junho 11, 2012

Aqueles minutos mágicos, nem tão mágicos assim!


Indiscutivelmente vejo sinceridade no desejo de muitos em quererem ver pessoas chegarem-se a Cristo.
E em algumas vezes vamos bem na forma de aplicar este desejo, mas não na maioria das vezes. Pelo menos não no que eu entendo.
Claro que eu não me considero uma sumidade ao falar de emoções, porém posso dar minha opinião de alguém que procura sempre a verdade nas minhas próprias emoções, sabedor que sou de que: "o coração é enganoso" mais do que todas as coisas.

Nossas emoções nos enganam da mesma forma que a razão também. É preciso certo cuidado, certa medida para que não caiamos em extremos. Mas pelo que me parece o que fortalece a religião em geral não é sua racionalidade, mas a emocionalidade que ela pode criar. As pessoas são convidadas a abortarem sua razão em pró de toda e qualquer crença. Cristo não nos ensinou isto. Apesar de Cristo se a favor da emoção, ele mesmo chorou (por pessoas, por vidas, não por desejo barato); mas o fazia dentro da racionalidade que sua própria mensagem exigia. O Evangelho exige de nós um conhecimento de si mesmo, antes que a emoção se perca em religiosidade mística, mágica, misteriosa no sentido pejorativo.

Em determinados momentos estamos expressando nossos desejos religiosos, e quando tudo está indo bem na forma de aplicar estes desejos, aí pufffff!!  Damos aquela "pitadinha" à mais que não deveríamos dar, e estragamos tudo. Colocamos nosso "jeitinho". Achamos que precisamos ir um pouco além, forçamos uma situação, e é este "um pouco à mais" que coloca tudo que dantes havia sido bem feito por "água abaixo". É este "à mais" que separa o certo do errado.

É a nossa velha mania de apelar para a emoção irracionalizada, para o fundo musical indutivo, para o poético sem fundo teológico, para o melódico choroso e repetitivo, para aqueles minutos "mágicos" em que damos a entender que as vidas das pessoas mudam apenas com um gesto ritualístico.

Não podemos fazer dos nossos desejos um tipo de comportamento "mágico". Não podemos ensinar para as pessoas que as coisas mudam ou mudarão porque elas fazem isto ou aquilo em determinados minutos. Isto destrói toda a profundidade do que significa "nascer de novo". Cobramos das pessoas certos gestos ritualísticos, e não que eles não sejam válidos em determinada medida, mas o perigo é que tendemos a passar uma mensagem através destes gestos, de que se eles praticados em determinados momentos ou minutos então - PUFFF! - a vida mudará.
E pior de tudo, sempre ouço no final das frases que tudo mudará para MELHOR! Para melhor?
Não, não foi Cristo quem ensinou isto. E este é o problema que está na magia do "jeitinho", pois ao prometer para as pessoas que depois daqueles minutos mágicos, por causa de determinados gestos, as coisas melhorarão, acabamos de estragar a mensagem do Evangelho. Isto porque este "melhor" inevitavelmente associamos a melhorar as finanças, o casamento, os relacionamentos, o trabalho, etc., e sabemos que a vida real não é assim, que o cristianismo não é assim, que a Bíblia não ensina assim. Podemos ser o melhor cristão do mundo e ter a vida mais sofrida de que se possa imaginar. Sabemos disto, lemos isto, mas na hora do vamos ver ensinamos magia.

Talvez alguns estejam pensando: ah, mas todo mundo entende isto, sabe disto. Eu digo: fale por você mesmo. Basta olharmos nossas atuais teologias, nossas igrejas, nossas crenças, e fica claro que as pessoas "não sabem disto". Talvez você saiba, talvez você consiga este discernimento, mas não a maioria, e isto é óbvio. E por isso continuamos contraditórios. Falamos, praticamos e exigimos coisas díspares.

Mudar é um processo, e não "um gesto" ritualístico, e é por isso que Cristo disse que muitos o seguiam apenas pelos seus GESTOS miraculosos e não por uma conduta de vida cristã incessante. Muitos o negaram por não compreenderem que "andar" com ele - Cristo - é muito mais do que um desejo ou alguns minutos mágicos. E a promessa de melhorar de vida, nunca foi para esta vida, mas para a vida eterna. A não ser que alguém me convença de que falar sempre a verdade, ser justo, ser honesto, ser fiel, ser sincero, falar o que se pensa  (com educação), exortar, doar sem interesse, amar o inimigo, ajudar o próximo não cobiçar, pagar as contas em dia, não ficar devedor de ninguém, etc., etc., etc., torna a vida da pessoa aqui na Terra uma "mar de rosas". Se alguém me convencer disto, ou mesmo se alguém acreditar nisto, então reconsiderarei. Mas se concordar comigo de que a luta aumenta, de que a vida passa ser um desafio ainda maior por sermos cristãos, então paremos com este vício de achar que o discurso mágico é o discurso certo, e que devemos aceitá-lo sem uma crítica racional cristã (exortação).

Veja que não estou negando que um cristão possa ter alento, possa sorrir, se divertir, ter momentos de paz, ter acima de tudo consolo. Mas não podemos nem de longe comparar com a vida daqueles que não são cristãos, ou pelo menos não possuem uma atitude cristã. A vida de um genuíno cristão nunca será um mar de rosas, só na cabeça daqueles que adoram esta mágica ritualística.

