outubro 30, 2012

É este o seu significado de vida?







Saber qual o real significado da nossa vida é uma pergunta que se aida não fizemos um dia faremos. É uma pergunta que vai além dos interesses cotidianos da vida, pois é de caráter existencial, profundo, condutor, subjetivo, também teleológico até mesmo uma teodicéia.

Para pessoas que gostam de filmes como eu, com um senso um pouco mais aguçado de reflexão (ainda que eu também goste de filmes estilo hollywoodiano), aconselho assistirem o filme “Sunset Limited”. Este filme tem sido traduzido para o Brasil como: “No limite do pôr do Sol”, ou “No limite da Razão”. De qualquer forma será um filme fácil de assistir, seja para quem tem acesso a filmes on-line, DVD ou queiram comprar.

Neste filme há dois homens, um cético/ateu outro religioso/evangélico, debatendo acerca do “sentido da vida”, um contrapondo ao outro num diálogo que se desenrola por mais de 1hr de filme. Um diálogo alucinante onde o ateu tenta provar para o religioso que a vida não tem significado algum, enquanto o religioso faz o contrário.

Este filme é o típico filme que fala exatamente da pergunta que em determinado momento de nossas vidas devemos fazer a nós mesmos: qual o significado da nossa vida?

Porém, pior do que um cético que foge dos significados mais substanciais da vida, tratando os significados apenas no plano da vida cotidiana, há aqueles que acreditam que encontram um significado para suas vidas, quando na verdade não passam de frágeis ilusões, e infelizmente muitos desses são os religiosos.

O perigo daqueles que se agarram à religião imputando a ela falsos significados, passam a viver suas vidas achando que encontram um real significado, quando na verdade estão presos a ilusões. E se pensarmos no sentido último que podemos entender do que seria o significado da vida, neste sentido, ele está pior do que um cético, pois um cético admite não ter um significado último para sua vida, então a vive naturalmente, enquanto o religioso acaba preso a falsos significados não se permitindo encontrar um que seja genuíno, então vive uma vida irreal, ilusória, desconexa da realidade.

Neste sentido um religioso faz da religião um perigo, pois a ela imputa uma falsa sensação de ter encontrado seu motivo de viver, e baseado nesta falsa sensação toma algumas decisões perigosas como: mudar de emprego, de casa, de país, etc. Alguns chegam até abandonar antigos sonhos, ou até mesmo criam novos sonhos estranhos, tudo isto baseado nestes significados ilusórios, e quando vão caminhando para o final de suas vidas começam a perceber que estão em um caminho sem volta. Então se tornam religiosos superficiais, moribundos, anêmicos, dogmáticos, pois percorreram suas vidas pautadas em falsos significados.

O significado da vida exige outras perguntas como: este significado me levará para onde? Quem se envolverá nesta minha trajetória de significado? Qual o preço que estou disposto a pagar para este significado? Este significado não está ligado a interesses puramente egoístas ou efêmeros? Este significado alcança outras pessoas? Este significado está claro para mim?


Talvez eu poderia colocar outras perguntas aí, mas o que importa é saber que encontrar o significado para nossas vidas não é igual a escolher a marca de um carro novo, um emprego, ou com quem casar-se. O significado da vida é algo que exige muito mais profundidade, tempo de reflexão, cuidado, avaliação e compartilhamento.

Cuidado para que o significado que você esteja dando para sua vida não passe de falsas ilusões, que futuramente cobrarão muito caro de você.

Att.

Fabiano Mina


outubro 29, 2012

Saudades quando o Homem usava o “h” maiúsculo





De início quero diferenciar no texto Homens dos outros demais homens pelo “h” que será maiúsculo ou minúsculo, logo fazendo a distinção que será tratada no texto. Com maiúsculo são os que eu considero os verdadeiros homens, consequentemente os com minúsculo são os que acredito que ainda estão em processo de se tornarem Homens ou provavelmente nunca o serão.





