junho 21, 2012

O movimento do corpo





Se for ajudar-me levante, se for derrubar-me, sente-se
Estique as mãos para me abraçar, retraia-a se for para me esbofetear
Arregale os olhos para me ver chegar, feche-os se for se decepcionar
Não quero sua risada mais alta, mas quero sua gargalhada mais sincera

Corra o mais rápido que puder para me encontrar, ou espere se eu for passar
Acene com a cabeça se concordar, com aquele gesto que sempre quis te dar
Meça força comigo se ver que esvazio minha vida
Ou me solte ao perceber que a encho de sabedoria

Bata palmas, seja para espantar a solidão, seja para chamar minha atenção
Pule diversas vezes para eu ter ver de longe
Caminhe calmamente para que juntos possamos ver a beleza da vida
Movimente-se em minha direção, para que meu coração intensifique esta emoção.

junho 18, 2012

Auto-ajuda e os “10 passos para um Cristianismo Feliz”!

















Um dos problemas que os historiadores enfrentam é tentar falar da própria época em que vivem. É que um historiador não pode retratar algo no presente, pois o próprio conceito de História remete sempre ao passado, não ao presente e obviamente muito menos ao futuro. Assim um historiador se limitará a esperar o passado “chegar”, para só então falar historicamente. E que história estamos escrevendo para os historiadores no futuro?

Uma das coisas que podemos fazer hoje é comparar o que vivemos com o que nossos antepassados viveram, e isto é recorrer à História. E fazendo uma rápida comparação com o cristianismo que hoje vivemos com o que lemos na História do Cristianismo, é que cada vez mais misturamos os fundamentos do cristianismo com as diversas ciências humanas, biológicas e psicológicas que a própria ciência vai criando ao longo do tempo. No século XVII um cristão chamado Pascoal já denunciava o erro de misturar ciências com religião. As duas são eficazes, se cada uma dentro de seu próprio escopo.

Uma das pseudo-ciências modernas chama-se “Auto-ajuda”. Se formos avaliar simplesmente o conceito, ele não é de todo ruim. Afinal de contas, quem não quer se auto ajudar? Quem não quer buscar algum tipo de força própria, interior, psicológica para viver sua vida de forma plena, satisfatória, eficaz? Com alguma rara exceção, todos querem, eu também!

Porém este conceito não se limita a isto. Na verdade ele fala de uma vertente, que está impregnada em nossa época, travestida de “bom conselho”, “humanismo”, “religião pragmática”, “liberalismo”, etc., e que começa cada vez mais tomar força pela boca de pessoas que deveriam lutar pela verdade, pelo cristianismo.

Esta Auto-ajuda ensina, em poucas palavras, que “no final tudo ficará bem”, e que existe algum tipo de positivismo no mundo, seja ele psicológico, seja ele espiritual, que faz com que as coisas “fiquem bem”, que de alguma forma seremos felizes.

Por isso lemos nos livros de auto-ajuda os famosos “10 passos” para a felicidade; “1001 maneiras de ser um líder amado”; “3 caminhos para a vida plena”; “aprenda como ser feliz”; “amando e sendo amando após as 10 lições”; “o guru e o mágico”; e assim por diante. Detalhe: não busquem estes títulos de livros, são apenas nomes fictícios que fiz para retratar como é que estes livros sempre querem dar um ar, já nos próprios títulos, de que “no final tudo ficará bem”, e para isto eles enchem suas folhas de conteúdos dando conselhos técnicos, mágicos, espirituais, etc., para que as pessoas os pratiquem e assim sejam eternamente felizes. Logo algum título ligado a um livro real será mera coincidência.

Você pode até dizer que já leu algum destes livros e funcionou. Ok, eu concordarei com você! Mas o fato de ter funcionado não significa que foi porque existe alguma força positivista por traz disto. Muito menos por ter funcionado com meia-dúzia de pessoas, significa que funcionará com todos. É incrível como muitos criticam aqueles "cartomantes" que vivem "adivinhando" o futuro dos outros, e em algumas vezes até dá certo e nem por isso admitem que foi uma adivinhação, mas não criticam o positivismo da auto-ajuda!

