outubro 13, 2012

O problema não está nos professores, está no que pensamos e queremos deles



Para entender este meu texto primeiro é preciso ler esta matéria que está no link acima, que trata do comentário de um teórico português acerca da educação brasileira.


É sempre o mesmo discurso. Algum fulano de tal que possui uma experiência tal, que conseguiu sucesso em alguma escola no Antigo Continente, então aparece aqui no Brasil supostamente querendo ensinar ou implementar suas teorias na área da educação.

Então ao serem questionados, fazem algum tipo de análise da atual educação brasileira, falando sempre as mesmas redundâncias. Logo após as avaliações feitas, sugerem idéias sempre generalizadas, também redundantes, apontando os velhos e já conhecidos problemas e normalmente finalizam dizendo sempre parecido com o que foi dito na reportagem: "o principal obstáculo é o professor". E obstáculo não no sentido de dizer que o professor precisa imediatamente e de forma radical ser enxergado e ouvido pela sociedade, mas no sentido de reforçar uma famigerada crítica feita à profissão do professor que é tão ignorada, menosprezada e pouco valorizada em nosso país. Ou seja, no final das contas, fazem-se críticas generalizadas, mas na hora de objetivar uma delas, o professor é quem sempre vira o alvo.

Educadores ou teóricos como este senhor deveriam ouvir mais teóricos na área da psicologia familiar como Joel Birman, que afirma ser um dos problemas na educação a transferência que a sociedade e a família faz de suas responsabilidades para a escola, consequentemente para os professores. Também sou adepto da teoria da Rosely Sayão que diz que os pais devem ser impor mais aos filhos, mostrarem autoridade, deixar claro os limites e não terem medo de falar "não", pois há um excesso de liberdade e licenciosidade dado às crianças e adolescentes em nossos dias atuais. E ela é um dos teóricos que concordam que a escola virou um "depósito de crianças", e os pais estão cada vez mais abrindo mão da educação dos próprios filhos "terceirizando" suas responsabilidades.

Em uma sociedade onde pais precisam estar horas e horas fora de casa, e em uma sociedade em que cada vez mais se exige mão de obra instantaneamente desses mesmos pais, as escolas acabam absorvendo os filhos com suas deficiências de “formação primária” (diz Joel Birman), tendo as escolas que lhe dar primeiro com problemas de ordem básica educacional (moral, ética, valores), para só então tratar de assuntos eminentemente pedagógicos. Pior do que isto, as escolas viram grandes depósitos de crianças, já que elas estão superlotadas, sem aparato técnico, sem condições estruturais, o que dificulta diretamente o trabalho do professor, consequentemente da educação das crianças. Além dos professores que por baixos salários trabalham muitas jornadas no dia nas escolas, para compor salários melhores, acabam deixando de se especializar (pós, mestrado, doutorado, etc.), de se capacitarem mais, atrofiando o próprio conhecimento, tornando-se repetidores de teorias e idéias velhas.

Então quando surgem professores que são considerados “diferentes” pela mídia, normalmente são professores que implementam métodos ou estratégias “lúdicas”, não que seja ruim o lúdico (ao contrário), mas necessariamente não é sinônimo de “educação”, já que a educação é muito mais do que brincadeiras e risos, pois a formação que se exige fora da escola, em faculdades e universidades pedem muito mais do que isto. Então quando saem os indicadores comparativos da educação (como o IDEB ou IDESP), as escolas que estão sempre à frente nunca são as públicas,  muito menos os tais professores lúdicos delas, mas as escolas "privadas" que normalmente estão afinadas com as exigências de cursinhos escolares visando provas tradicionais exigidas pelas melhores faculdades e universidades, inclusive públicas. Na melhor das hipóteses as melhores escolas públicas são as militares, ou seja, a federais. Significa que há um emaranhado de retóricas e mentiras em nome da educação brasileira que nunca resolvem de fato os problemas, e que longe está de ser a solução esses discursos "importados" de Portugal, ou seja lá qual os teóricos de outros países. Fato é que existe uma peculiaridade na educação brasileira que começa não pelo professor em sala de aula, pode até passar pelo professor, mas que começa e termina no interesse pública, na vontade política, na cultura social e familiar que está instalada em nosso país há décadas. Posso arriscar dizer que o Brasil ainda sofre da "síndrome da colonização", onde aceitamos de cabeça baixa todo o tipo de imposição, absurdos, e discursos fajutos, principalmente quando ele aparecem para nós como "importados".