Acredito que em nossos dias ainda existam Homens, mas a grande maioria tem usado o “h” minúsculo mesmo. As diferenças são muitas e gritantes, porém  não poderia elencá-las todas aqui, então considerarei algumas delas que entendo serem interessantes para este meu devaneio reflexivo.

Homens assumiam suas responsabilidades independentemente de quem fosse o culpado ou não. Isto porque o Homem, mesmo que determinada situação ruim acometa sua vida, ele ainda assim assumirá a responsabilidade para que sua vida volte ao seu controle. O Homem tem sempre uma posição definida, clara, objetiva, ele não é igual a homens que ora são uma coisa ora são outra. O Homem não necessita de afagos ou aplausos para se sentir útil, já o outro tipo de homem sim.

Sinto saudades de Homens que ao se dirigirem a outros Homens pensavam duas vezes, pois acima de tudo o ser Homem passa por uma vida de experiências, por responsabilidades, por uma família constituída, pela independência dos pais, dos familiares, pela experiência de ter vivido muitos altos e baixos, por um sólido caminho de lutas e vitórias. Era por isso que um Homem ao se dirigir a outro Homem olhava também para a história de vida do outro, para o eixo moral e ético que o norteava. Mas os homens hoje em dia confrontam sem nenhum respeito ou pudor a história desses outros Homens. Ignoram o fato de que a vida às vezes fala mais alto do que títulos, diplomas, condições financeiras.
Estes metidos a homens são tagarelas, firmados em sonhos vazios, superficiais. O sorriso que sai de suas bocas são impregnados de destruição, de sentimentos vis, de desejos mesquinhos, egoístas e infantis, e ainda assim eles insistem em achar que são homens com o “H” maiúsculo quando nem começaram ainda a trilhar a caminhada da vida que, só esta sim, prova quem são os verdadeiros Homens.

Saudades daqueles Homens que não se escondiam atrás de mulheres, de crianças, de idosos, mas Homens que, se ainda fosse o caso, resolviam suas diferenças olho no olho, sozinhos um com o outro, de portas fechadas, acontecesse o que acontecesse, mas saiam de lá de dentro mais Homens, ou pelo menos diferenciando-os uns dos outros: os Homens dos homens.  

Sinto falta daqueles Homens que ouviam os mais velhos não porque os mais velhos são mais inteligentes, mas porque os mais velhos já viram muitas coisas se repetirem dos quais os mais jovens cometem os mesmos famigerados erros achando que descobriram a roda.

Há uma nostalgia minha por aqueles Homens que não queriam se relacionar com outros Homens por interesses espúrios, baixos, como trampolim de vida, antes buscavam um mesmo entendimento do que é de fato ser o “masculino” tão presente nos Homens, e era e é por isso que Homens sempre andaram com outros Homens - como se fosse uma tribo, um clã, uma irmandade - para aprenderem mutuamente a serem Homens. Masculinidade que não se aprende apenas com o pai e a mãe, mas na roda de Homens de verdade.  

Seria bom que aqueles Homens voltassem a mostrar para os homens que o mundo não precisa que o Homem seja bruto, machista, violento, mas ao mesmo tempo que não devem ser um tipo de homem porcaria, que se dermos um sopro nele, ele cai do outro lado chorando igual a um bebê. Homens que ensinavam que entre Homens deve existir um código de hombridade que não se aprende em faculdade, em bate-papo de colégio, em filme ou seriado de TV. Hombridade que sempre existiu nos reais Homens que lutaram para melhorar suas famílias, o mundo, aquilo que estivesse diante deles. Homens que entenderam que as mulheres querem Homens melhores, mas o ser melhor não é ser igual elas, antes é atender sua necessidades no relacionamento. Necessidades que passam desde a comunicação à relação (sexo, amor, paixão), até ao provimento familiar.