Fato é que nem mesmo os que escrevem estes livros sabem o que realmente funciona na prática, pois eles, mais do que ninguém, sabem que o sucesso deles não está naquilo que eles praticam ensinado em seus livros. O sucesso deles está na própria venda dos livros, é isto que funciona para estes gurus da auto-ajuda: vender! É o que eles “dizem” que os tornam homens de sucesso, e não aquilo que eles supostamente praticaram em seus livros (a maioria nunca nem de longe praticou o que ensina, pois sabe que é balela-engana-“trouxas”). E ainda que alguns deles relatem experiências que de fato aconteceram com eles e o que o fizeram homens de sucesso, isto não significa que ocorrerá com todos praticantes de auto-ajuda indistintamente, pois a vida é um mistério quem nem sempre os justos são justiçados e os injustos injustiçados: na maior parte das vezes é o contrário.

Este tipo de discurso de auto-ajuda, pasmem, invadiu nossos igrejas cristãs há décadas, mas nunca foi tão forte como nos dias de hoje. Basta alguém falar em uma igreja que “tudo vai dar certo no final”, que ele é visto como “o paladino da verdade cristã”. Mas eu pergunto: - o que ele quer dizer com vai dar certo no final? Pois nós sabemos que a maioria deles não está falando sobre final da vida eterna (esta sim, podemos dizer que é um final que vai dar certo, para os que servem a Deus), mas falam do “final do dia”, do “final da semana”, do “final do mês”. O “dar certo” para eles é o pagamento das contas, o casamento perfeito, a cura de uma doença, o crescimento numérico da igreja, a compra do carro novo, o casamento que tanto se espera, o namorado(a) lindo(a), etc. É deste “dar certo” que eles estão falando, e é exatamente este tipo de discurso que está nos livros de auto-ajuda e é claro que todos querem. Mas um discurso que apenas mostra que algumas vezes estas coisas até darão certo por “n’ motivos, mas não que seja uma regra espiritual ou um positivismos que às fará acontecer. Isto beira à magia.

Na maior parte das vezes aquilo que queremos e planejamos nunca acontece como queríamos, nunca! Nós é quem não damos o braço a torcer e não admitimos que a maioria das coisas que pedimos e desejos nunca acontecem e provavelmente nunca acontecerão como queremos, e fingimos que tudo está 100% como planejamos só para não assumir nossa arrogância e prepotência diante da vida.

E como se não bastasse, estes “paladinos espirituais” fazem o mesmo que nos livros de auto-ajuda: agora começam a dar “receita de bolo” para que as coisas dêem certo, e fazem isso “picotando” textos bíblicos, promessas bíblicas (genuínas diga-se de passagem), para balizar este tipo de discurso positivista como se de fato fosse acontecer indistintamente, se os “10 passos espirituais” forem praticados corretamente.
Porém estes paladinos têm sempre “duas cartas na manga” que os livros de auto-ajuda não possuem. Quando não dá certo para uma pessoa aquilo que eles prometeram, em seus discursos positivistas, eles usam dois argumentos: ou não é o tempo de Deus, ou a pessoa não teve fé o suficiente. Pronto! Aí fica tudo resolvido.

Então nos discursos positivistas religiosos, eles passam a se preocupar mais em falar coisas bonitas, fazer fundo musical melódico, fazer com que as pessoas dêem risadas, deixar todos psicologicamente aliviados das mazelas pecaminosas, reafirmar crenças absurdas, dar lições didáticas de como as pessoas devem agir em suas casas, em seus empregos, em seus relacionamentos, sempre na linha dos “10 passos para a felicidade”; do que ensinar o que de fato o cristianismo ensina para a vida.
Pasmem mais uma vez! Isto já invadiu igrejas consideradas sérias há muito tempo. Só não admite quem não quer.

