junho 18, 2012

Auto-ajuda e os “10 passos para um Cristianismo Feliz”!

















Um dos problemas que os historiadores enfrentam é tentar falar da própria época em que vivem. É que um historiador não pode retratar algo no presente, pois o próprio conceito de História remete sempre ao passado, não ao presente e obviamente muito menos ao futuro. Assim um historiador se limitará a esperar o passado “chegar”, para só então falar historicamente. E que história estamos escrevendo para os historiadores no futuro?

Uma das coisas que podemos fazer hoje é comparar o que vivemos com o que nossos antepassados viveram, e isto é recorrer à História. E fazendo uma rápida comparação com o cristianismo que hoje vivemos com o que lemos na História do Cristianismo, é que cada vez mais misturamos os fundamentos do cristianismo com as diversas ciências humanas, biológicas e psicológicas que a própria ciência vai criando ao longo do tempo. No século XVII um cristão chamado Pascoal já denunciava o erro de misturar ciências com religião. As duas são eficazes, se cada uma dentro de seu próprio escopo.

Uma das pseudo-ciências modernas chama-se “Auto-ajuda”. Se formos avaliar simplesmente o conceito, ele não é de todo ruim. Afinal de contas, quem não quer se auto ajudar? Quem não quer buscar algum tipo de força própria, interior, psicológica para viver sua vida de forma plena, satisfatória, eficaz? Com alguma rara exceção, todos querem, eu também!

Porém este conceito não se limita a isto. Na verdade ele fala de uma vertente, que está impregnada em nossa época, travestida de “bom conselho”, “humanismo”, “religião pragmática”, “liberalismo”, etc., e que começa cada vez mais tomar força pela boca de pessoas que deveriam lutar pela verdade, pelo cristianismo.

Esta Auto-ajuda ensina, em poucas palavras, que “no final tudo ficará bem”, e que existe algum tipo de positivismo no mundo, seja ele psicológico, seja ele espiritual, que faz com que as coisas “fiquem bem”, que de alguma forma seremos felizes.

Por isso lemos nos livros de auto-ajuda os famosos “10 passos” para a felicidade; “1001 maneiras de ser um líder amado”; “3 caminhos para a vida plena”; “aprenda como ser feliz”; “amando e sendo amando após as 10 lições”; “o guru e o mágico”; e assim por diante. Detalhe: não busquem estes títulos de livros, são apenas nomes fictícios que fiz para retratar como é que estes livros sempre querem dar um ar, já nos próprios títulos, de que “no final tudo ficará bem”, e para isto eles enchem suas folhas de conteúdos dando conselhos técnicos, mágicos, espirituais, etc., para que as pessoas os pratiquem e assim sejam eternamente felizes. Logo algum título ligado a um livro real será mera coincidência.

Você pode até dizer que já leu algum destes livros e funcionou. Ok, eu concordarei com você! Mas o fato de ter funcionado não significa que foi porque existe alguma força positivista por traz disto. Muito menos por ter funcionado com meia-dúzia de pessoas, significa que funcionará com todos. É incrível como muitos criticam aqueles "cartomantes" que vivem "adivinhando" o futuro dos outros, e em algumas vezes até dá certo e nem por isso admitem que foi uma adivinhação, mas não criticam o positivismo da auto-ajuda!

Fato é que nem mesmo os que escrevem estes livros sabem o que realmente funciona na prática, pois eles, mais do que ninguém, sabem que o sucesso deles não está naquilo que eles praticam ensinado em seus livros. O sucesso deles está na própria venda dos livros, é isto que funciona para estes gurus da auto-ajuda: vender! É o que eles “dizem” que os tornam homens de sucesso, e não aquilo que eles supostamente praticaram em seus livros (a maioria nunca nem de longe praticou o que ensina, pois sabe que é balela-engana-“trouxas”). E ainda que alguns deles relatem experiências que de fato aconteceram com eles e o que o fizeram homens de sucesso, isto não significa que ocorrerá com todos praticantes de auto-ajuda indistintamente, pois a vida é um mistério quem nem sempre os justos são justiçados e os injustos injustiçados: na maior parte das vezes é o contrário.