Se engana quem acredita que o mundo é melhor hoje com um tipo de homem que não assume sua masculinidade com argumento de modernidade. Mentira! Pois são exatamente esses homens frouxos, metidos a moderninhos, que gastam mais horas em salão de beleza, em telefone, e em bate-papo virtual, que têm estragado o mundo. Quando deveriam se dedicar mais ao sustento da família, na reflexão producente, no aprendizado religioso e acadêmico, no ensino para com os filhos, no envolvimento político, na liderança social, etc.

Homem que nunca assumiu uma família, filhos, trabalho, responsabilidades gerais, acha que se faz homem por teoria? Ser Homem não é uma teoria, é condição e estilo de vida. Mas tem homem querendo ensinar Homem é ser Homem. Absurdo?!

Homens de verdade nunca ficaram brincando de motivação pessoal, de espiritualidade clichê, de interiorização cabalista ou mantras coletivos. Homens de verdade sempre arregaçaram as mangas e foram mudar o mundo. Não o mundo todo, mas o mudo que lhe cabe.

Homens de verdade são raros, pois a maioria desses atuais homens são os tais paparicados pelo papai e mamãe, dependentes acessivamente, mimados, frágeis. São meninos brincando de serem homens, que trabalham, quando trabalham, apenas para gastar com seus videogames, com suas roupas da moda, com seus passeios com a galera da faculdade ou colégio, mas que dificilmente assumem as responsabilidades, junto com os pais, das despesas gerais da casa.  São esses que não trabalham para dividir o pão de cada dia, mas só para si mesmos, que se motivam apenas com os brinquedinhos eletrônicos do mais novo lançamento na loja do shopping da esquina. São crianças mimadas que acham que porque nasceram os primeiros pelos na cara podem ser considerados Homens. Podem?!

Sim, algumas vezes os Homens passavam dos limites e iam para “vias de fato” com outro Homem. Mas as vias de fato eram mais sinceras do que os atuais sorrisos falsos e os medíocres apertos de mão traiçoeiros que vêm dos tais homens. Era exatamente por isso que um Homem pensava muito antes de falar uma bobagem para outro Homem, pois vias de fato seriam inevitáveis. Porém, hoje os tais homens falam bobagem demais, e temos que aguentar muitas vezes calados para respeitar tais fragilidades moderninhas. Esses sorrisos falsos dos tais homens escondem os reais interesses podres, invejosos e maledicentes que esses homens proliferam em nossa sociedade. E nem a coragem de vias de fato eles teriam, pois são até para isto covardes.

É verdade! Algumas vezes os Homens arrotavam em público, uma falta de educação tamanha. Mas o arroto, ainda que mal educado, colocava para fora sua brutalidade que obviamente precisava ser educada. Por outro lado hoje é pior quando esses atuais homens “arrotam para dentro”, pois são fofoqueiros, mesquinhos, divisores: o fermento que leveda toda a massa.

Sim, antes esses Homens eram criticados por serem ignorantes no jeito de se vestir, de falar, de andar, até de se comunicar; mas sabíamos o que eles eram, queriam e pensavam. Hoje temos homens que falam pelos cantos, no máximo para dois ou três ao seu lado que fazem parte da mesma laia. Escondem-se em suas arrogâncias fingindo ser bons moços quando não o são, pois a pior arrogância é aquela que não se expõe para os outros seus reais pensamentos para que suas falhas não sejam reconhecidas, os seus erros não sejam vistos, para que suas tais verdades não sejam esmiuçadas.

O mundo precisa de Homens de verdade, não desses que temos hoje em dia. Precisamos daqueles que “colocam a mão da massa”, que fazem força, que batem no peito e dizem:  - deixa comigo! Precisamos daqueles que olham nos olhos, que assumem suas responsabilidades, que cortam o “cordão umbilical” preso aos pais, que enfrentam a vida como ela é, que respeitam os mais velhos, que pagam suas .contas, que honram, que são honestos, que lutam por si e pelos outros, que não se escondem atrás de mulheres, que assumem a masculinidade sem medo de crítica feminista (ou machista), que enfrentam os problemas com cabeça erguida, etc.