E o que vemos então, é que eles passam a fazer “sucesso”, da mesma forma que os escritores de livros de auto-ajuda fazem, pois o sucesso fica sempre no discurso, ele não precisa de prática. Ensinam os religiosos a estarem satisfeitos consigo mesmos (auto-ajuda), pois a auto-ajuda é sempre para o indivíduo, nunca para o outro ou para o Corpo. Ensinam-nos a chorar, desde que o choro alivie a nós mesmos, e não um choro de clamor pelo outro. Ensinam-nos a ter bens materiais, desde que os bens sejam para nosso usufruto único. Ensinam-nos a cantar, pular, bater palmas, dar risadas, desde que na segunda-feira paguemos as contas, compremos nosso carro novo, arrumemos nosso cabelo, viajemos para praia ou interior, etc.
Ser feliz espiritual é exatamente isto, uma eterna “auto-ajuda”. E quando fazemos caridade, não se enganem! É apenas alívio de consciência. Raros são nestes meios religiosos aqueles que o fazem não como um meio, mas como um fim. O ser humano não como escada espiritual ou de cargo religioso, mas como finalidade do cristianismo.

O cristianismo nunca foi uma religião de discurso. Claro que ele deve ser verbalizado, mas acima de tudo ele é uma “religião” de vida real. O cristianismo não tem interesse em tornar as pessoas positivistas e arrisco a dizer que não é a função do cristianismo fazer alguém “feliz” (não significa que às tornem infelizes), e que tenha a "vida que pediu a Deus”.  Ele veio para ensinar as pessoas a enfrentarem a vida do jeito que ela é. O cristianismo não veio mudar vidas, mas mudar pessoas em relação à vida. A vida continua sendo A MESMA, e não existem técnicas ou “10 passos” que tornem a vida algo já preparado para a felicidade.
Na verdade a palavra felicidade é a palavra mais mal usada até hoje por religiosos de auto-ajuda (assim como usam mal a palavra amor). Pois a felicidade que eles tanto pregam nunca foi a felicidade que se espera ter um dia para todo cristão, pois a felicidade da auto-ajuda não existe, é uma ilusão mágico-psicológico usado para vender livros e fazer pregadores de sucesso. E isto funciona exatamente porque funciona desde o engano sofrido por Adão e Eva pela serpente, pois é fácil iludir nós homens desejosos por uma felicidade positivista. A promessa de ilusão sempre nos agradou mais do que a vida real (ainda que a vida real também tenha lá suas felicidades). Eu e você somos a prova viva disto. Queremos o que é fácil, o que é rápido, o que nos agrada individualmente, e o próximo, que espere (sentado de preferência)! Somos assim por “natureza”, e é isto que o cristianismo veio mudar: nossa natureza, não a vida. A infelicidade da vida continua aí, admita quem quiser ou engane-se também quem preferir.

O cristianismo não se presta a aliviar a consciência de alguém. Ele quer aliviar a alma, e a consciência é sempre uma consequência. Já a auto-ajuda, sempre se limita à consciência, e o faz bem, mas nunca chega na alma. O cristianismo não nos ensina “10 passos para a felicidade”, ele nos ensina princípios básicos de vida, e os passos somos nós quem construímos dia após dia, cada um com sua história, cada um com suas dificuldades, cada um com suas mazelas. O cristianismo não nos dá nada pronto, e ele não escreve nossa história por nós. Nossa história é construída, e enquanto é construída a felicidade se confunde com a amargura, a alegria com a tristeza, a vitória com a derrota, o amor com o ódio, comunhão com a solidão; e assim enfrentamos a vida. Mas o que nos faz enfrentá-la com qualidade não é nenhum positivismo barato que tornam as pessoas falsas, hipócritas, mentirosas, superficiais. Os que nos faz enfrentá-la de cabeça erguida, sempre esperançosos, é a promessa de termos ao nosso lado o Paracleto – o Consolador. É a promessa de que aqui estamos de passagem, e que tribulações deste mundo não se comparam com o que há de vir. Que nosso tesouro não está aqui, e viver ou morrer é lucro quando estamos em Cristo – a História do Cristianismo mostra que cristãos acreditavam e viveram isto. O cristianismo mostra ainda que teremos momentos felizes, mas não vivemos pela e para a felicidade (ela virá em momento oportuno definitivamente na eternidade), vivemos pelo “combate”, e é só o combate que nos fará acabar a carreira e guardar a fé. É o combate e não uma busca infantil superficial pela felicidade positivista que nos torna cristãos de verdade.