Mas nada disto é novidade! Pessoas como este sr. português apenas enxergam na nossa atual educação uma "oportunidade" para vender seus livros, dar suas palestras e cursos superficiais, ou seja ganhar dinheiro é o que importa para este srs., afinal de contas sua educação particular e a de seu país vai muito bem obrigado! Brasileiro adora ser enganado por “gringos”, faz parte da nossa história. Modelos escolares, educacionais e/ou pedagógicos que foram e são implementados em outros países, não podem ser jamais copiados pelos brasileiros a rigor, e isto pelo mesmo motivo que este sr. afirmou em sua fala, já que o Brasil é feito de um povo com "mistura", ou seja, ele não é igual a nenhum outro país europeu como Portugal por exemplo. Além de termos uma cultura diferente da de um país como Portugal, já que além das enormes dificuldades que temos político-sociais, também temos uma grande defasagem econômica, e grande diferença territorial se comparado com estes países, também somos uma país que olha para a educação com desdém desde nossos primórdios pós-colonização. O Brasil é um país continental que busca tratar da educação de forma isolada, ou seja, deixa a educação à mercê dos Estados como se estes tivessem real interesse pela educação, quando na verdade apenas têm, através de seus políticos, interesse em cargos públicos, carreira política, e na melhor das hipóteses conseguir fechar a conta no final de cada mandado.

Sendo assim, por favor, senhores não venham com suas velhas (novas?) teorias, como esses que vem ao Brasil apenas para vender seus livros e soltar suas redundantes apreciações sobre a educação que em nada melhora nossa educação, ao contrário, continuam escondendo os reais problemas dela que estão longe ser determinadas a partir do professor.
Com isto não digo que o professor não é a figura mais importante nesse processo, mas é exatamente por achar que ele é o mais importante, que não deveria ser colocado como o vilão da história, mas como uma das vítimas junto com os alunos e a sociedade, em um país onde valorizamos mais jogadores de futebol, ex-BBB, blogueiros e twitteiros, do que os professores. É exatamente por valorizar os professores que devemos ver que os vilões são aqueles que impedem que esta profissão seja exercida com excelência.  E adivinha quem são os vilões: são os que ganham com a ignorância do povo, ou aqueles que vendem livros porque a ignorância abre caminho para ganhar dinheiro com suposta preocupação educacional. Os verdadeiros teóricos devem ser "verdadeiros críticos". Mas não críticos de professores apenas, mas críticos do atual sistema educacional nacional em que vivemos. E pelo que eu saiba, um sistema educacional não é mudado apenas pelo desejo dos professores, pois se assim o fosse, já teria mudado. Ao contrário, o sistema é mudando pela sociedade em geral, o problema é que esta sociedade normalmente é cega para esses problemas, assim como o é para todos os demais problemas relacionados à política social, econômica e educacional do nosso país. Basta ver um pouco os noticiários e perceberão isto.

E por favor, paremos com esta mania de achar que só professor deve trabalhar "por amor". Todos deveríamos trabalhar por amor, pelo menos aqueles que enxergam no trabalho uma forma de manifestar a dignidade humana. E não é pelo fato de achar que a profissão de educador é uma das mais excelentes que o professor é o único de deve amar o que faz. O político, o bombeiro, o policial, o médico, etc., todos deveriam amar o que fazem, e nem por isso achamos que estes devem ganhar baixos salários ou serem desvalorizados. Então porque o professor deveria ganhar pouco e ser desvalorizado, e ainda assim continuar se esforçando ("se matando") para exercer sua profissão com excelência, se para ter excelência num mundo globalizado e capitalista é preciso dinheiro? Então paremos com esta retórica barata, com estes discursos fajutos, com esta mania piegas de tratar o professor e incentivá-lo à base de sentimentalismo romântico de quinta categoria. Professor deve amar sim o que faz, mas amor não enche barriga. Façamos nossa parte e amemos também os professores, pagando bons salários, dando condições de trabalho, recuperando a dignidade deles e ajudando-os a educar os alunos. A educação não é função apenas do professor, mas da família e da sociedade.
Aí quem sabe poderemos dar uns minutos do nosso tempo para ouvir esses teóricos "importados" que gastam bastante tinta de caneta pensando em ganhar muito dinheiro com suas teorias, mas pouco a favor para a educação "de fato".

Passar bem!

Fabiano Mina