Talvez seja por isso que o apóstolo Pedro, ainda que com todos os defeitos e mesmo o rei Davi com tantos pecados, foram eles considerados Homens com “h” maiúsculo por Deus. Não! Homens não são perfeitos, não são os mais amados, não são os "mocinhos" das historinhas, mas são os Homens quem mudaram o mundo para melhor, enquanto isto os demais brincam de serem homens.

Att.

Fabiano Mina  

outubro 27, 2012

Vinde a mim até os melancólicos





Não, não existe ninguém no mundo capaz de conhecer nossos mais profundos sentimentos. Por mais que tentemos expressá-los, apenas nós (talvez) e Deus somos capazes de perceber o que nós mesmos sentimos.

Quando expressamos nossos sentimentos, ainda que sejam para as pessoas que amamos, esses sentimentos saem de dentro de nós tortos, esfumaçados, turvos. O desejo que existe em nós nem sempre é comunicado da melhor forma. E quando estas coisas vão acontecendo, temos duas saídas: ou lutarmos constantemente para aperfeiçoar esta comunicação; ou nos tornarmos reclusos, indiferentes até mesmo melancólicos. E é nesta segunda opção que normalmente as coisas pioram, ainda que não queiramos.

Ao nos tornarmos reclusos, tendemos a esconder nosso real sofrimento, nossas angústias, nossas dores. Muitos nos olham e nos acham fortes, mas na verdade o que nos tornamos são pessoas duras, onde uma ebulição de sentimentos ocorre dentro de nós e não são expressos claramente, e quando o são ocorrem de forma indesejável para os que os recebem.

Pessoas assim tendem a buscar formas de escapar deste tipo de angústia interna que as atormentam. São várias formas de escapar, mas os sentimentos lá dentro são tão intensos que às vezes mesmo as escapatórias, que num primeiro momento deveriam ser boas, se tornam péssimas, pois se perde o senso da medida certa, assim exagerando na dose. Então o mundo desmorona sobre estas pessoas, pois os que a vêem de fora sempre interpretam suas reações equivocadamente. Não que seus comportamentos sejam aprovados, mas os motivos é que deveriam ser analisados.  

E uma bola de neve vai se formando dentro dessas pessoas. Os que são reclusos sofrem ainda mais, suas expressões não agradam aos que o cercam e o julgamento é de que estas pessoas são apenas duras, frias, insensíveis, apáticas, quando na verdade são apenas pessoas necessitadas, frágeis, inseguras, que precisam mais do que muitos outros de um ombro amigo, de amor, de compreensão, só não sabe como agir e como pedir.

Isto que escrevo não é nenhuma novidade, pois desde os sábios mais antigos, como Hipócrates (médico grego), até Freud, já estudavam certo estado de “melancolia” que as pessoas enfrentam consigo mesmas. Este estado hoje é muitas vezes interpretado erroneamente como depressão. A depressão é um estado de alteração psicológica, já a melancolia é um estado psicológico também, mas ocasionado por um estado EXISTENCIAL.

Uma pessoa melancólica não é aquela do tipo depressivo que fica chorando porque não tem amigos, porque ninguém gosta dela, porque o trabalho a está matando, porque está cheia de dívidas. Ela até tem também estes estresses também. Mas no caso dela suas questões são mais de ordem existencial. Ela questiona sua própria existência, o sentido da vida, o motivo das religiões existirem, o porquê em muitos casos os propagadores do bem (os religiosos) serem piores dos que os que não o são, o porquê de Deus parecer tão distante quando mais se quer Ele perto, porque pessoas falam de tantas verdades acerca da vida e ao mesmo tempo estas verdades divergirem tanto de uma para outra, porque do sofrimento e das injustiças no mundo, porque o bem que queremos fazer não conseguimos, das explicações mitológicas sobre a vida, o homem, o mundo, etc. 
Antes de você se achar um melancólico, calma! Alguns até fazem tais perguntas, mas o melancólico não se contenta, ele quer as respostas de "verdade" e luta por elas, pois a falta de tais respostas o deixa perturbado neste mundo tão frio, caótico, estranho à vida feliz. Aliás, felicidade não é algo que o melancólico acredite muito. Estados de felicidade pode até ser, mas felicidade como algo universal, para o melancólico é coisa de gente que adora se enganar e muitas vezes usa até Deus para isto.