E é por isso que o apóstolo Paulo disse que havia “aprendido” a viver nesta vida, seja com felicidade ou sem ela (positivista não leem toda a vida de Paulo, por quê?). Pois ele aprendeu a ser “combatente”. Um combatente não sabe ao certo o que vai acontecer na guerra, não sabe quando e como ela irá acabar exatamente, ele simplesmente combate. Há momentos que haverá descanso, dança, sorriso, alimento; mas haverá momento que terá morte, dor, sofrimento, frio, fome. O combatente não vive em pró destes segundos aspectos, também não idolatra os primeiros, ele simplesmente combate porque sabe a qual exército pertence (dos cristãos), a qual general segue (Cristo), a qual capitão tem por líder (Deus).

No futuro provavelmente teremos pessoas lendo a história que estamos hoje escrevendo. Espero sinceramente que possam ler um povo cristão que não se entregou à auto-ajuda, antes lutou pelo bom combate cristão. Que foram felizes sim, mas felizes sabendo viver os momentos tristes também. Deixaram de ser meninos, criados no leite, e passaram a ser homens forjados na guerra. Fizeram a diferença em uma época onde no século XXI estava recheado de ilusões de auto-ajuda e felicidade comprada.

Espero sinceramente que eu e você consigamos escrever esta história, e que Deus nos ajude a sermos bons combatentes!

Att.

Fabiano Mina

junho 15, 2012

Pressão Social Religiosa! E eu?




Uma das formas de ser considerado um “bom cristão” nos dias atuais, é abrirmos mão daquilo que acreditamos no mais íntimo do nosso ser, ou ignorar as maiores questões existenciais que nos acompanham.

O que se tem ensinado não é simplesmente crermos em dogmas fundamentais, como ressurreição, salvação em Cristo , etc. O que se tem ensinado é que se cremos nestes dogmas, logo, teríamos que assassinar nosso cérebro, fingir que não temos dúvidas, abrir mão das nossas questões existenciais, abortar as críticas aos discursos prontos.

E a pressão imposta pela atual sociedade religiosa é tamanha, que todos, ainda que tendo estes conflitos internos, precisam fingir que não os têm, para serem aceitos no meio em que vivem religiosamente.

Claro que esta pressão, por definição, não resolve nossos reais problemas existências, apenas mascara até o ponto em que outros problemas começam a surgir. E os problemas que surgem são os que estamos vendo hoje entre os próprios religiosos: eles não mantém mais famílias sólidas, seus filhos não tem uma direção educacional e moral correta, não conseguem mais se balizar na honestidade e hombridade, a falsidade vira norma de conduta, não existe mais solidez nos discursos já que ora fala-se uma coisa, ora fala-se outra. Os homens não sabem mais o que é ser "homem", e as mulheres deixaram há tempos de ser "mulheres". Os pais "aprendem" mais com os filhos, do que os filhos com os pais. Um idoso é visto não mais como um sábio, mas como um fardo. Família só serve para se encontrar em "festas" comemorativas. Pregações viram palestras motivacionais, ou palco para teatro emocional. Terceirizamos nossas responsabilidades, oras para os outros, oras até mesmo para Deus.
 Tudo isto ocorre porque nós mesmos não conseguimos acreditar e praticar esta falsidade que nos é imposta por meio desta pressão por muito tempo. Um hora a pressão estoura! 

