outubro 27, 2012

Vinde a mim até os melancólicos





Não, não existe ninguém no mundo capaz de conhecer nossos mais profundos sentimentos. Por mais que tentemos expressá-los, apenas nós (talvez) e Deus somos capazes de perceber o que nós mesmos sentimos.

Quando expressamos nossos sentimentos, ainda que sejam para as pessoas que amamos, esses sentimentos saem de dentro de nós tortos, esfumaçados, turvos. O desejo que existe em nós nem sempre é comunicado da melhor forma. E quando estas coisas vão acontecendo, temos duas saídas: ou lutarmos constantemente para aperfeiçoar esta comunicação; ou nos tornarmos reclusos, indiferentes até mesmo melancólicos. E é nesta segunda opção que normalmente as coisas pioram, ainda que não queiramos.

Ao nos tornarmos reclusos, tendemos a esconder nosso real sofrimento, nossas angústias, nossas dores. Muitos nos olham e nos acham fortes, mas na verdade o que nos tornamos são pessoas duras, onde uma ebulição de sentimentos ocorre dentro de nós e não são expressos claramente, e quando o são ocorrem de forma indesejável para os que os recebem.

Pessoas assim tendem a buscar formas de escapar deste tipo de angústia interna que as atormentam. São várias formas de escapar, mas os sentimentos lá dentro são tão intensos que às vezes mesmo as escapatórias, que num primeiro momento deveriam ser boas, se tornam péssimas, pois se perde o senso da medida certa, assim exagerando na dose. Então o mundo desmorona sobre estas pessoas, pois os que a vêem de fora sempre interpretam suas reações equivocadamente. Não que seus comportamentos sejam aprovados, mas os motivos é que deveriam ser analisados.  

E uma bola de neve vai se formando dentro dessas pessoas. Os que são reclusos sofrem ainda mais, suas expressões não agradam aos que o cercam e o julgamento é de que estas pessoas são apenas duras, frias, insensíveis, apáticas, quando na verdade são apenas pessoas necessitadas, frágeis, inseguras, que precisam mais do que muitos outros de um ombro amigo, de amor, de compreensão, só não sabe como agir e como pedir.

Isto que escrevo não é nenhuma novidade, pois desde os sábios mais antigos, como Hipócrates (médico grego), até Freud, já estudavam certo estado de “melancolia” que as pessoas enfrentam consigo mesmas. Este estado hoje é muitas vezes interpretado erroneamente como depressão. A depressão é um estado de alteração psicológica, já a melancolia é um estado psicológico também, mas ocasionado por um estado EXISTENCIAL.

Uma pessoa melancólica não é aquela do tipo depressivo que fica chorando porque não tem amigos, porque ninguém gosta dela, porque o trabalho a está matando, porque está cheia de dívidas. Ela até tem também estes estresses também. Mas no caso dela suas questões são mais de ordem existencial. Ela questiona sua própria existência, o sentido da vida, o motivo das religiões existirem, o porquê em muitos casos os propagadores do bem (os religiosos) serem piores dos que os que não o são, o porquê de Deus parecer tão distante quando mais se quer Ele perto, porque pessoas falam de tantas verdades acerca da vida e ao mesmo tempo estas verdades divergirem tanto de uma para outra, porque do sofrimento e das injustiças no mundo, porque o bem que queremos fazer não conseguimos, das explicações mitológicas sobre a vida, o homem, o mundo, etc. 
Antes de você se achar um melancólico, calma! Alguns até fazem tais perguntas, mas o melancólico não se contenta, ele quer as respostas de "verdade" e luta por elas, pois a falta de tais respostas o deixa perturbado neste mundo tão frio, caótico, estranho à vida feliz. Aliás, felicidade não é algo que o melancólico acredite muito. Estados de felicidade pode até ser, mas felicidade como algo universal, para o melancólico é coisa de gente que adora se enganar e muitas vezes usa até Deus para isto.

Sim, o melancólico está num estágio de questionamentos muito mais profundo do que a vasta maioria das pessoas se encontra. E é por isso que ele se torna uma pessoa dura, fria, insensível em sua aparência, pois o melancólico não consegue transmitir estas suas questões existenciais para os outros facilmente, pelo menos não para qualquer um. Então os sentimentos que lá estão dentro dele reagem de forma estranha, vira um “tumor”, aperta o coração dele só de pensar nestas questões que nunca cessam de incomodar-lhe.

Não! Não pense que o melancólico é uma pessoa doente no sentido patológico, também não é aquela versão do romantismo alemão do séc XVIII, ou uma pessoa que sofre de auto-comiseração, estas são versões bem barateadas de uma melancolia. O melancólico é acima de tudo um modo de ver a vida, é um tipo de reação natural ao mundo caótico, e ao contrário do que muitos imaginam ele enxerga o mundo com muito mais clareza e profundidade do que a maioria das pessoas em seus pífios mundinhos do cotidiano, e é exatamente por isso que ele é incompreendido, pois ele se difere da maioria, ele torna-se uma espécie de ser diferente num mundo onde estas questões são ignoradas e quando enfrentadas o são com uma compra de sorvete na esquina, com um passeio no shopping, vendo a mais nova novela das oito, com rituais religiosos, usando às vezes até drogas (inclusive calmantes, aspirinas, soníferos, etc.) ou bebidas, etc.  Não que estas coisas em alguma medida não possam ser praticadas, porém se elas forem utilizadas para esconder tais questionamentos, as pessoas vivem o mundo, como dizia Karl Marx, como num estado de “ópio” (adormecidas, entorpecidas).

Melancólico é uma raça em extinção, poucos conseguem reconhecer um, eles normalmente quando passam pela vida de alguém, não passam desapercebidos, mas por outro lado, pouquíssimos conseguem identificar que o que há dentro dele é um existencialismo tão mortal, inclusive para ele mesmo.

Qual a saída então para o melancólico? Bom, até onde sei nem ele mesmo sabe. Perguntas existenciais não são respondidas com frases de twitter nem de facebook, também não é com cessão do descarrego, muito menos com a prática de decorar frases bíblicas ou músicas gospel, lendo poesias ou indo almoçar com a família depois de um passei matutino no Parque do Ibirapuera. 

Talvez seja por isso que Cristo diz: vinde a mim todos vós, sejam os cansados os fracos, os oprimidos, inclusive os melancólicos.

Att.

Fabiano Mina