Sim, o melancólico está num estágio de questionamentos muito mais profundo do que a vasta maioria das pessoas se encontra. E é por isso que ele se torna uma pessoa dura, fria, insensível em sua aparência, pois o melancólico não consegue transmitir estas suas questões existenciais para os outros facilmente, pelo menos não para qualquer um. Então os sentimentos que lá estão dentro dele reagem de forma estranha, vira um “tumor”, aperta o coração dele só de pensar nestas questões que nunca cessam de incomodar-lhe.

Não! Não pense que o melancólico é uma pessoa doente no sentido patológico, também não é aquela versão do romantismo alemão do séc XVIII, ou uma pessoa que sofre de auto-comiseração, estas são versões bem barateadas de uma melancolia. O melancólico é acima de tudo um modo de ver a vida, é um tipo de reação natural ao mundo caótico, e ao contrário do que muitos imaginam ele enxerga o mundo com muito mais clareza e profundidade do que a maioria das pessoas em seus pífios mundinhos do cotidiano, e é exatamente por isso que ele é incompreendido, pois ele se difere da maioria, ele torna-se uma espécie de ser diferente num mundo onde estas questões são ignoradas e quando enfrentadas o são com uma compra de sorvete na esquina, com um passeio no shopping, vendo a mais nova novela das oito, com rituais religiosos, usando às vezes até drogas (inclusive calmantes, aspirinas, soníferos, etc.) ou bebidas, etc.  Não que estas coisas em alguma medida não possam ser praticadas, porém se elas forem utilizadas para esconder tais questionamentos, as pessoas vivem o mundo, como dizia Karl Marx, como num estado de “ópio” (adormecidas, entorpecidas).

Melancólico é uma raça em extinção, poucos conseguem reconhecer um, eles normalmente quando passam pela vida de alguém, não passam desapercebidos, mas por outro lado, pouquíssimos conseguem identificar que o que há dentro dele é um existencialismo tão mortal, inclusive para ele mesmo.

Qual a saída então para o melancólico? Bom, até onde sei nem ele mesmo sabe. Perguntas existenciais não são respondidas com frases de twitter nem de facebook, também não é com cessão do descarrego, muito menos com a prática de decorar frases bíblicas ou músicas gospel, lendo poesias ou indo almoçar com a família depois de um passei matutino no Parque do Ibirapuera. 

Talvez seja por isso que Cristo diz: vinde a mim todos vós, sejam os cansados os fracos, os oprimidos, inclusive os melancólicos.

Att.

Fabiano Mina

outubro 13, 2012

O problema não está nos professores, está no que pensamos e queremos deles



Para entender este meu texto primeiro é preciso ler esta matéria que está no link acima, que trata do comentário de um teórico português acerca da educação brasileira.


É sempre o mesmo discurso. Algum fulano de tal que possui uma experiência tal, que conseguiu sucesso em alguma escola no Antigo Continente, então aparece aqui no Brasil supostamente querendo ensinar ou implementar suas teorias na área da educação.

Então ao serem questionados, fazem algum tipo de análise da atual educação brasileira, falando sempre as mesmas redundâncias. Logo após as avaliações feitas, sugerem idéias sempre generalizadas, também redundantes, apontando os velhos e já conhecidos problemas e normalmente finalizam dizendo sempre parecido com o que foi dito na reportagem: "o principal obstáculo é o professor". E obstáculo não no sentido de dizer que o professor precisa imediatamente e de forma radical ser enxergado e ouvido pela sociedade, mas no sentido de reforçar uma famigerada crítica feita à profissão do professor que é tão ignorada, menosprezada e pouco valorizada em nosso país. Ou seja, no final das contas, fazem-se críticas generalizadas, mas na hora de objetivar uma delas, o professor é quem sempre vira o alvo.