É por isso que a mentira por traz desta pressão sempre é atrativa, e por outro lado é sempre destrutiva. Pois a mentira de certa forma sempre nos conforta, sempre resolve imediatamente e momentaneamente nossos problemas, mas a longo prazo ela dá mais raiz aos problemas, e quando estes vêm à tona, tornam-se maiores do que antes.

É esta pressão que a sociedade religiosa nos impõe, que nos têm feito viver uma vida religiosa de mentiras. E continuam a mentir dizendo que nossas vidas melhoraram, quando basta dar uma olhada para o lado e percebemos que as pessoas estão vivendo cada vez pior. É possível que alguém entenda que viver melhor ou pior esteja relacionado a condições sociais. Se alguém pensa assim, com certeza não entende do que estou falando. Veja que o Brasil é a sexta maior riqueza (PIB) no mundo hoje, e nem por isso alguém ousaria em sã consciência dizer que somos o sexto melhor país para ser viver no mundo. Muito menos alguém diria que a China é o segundo melhor para se viver porque é a segunda maior riqueza. Logo, não significa que “viver” melhor é “estar” melhor financeiramente. Pois estou falando aqui de conflitos “existenciais”.

Viver bem é compreender melhor sua própria existência, é confrontar suas dores íntimas, é reavaliar seus propósitos de vida, é questionar suas verdades últimas, é dar um significado de vida muito além do que ter um novo celular, uma casa própria, um carro novo, uma igreja bonita, filhos alimentados, diplomas carimbados, etc. Tudo aquilo que uma sociedade politicamente correta nos cobra. Os conflitos existenciais são muito maiores do que estes, e por isso que são difíceis de serem tratados, logo exigem maior profundidade, empenho e acima de tudo sinceridade religiosa de nós.

Este não é o intuito que vemos em geral na religião social. As religiões querem que vivamos bem socialmente apenas, e nos pressionam para isto. Elas fogem dos conflitos que existem em cada um de nós, pois isto dá trabalho, despende energia, necessita de encarar a realidade com constância. E quem quer fazer isto em nossos dias? Quem está disposto a enfrentar estas coisas? Pouquíssimos! Pois para que existam pessoas assim, elas mesmas teriam que deixar um pouco de lado seus interesses sociais religiosos. Elas mesmas teriam que deixar para segundo plano aquele celular, carro, casa, etc., tudo aquilo que as tornam “felizes” na comunidade religiosa. Mesmo que elas apresentem um discurso bonito de que o que vale é o "Reino de Deus e todas as demais coisas serão acrescentadas", no final das contas elas estão sempre pensando inversamente este versículo: acrescente-me as demais coisas, e então eu darei valor ao Reino de Deus! (vide "Pressão Religiosa Social 33:6"). É assim que esta pressão social religiosa nos ensina, e mesmo aqueles que discursam ao contrário disto. Na prática, vivemos as mesmas mazelas das quais criticamos.

Me perdoe! Provavelmente não sou aquele que irá mudar esta situação, até porque eu nem consigo resolver meus próprios problemas existenciais. Porém não serei aquele que irá respaldar e dar munição para esta pressão que nos é imposta. Não será de mim que você ouvirá estes discursos fajutos. Não serei mais um a enganar pessoas em minha volta fingindo que ao “acrescentar” coisas em nossas vidas, poderemos adormecer nossos conflitos existenciais. Não serei a favor de discursos politicamente corretos em detrimento de um discurso que nos faça mover, ainda que internamente. Não, deste pecado eu estarei livre (pelo menos até que esta pressão consiga me vencer... já te venceu?)

Fabiano Mina

junho 11, 2012

Aqueles minutos mágicos, nem tão mágicos assim!


Indiscutivelmente vejo sinceridade no desejo de muitos em quererem ver pessoas chegarem-se a Cristo.
E em algumas vezes vamos bem na forma de aplicar este desejo, mas não na maioria das vezes. Pelo menos não no que eu entendo.
Claro que eu não me considero uma sumidade ao falar de emoções, porém posso dar minha opinião de alguém que procura sempre a verdade nas minhas próprias emoções, sabedor que sou de que: "o coração é enganoso" mais do que todas as coisas.