Este tipo de discurso de auto-ajuda, pasmem, invadiu nossos igrejas cristãs há décadas, mas nunca foi tão forte como nos dias de hoje. Basta alguém falar em uma igreja que “tudo vai dar certo no final”, que ele é visto como “o paladino da verdade cristã”. Mas eu pergunto: - o que ele quer dizer com vai dar certo no final? Pois nós sabemos que a maioria deles não está falando sobre final da vida eterna (esta sim, podemos dizer que é um final que vai dar certo, para os que servem a Deus), mas falam do “final do dia”, do “final da semana”, do “final do mês”. O “dar certo” para eles é o pagamento das contas, o casamento perfeito, a cura de uma doença, o crescimento numérico da igreja, a compra do carro novo, o casamento que tanto se espera, o namorado(a) lindo(a), etc. É deste “dar certo” que eles estão falando, e é exatamente este tipo de discurso que está nos livros de auto-ajuda e é claro que todos querem. Mas um discurso que apenas mostra que algumas vezes estas coisas até darão certo por “n’ motivos, mas não que seja uma regra espiritual ou um positivismos que às fará acontecer. Isto beira à magia.

Na maior parte das vezes aquilo que queremos e planejamos nunca acontece como queríamos, nunca! Nós é quem não damos o braço a torcer e não admitimos que a maioria das coisas que pedimos e desejos nunca acontecem e provavelmente nunca acontecerão como queremos, e fingimos que tudo está 100% como planejamos só para não assumir nossa arrogância e prepotência diante da vida.

E como se não bastasse, estes “paladinos espirituais” fazem o mesmo que nos livros de auto-ajuda: agora começam a dar “receita de bolo” para que as coisas dêem certo, e fazem isso “picotando” textos bíblicos, promessas bíblicas (genuínas diga-se de passagem), para balizar este tipo de discurso positivista como se de fato fosse acontecer indistintamente, se os “10 passos espirituais” forem praticados corretamente.
Porém estes paladinos têm sempre “duas cartas na manga” que os livros de auto-ajuda não possuem. Quando não dá certo para uma pessoa aquilo que eles prometeram, em seus discursos positivistas, eles usam dois argumentos: ou não é o tempo de Deus, ou a pessoa não teve fé o suficiente. Pronto! Aí fica tudo resolvido.

Então nos discursos positivistas religiosos, eles passam a se preocupar mais em falar coisas bonitas, fazer fundo musical melódico, fazer com que as pessoas dêem risadas, deixar todos psicologicamente aliviados das mazelas pecaminosas, reafirmar crenças absurdas, dar lições didáticas de como as pessoas devem agir em suas casas, em seus empregos, em seus relacionamentos, sempre na linha dos “10 passos para a felicidade”; do que ensinar o que de fato o cristianismo ensina para a vida.
Pasmem mais uma vez! Isto já invadiu igrejas consideradas sérias há muito tempo. Só não admite quem não quer.

E o que vemos então, é que eles passam a fazer “sucesso”, da mesma forma que os escritores de livros de auto-ajuda fazem, pois o sucesso fica sempre no discurso, ele não precisa de prática. Ensinam os religiosos a estarem satisfeitos consigo mesmos (auto-ajuda), pois a auto-ajuda é sempre para o indivíduo, nunca para o outro ou para o Corpo. Ensinam-nos a chorar, desde que o choro alivie a nós mesmos, e não um choro de clamor pelo outro. Ensinam-nos a ter bens materiais, desde que os bens sejam para nosso usufruto único. Ensinam-nos a cantar, pular, bater palmas, dar risadas, desde que na segunda-feira paguemos as contas, compremos nosso carro novo, arrumemos nosso cabelo, viajemos para praia ou interior, etc.
Ser feliz espiritual é exatamente isto, uma eterna “auto-ajuda”. E quando fazemos caridade, não se enganem! É apenas alívio de consciência. Raros são nestes meios religiosos aqueles que o fazem não como um meio, mas como um fim. O ser humano não como escada espiritual ou de cargo religioso, mas como finalidade do cristianismo.