Educadores ou teóricos como este senhor deveriam ouvir mais teóricos na área da psicologia familiar como Joel Birman, que afirma ser um dos problemas na educação a transferência que a sociedade e a família faz de suas responsabilidades para a escola, consequentemente para os professores. Também sou adepto da teoria da Rosely Sayão que diz que os pais devem ser impor mais aos filhos, mostrarem autoridade, deixar claro os limites e não terem medo de falar "não", pois há um excesso de liberdade e licenciosidade dado às crianças e adolescentes em nossos dias atuais. E ela é um dos teóricos que concordam que a escola virou um "depósito de crianças", e os pais estão cada vez mais abrindo mão da educação dos próprios filhos "terceirizando" suas responsabilidades.

Em uma sociedade onde pais precisam estar horas e horas fora de casa, e em uma sociedade em que cada vez mais se exige mão de obra instantaneamente desses mesmos pais, as escolas acabam absorvendo os filhos com suas deficiências de “formação primária” (diz Joel Birman), tendo as escolas que lhe dar primeiro com problemas de ordem básica educacional (moral, ética, valores), para só então tratar de assuntos eminentemente pedagógicos. Pior do que isto, as escolas viram grandes depósitos de crianças, já que elas estão superlotadas, sem aparato técnico, sem condições estruturais, o que dificulta diretamente o trabalho do professor, consequentemente da educação das crianças. Além dos professores que por baixos salários trabalham muitas jornadas no dia nas escolas, para compor salários melhores, acabam deixando de se especializar (pós, mestrado, doutorado, etc.), de se capacitarem mais, atrofiando o próprio conhecimento, tornando-se repetidores de teorias e idéias velhas.

Então quando surgem professores que são considerados “diferentes” pela mídia, normalmente são professores que implementam métodos ou estratégias “lúdicas”, não que seja ruim o lúdico (ao contrário), mas necessariamente não é sinônimo de “educação”, já que a educação é muito mais do que brincadeiras e risos, pois a formação que se exige fora da escola, em faculdades e universidades pedem muito mais do que isto. Então quando saem os indicadores comparativos da educação (como o IDEB ou IDESP), as escolas que estão sempre à frente nunca são as públicas,  muito menos os tais professores lúdicos delas, mas as escolas "privadas" que normalmente estão afinadas com as exigências de cursinhos escolares visando provas tradicionais exigidas pelas melhores faculdades e universidades, inclusive públicas. Na melhor das hipóteses as melhores escolas públicas são as militares, ou seja, a federais. Significa que há um emaranhado de retóricas e mentiras em nome da educação brasileira que nunca resolvem de fato os problemas, e que longe está de ser a solução esses discursos "importados" de Portugal, ou seja lá qual os teóricos de outros países. Fato é que existe uma peculiaridade na educação brasileira que começa não pelo professor em sala de aula, pode até passar pelo professor, mas que começa e termina no interesse pública, na vontade política, na cultura social e familiar que está instalada em nosso país há décadas. Posso arriscar dizer que o Brasil ainda sofre da "síndrome da colonização", onde aceitamos de cabeça baixa todo o tipo de imposição, absurdos, e discursos fajutos, principalmente quando ele aparecem para nós como "importados".