Nossas emoções nos enganam da mesma forma que a razão também. É preciso certo cuidado, certa medida para que não caiamos em extremos. Mas pelo que me parece o que fortalece a religião em geral não é sua racionalidade, mas a emocionalidade que ela pode criar. As pessoas são convidadas a abortarem sua razão em pró de toda e qualquer crença. Cristo não nos ensinou isto. Apesar de Cristo se a favor da emoção, ele mesmo chorou (por pessoas, por vidas, não por desejo barato); mas o fazia dentro da racionalidade que sua própria mensagem exigia. O Evangelho exige de nós um conhecimento de si mesmo, antes que a emoção se perca em religiosidade mística, mágica, misteriosa no sentido pejorativo.

Em determinados momentos estamos expressando nossos desejos religiosos, e quando tudo está indo bem na forma de aplicar estes desejos, aí pufffff!!  Damos aquela "pitadinha" à mais que não deveríamos dar, e estragamos tudo. Colocamos nosso "jeitinho". Achamos que precisamos ir um pouco além, forçamos uma situação, e é este "um pouco à mais" que coloca tudo que dantes havia sido bem feito por "água abaixo". É este "à mais" que separa o certo do errado.

É a nossa velha mania de apelar para a emoção irracionalizada, para o fundo musical indutivo, para o poético sem fundo teológico, para o melódico choroso e repetitivo, para aqueles minutos "mágicos" em que damos a entender que as vidas das pessoas mudam apenas com um gesto ritualístico.

Não podemos fazer dos nossos desejos um tipo de comportamento "mágico". Não podemos ensinar para as pessoas que as coisas mudam ou mudarão porque elas fazem isto ou aquilo em determinados minutos. Isto destrói toda a profundidade do que significa "nascer de novo". Cobramos das pessoas certos gestos ritualísticos, e não que eles não sejam válidos em determinada medida, mas o perigo é que tendemos a passar uma mensagem através destes gestos, de que se eles praticados em determinados momentos ou minutos então - PUFFF! - a vida mudará.
E pior de tudo, sempre ouço no final das frases que tudo mudará para MELHOR! Para melhor?
Não, não foi Cristo quem ensinou isto. E este é o problema que está na magia do "jeitinho", pois ao prometer para as pessoas que depois daqueles minutos mágicos, por causa de determinados gestos, as coisas melhorarão, acabamos de estragar a mensagem do Evangelho. Isto porque este "melhor" inevitavelmente associamos a melhorar as finanças, o casamento, os relacionamentos, o trabalho, etc., e sabemos que a vida real não é assim, que o cristianismo não é assim, que a Bíblia não ensina assim. Podemos ser o melhor cristão do mundo e ter a vida mais sofrida de que se possa imaginar. Sabemos disto, lemos isto, mas na hora do vamos ver ensinamos magia.

Talvez alguns estejam pensando: ah, mas todo mundo entende isto, sabe disto. Eu digo: fale por você mesmo. Basta olharmos nossas atuais teologias, nossas igrejas, nossas crenças, e fica claro que as pessoas "não sabem disto". Talvez você saiba, talvez você consiga este discernimento, mas não a maioria, e isto é óbvio. E por isso continuamos contraditórios. Falamos, praticamos e exigimos coisas díspares.