O cristianismo nunca foi uma religião de discurso. Claro que ele deve ser verbalizado, mas acima de tudo ele é uma “religião” de vida real. O cristianismo não tem interesse em tornar as pessoas positivistas e arrisco a dizer que não é a função do cristianismo fazer alguém “feliz” (não significa que às tornem infelizes), e que tenha a "vida que pediu a Deus”.  Ele veio para ensinar as pessoas a enfrentarem a vida do jeito que ela é. O cristianismo não veio mudar vidas, mas mudar pessoas em relação à vida. A vida continua sendo A MESMA, e não existem técnicas ou “10 passos” que tornem a vida algo já preparado para a felicidade.
Na verdade a palavra felicidade é a palavra mais mal usada até hoje por religiosos de auto-ajuda (assim como usam mal a palavra amor). Pois a felicidade que eles tanto pregam nunca foi a felicidade que se espera ter um dia para todo cristão, pois a felicidade da auto-ajuda não existe, é uma ilusão mágico-psicológico usado para vender livros e fazer pregadores de sucesso. E isto funciona exatamente porque funciona desde o engano sofrido por Adão e Eva pela serpente, pois é fácil iludir nós homens desejosos por uma felicidade positivista. A promessa de ilusão sempre nos agradou mais do que a vida real (ainda que a vida real também tenha lá suas felicidades). Eu e você somos a prova viva disto. Queremos o que é fácil, o que é rápido, o que nos agrada individualmente, e o próximo, que espere (sentado de preferência)! Somos assim por “natureza”, e é isto que o cristianismo veio mudar: nossa natureza, não a vida. A infelicidade da vida continua aí, admita quem quiser ou engane-se também quem preferir.

O cristianismo não se presta a aliviar a consciência de alguém. Ele quer aliviar a alma, e a consciência é sempre uma consequência. Já a auto-ajuda, sempre se limita à consciência, e o faz bem, mas nunca chega na alma. O cristianismo não nos ensina “10 passos para a felicidade”, ele nos ensina princípios básicos de vida, e os passos somos nós quem construímos dia após dia, cada um com sua história, cada um com suas dificuldades, cada um com suas mazelas. O cristianismo não nos dá nada pronto, e ele não escreve nossa história por nós. Nossa história é construída, e enquanto é construída a felicidade se confunde com a amargura, a alegria com a tristeza, a vitória com a derrota, o amor com o ódio, comunhão com a solidão; e assim enfrentamos a vida. Mas o que nos faz enfrentá-la com qualidade não é nenhum positivismo barato que tornam as pessoas falsas, hipócritas, mentirosas, superficiais. Os que nos faz enfrentá-la de cabeça erguida, sempre esperançosos, é a promessa de termos ao nosso lado o Paracleto – o Consolador. É a promessa de que aqui estamos de passagem, e que tribulações deste mundo não se comparam com o que há de vir. Que nosso tesouro não está aqui, e viver ou morrer é lucro quando estamos em Cristo – a História do Cristianismo mostra que cristãos acreditavam e viveram isto. O cristianismo mostra ainda que teremos momentos felizes, mas não vivemos pela e para a felicidade (ela virá em momento oportuno definitivamente na eternidade), vivemos pelo “combate”, e é só o combate que nos fará acabar a carreira e guardar a fé. É o combate e não uma busca infantil superficial pela felicidade positivista que nos torna cristãos de verdade.

E é por isso que o apóstolo Paulo disse que havia “aprendido” a viver nesta vida, seja com felicidade ou sem ela (positivista não leem toda a vida de Paulo, por quê?). Pois ele aprendeu a ser “combatente”. Um combatente não sabe ao certo o que vai acontecer na guerra, não sabe quando e como ela irá acabar exatamente, ele simplesmente combate. Há momentos que haverá descanso, dança, sorriso, alimento; mas haverá momento que terá morte, dor, sofrimento, frio, fome. O combatente não vive em pró destes segundos aspectos, também não idolatra os primeiros, ele simplesmente combate porque sabe a qual exército pertence (dos cristãos), a qual general segue (Cristo), a qual capitão tem por líder (Deus).

No futuro provavelmente teremos pessoas lendo a história que estamos hoje escrevendo. Espero sinceramente que possam ler um povo cristão que não se entregou à auto-ajuda, antes lutou pelo bom combate cristão. Que foram felizes sim, mas felizes sabendo viver os momentos tristes também. Deixaram de ser meninos, criados no leite, e passaram a ser homens forjados na guerra. Fizeram a diferença em uma época onde no século XXI estava recheado de ilusões de auto-ajuda e felicidade comprada.

Espero sinceramente que eu e você consigamos escrever esta história, e que Deus nos ajude a sermos bons combatentes!

Att.

Fabiano Mina