Nascer de Novo, apesar de simbolicamente ser feito em poucos minutos (batismo), não surte o resultado nestes poucos minutos. Levantar a mão e dizer que "aceita a Cristo" (?), não diz que somos pessoas melhores do que os outros. Ir ou não à frente na exortação de um orador, não demonstra os mais ou menos sinceros, mais ou menos espirituais. Mostrar aos olhos dos outros dentro de um culto um gesto ritualístico não diz quem é esta pessoa no seu dia a dia. Responder a um pedido momentâneo, seja ele qual for, não muda efetivamente a vida de ninguém. Quem crê assim espiritualiza demais o que não é para ser espiritualizado. A não ser que alguém consiga me demonstrar estes comportamentos à luz dos ensinos de Cristo.

Cristo quando contou a parábola de dois irmãos que deveriam ir trabalhar no campo, falava basicamente deste tipo de comportamento ritualístico que beira a magia. Ele descreve que um filho um fez um gesto ritualístico positivo ao dizer que faria a vontade do pai, já o outro teve um gesto negativo naquele momento. Mas exatamente o filho que fez o gesto positivo foi o que não mudou seu comportamento, enquanto o que não fez o gesto positivo teve seu pensamento e comportamento correto, sem fazer nenhum gesto ritualístico positivo anterior (Mt 21:28-31). O que prova que não mudamos por gestos momentâneos, mas por uma gradual consciência cristã. Mudamos com atitudes de "uma vida inteira", e ainda assim dependendo com quem andamos e onde frequentamos.
Estamos carentes desta vida cristã prática, e cheios de gestos ritualísticos positivistas que em nada mudam a vida das pessoas.

Sabe aquele velho ditado: "o inferno está cheio de boas intenções". É mais ou menos isto. Fazemos das boas intenções formas erradas de aplicar o Evangelho, e infelizmente a grande maioria está só analisando as boas intenções (o que já é complicado de se saber quem tem ou não boa intenção) e não a prática delas. Está tudo tão bem, tão certo, tão bem feito para a maioria que não há mais "exortação" neste sentido. Não vejo ninguém reclamar destas "boas intenções" mal aplicadas. Ainda continuamos "endeusando" pessoas por suas boas intenções e não pela aplicabilidade destas intenções. Continuamos apenas fazendo rituais. O ser humano se sente à vontade com rituais, com minutos mágicos. Continuamos infantilizando em vez de crescermos. E é óbvio que todos gostam mais disto, eu também gosto daquilo que me agrada momentaneamente. Porém, o fato de um doce açucarado ser gostoso, não significa que é melhor do que um bom alimento. Ainda queremos doce, não queremos um bom alimento que nos fortaleça, que nos faça crescer. Ainda queremos magia e não cristianismo.

Os discípulos de Cristo queriam que ele fizesse milagres a todo momento, chegaram até pedir que Jesus reproduzisse o milagre de Elias, para manifestar seu poder (Luc 9:54). Até mesmo na morte de crucificação exigiram que Cristo manifestasse seu poder para provar que era Cristo (Luc 23:37), mas Cristo sempre negou-os.
Cristo nunca quis que seu poder fosse comparado com magia. Mas ainda há quem prefira a magia. Apóstolo Pedro continuava achando que Cristo era um messias mágico em que mudaria as coisas apenas por força, poder, palavras, quando Cristo queria ensinar vidas por experiências e não por milagres. Ele queria ensinar a verdadeira caminhada cristã, mas nem os apóstolos entenderam isto no primeiro momento. Pedro é o maior exemplo entre os apóstolos de que uma pessoa não muda com rituais, ainda que este esteja todos os dias lado a lado com Jesus, comendo, bebendo, dormindo, ouvindo; como Pedro teve oportunidade. Quanto mais se tratando de nós, hoje, que temos enorme dificuldade em definir de qual Cristo falamos e pregamos.

Você acha mesmo que as atuais igrejas querem pregadores, professores, missionários, etc., que exortem a respeito disto? Claro que não! Querem dar risadas de coisa séria, querem chorar por emocionalismo barato, querem pregação que massageie o ego ferido, querem resolver os problemas num passe de mágica. Definitivamente não há mais lugar para o discernimento, para a razão espiritual, para a exortação séria e eficaz, para um cristianismo simples, claro, objetivo sem falsas promessas. Perdemos isto e está difícil de encontramos outra vez (salves suas exceções).

Infelizmente grande parte de nós está tão viciado neste tipo de comportamento que não enxergamos mais isto, e apenas "reproduzimos" o que aprendemos por aí em nossas andanças religiosas. Os discursos continuam os mesmos, os métodos os mesmos, os rituais mudam pouco, mas essencialmente os mesmos. Mudam os protagonistas, mas enxergo neles a mesma "escolinha", o mesmo modelo, o mesmo discurso. Tudo igual, só muda o endereço.

O cristianismo me convida a ter sempre esperança. Sendo assim, ainda continuo confinando na sinceridade destes homens desejosos de mudanças, mas precisamos falar para os mesmos que não é nosso desejo particular ou nosso jeitinho que muda as pessoas, mas Cristo! Então façamos o simples, o fácil, o claro, e não passemos da linha com nossos jeitinhos, não ensinemos mágica, apenas Cristo, e o resto deixe com ele e para ele. E se não pudemos confiar que Cristo seja capaz de fazer isto, então fechemos as portas e vamos para nossas casas assistir um bom programa de TV: - "comamos e bebamos..." (Luc 12:19-20).

Que Cristo nos ajude ainda a enxergarmos os verdadeiros desejos, sinceros, aplicados da melhor forma em pro do seu genuíno Evangelho.


Fabiano Mina