Mas nada disto é novidade! Pessoas como este sr. português apenas enxergam na nossa atual educação uma "oportunidade" para vender seus livros, dar suas palestras e cursos superficiais, ou seja ganhar dinheiro é o que importa para este srs., afinal de contas sua educação particular e a de seu país vai muito bem obrigado! Brasileiro adora ser enganado por “gringos”, faz parte da nossa história. Modelos escolares, educacionais e/ou pedagógicos que foram e são implementados em outros países, não podem ser jamais copiados pelos brasileiros a rigor, e isto pelo mesmo motivo que este sr. afirmou em sua fala, já que o Brasil é feito de um povo com "mistura", ou seja, ele não é igual a nenhum outro país europeu como Portugal por exemplo. Além de termos uma cultura diferente da de um país como Portugal, já que além das enormes dificuldades que temos político-sociais, também temos uma grande defasagem econômica, e grande diferença territorial se comparado com estes países, também somos uma país que olha para a educação com desdém desde nossos primórdios pós-colonização. O Brasil é um país continental que busca tratar da educação de forma isolada, ou seja, deixa a educação à mercê dos Estados como se estes tivessem real interesse pela educação, quando na verdade apenas têm, através de seus políticos, interesse em cargos públicos, carreira política, e na melhor das hipóteses conseguir fechar a conta no final de cada mandado.

Sendo assim, por favor, senhores não venham com suas velhas (novas?) teorias, como esses que vem ao Brasil apenas para vender seus livros e soltar suas redundantes apreciações sobre a educação que em nada melhora nossa educação, ao contrário, continuam escondendo os reais problemas dela que estão longe ser determinadas a partir do professor.
Com isto não digo que o professor não é a figura mais importante nesse processo, mas é exatamente por achar que ele é o mais importante, que não deveria ser colocado como o vilão da história, mas como uma das vítimas junto com os alunos e a sociedade, em um país onde valorizamos mais jogadores de futebol, ex-BBB, blogueiros e twitteiros, do que os professores. É exatamente por valorizar os professores que devemos ver que os vilões são aqueles que impedem que esta profissão seja exercida com excelência.  E adivinha quem são os vilões: são os que ganham com a ignorância do povo, ou aqueles que vendem livros porque a ignorância abre caminho para ganhar dinheiro com suposta preocupação educacional. Os verdadeiros teóricos devem ser "verdadeiros críticos". Mas não críticos de professores apenas, mas críticos do atual sistema educacional nacional em que vivemos. E pelo que eu saiba, um sistema educacional não é mudado apenas pelo desejo dos professores, pois se assim o fosse, já teria mudado. Ao contrário, o sistema é mudando pela sociedade em geral, o problema é que esta sociedade normalmente é cega para esses problemas, assim como o é para todos os demais problemas relacionados à política social, econômica e educacional do nosso país. Basta ver um pouco os noticiários e perceberão isto.

E por favor, paremos com esta mania de achar que só professor deve trabalhar "por amor". Todos deveríamos trabalhar por amor, pelo menos aqueles que enxergam no trabalho uma forma de manifestar a dignidade humana. E não é pelo fato de achar que a profissão de educador é uma das mais excelentes que o professor é o único de deve amar o que faz. O político, o bombeiro, o policial, o médico, etc., todos deveriam amar o que fazem, e nem por isso achamos que estes devem ganhar baixos salários ou serem desvalorizados. Então porque o professor deveria ganhar pouco e ser desvalorizado, e ainda assim continuar se esforçando ("se matando") para exercer sua profissão com excelência, se para ter excelência num mundo globalizado e capitalista é preciso dinheiro? Então paremos com esta retórica barata, com estes discursos fajutos, com esta mania piegas de tratar o professor e incentivá-lo à base de sentimentalismo romântico de quinta categoria. Professor deve amar sim o que faz, mas amor não enche barriga. Façamos nossa parte e amemos também os professores, pagando bons salários, dando condições de trabalho, recuperando a dignidade deles e ajudando-os a educar os alunos. A educação não é função apenas do professor, mas da família e da sociedade.
Aí quem sabe poderemos dar uns minutos do nosso tempo para ouvir esses teóricos "importados" que gastam bastante tinta de caneta pensando em ganhar muito dinheiro com suas teorias, mas pouco a favor para a educação "de fato".

Passar bem!

Fabiano Mina