bom exemplo disto. Os superficiais tanto julgam através destas redes como querem que os julguemos através delas. E isto é um grave erro que não podemos cair!

Não! Não se deixe levar pelo que você lê. Seja para o bem ou para o mal. Aquilo que lemos pode e até deve nos edificar de alguma forma, mas longe está de refletir quem são as pessoas por trás de seus escritos. Só conhecemos as pessoas tête-à-tête, seja para o bem e para o mal. E isto requer tempo, paciência, investimento, e se não estivermos dispostos a fazer isto, então devemos parar de falar duas coisas: que conhecemos as pessoas de verdade e que somos cristãos.

P.S.: te respeito simplesmente pelo fato de ter quisto me conhecer melhor!

Att.

Fabiano Mina