Mudar é um processo, e não "um gesto" ritualístico, e é por isso que Cristo disse que muitos o seguiam apenas pelos seus GESTOS miraculosos e não por uma conduta de vida cristã incessante. Muitos o negaram por não compreenderem que "andar" com ele - Cristo - é muito mais do que um desejo ou alguns minutos mágicos. E a promessa de melhorar de vida, nunca foi para esta vida, mas para a vida eterna. A não ser que alguém me convença de que falar sempre a verdade, ser justo, ser honesto, ser fiel, ser sincero, falar o que se pensa  (com educação), exortar, doar sem interesse, amar o inimigo, ajudar o próximo não cobiçar, pagar as contas em dia, não ficar devedor de ninguém, etc., etc., etc., torna a vida da pessoa aqui na Terra uma "mar de rosas". Se alguém me convencer disto, ou mesmo se alguém acreditar nisto, então reconsiderarei. Mas se concordar comigo de que a luta aumenta, de que a vida passa ser um desafio ainda maior por sermos cristãos, então paremos com este vício de achar que o discurso mágico é o discurso certo, e que devemos aceitá-lo sem uma crítica racional cristã (exortação).

Veja que não estou negando que um cristão possa ter alento, possa sorrir, se divertir, ter momentos de paz, ter acima de tudo consolo. Mas não podemos nem de longe comparar com a vida daqueles que não são cristãos, ou pelo menos não possuem uma atitude cristã. A vida de um genuíno cristão nunca será um mar de rosas, só na cabeça daqueles que adoram esta mágica ritualística.

Nascer de Novo, apesar de simbolicamente ser feito em poucos minutos (batismo), não surte o resultado nestes poucos minutos. Levantar a mão e dizer que "aceita a Cristo" (?), não diz que somos pessoas melhores do que os outros. Ir ou não à frente na exortação de um orador, não demonstra os mais ou menos sinceros, mais ou menos espirituais. Mostrar aos olhos dos outros dentro de um culto um gesto ritualístico não diz quem é esta pessoa no seu dia a dia. Responder a um pedido momentâneo, seja ele qual for, não muda efetivamente a vida de ninguém. Quem crê assim espiritualiza demais o que não é para ser espiritualizado. A não ser que alguém consiga me demonstrar estes comportamentos à luz dos ensinos de Cristo.

Cristo quando contou a parábola de dois irmãos que deveriam ir trabalhar no campo, falava basicamente deste tipo de comportamento ritualístico que beira a magia. Ele descreve que um filho um fez um gesto ritualístico positivo ao dizer que faria a vontade do pai, já o outro teve um gesto negativo naquele momento. Mas exatamente o filho que fez o gesto positivo foi o que não mudou seu comportamento, enquanto o que não fez o gesto positivo teve seu pensamento e comportamento correto, sem fazer nenhum gesto ritualístico positivo anterior (Mt 21:28-31). O que prova que não mudamos por gestos momentâneos, mas por uma gradual consciência cristã. Mudamos com atitudes de "uma vida inteira", e ainda assim dependendo com quem andamos e onde frequentamos.
Estamos carentes desta vida cristã prática, e cheios de gestos ritualísticos positivistas que em nada mudam a vida das pessoas.

Sabe aquele velho ditado: "o inferno está cheio de boas intenções". É mais ou menos isto. Fazemos das boas intenções formas erradas de aplicar o Evangelho, e infelizmente a grande maioria está só analisando as boas intenções (o que já é complicado de se saber quem tem ou não boa intenção) e não a prática delas. Está tudo tão bem, tão certo, tão bem feito para a maioria que não há mais "exortação" neste sentido. Não vejo ninguém reclamar destas "boas intenções" mal aplicadas. Ainda continuamos "endeusando" pessoas por suas boas intenções e não pela aplicabilidade destas intenções. Continuamos apenas fazendo rituais. O ser humano se sente à vontade com rituais, com minutos mágicos. Continuamos infantilizando em vez de crescermos. E é óbvio que todos gostam mais disto, eu também gosto daquilo que me agrada momentaneamente. Porém, o fato de um doce açucarado ser gostoso, não significa que é melhor do que um bom alimento. Ainda queremos doce, não queremos um bom alimento que nos fortaleça, que nos faça crescer. Ainda queremos magia e não cristianismo.

Os discípulos de Cristo queriam que ele fizesse milagres a todo momento, chegaram até pedir que Jesus reproduzisse o milagre de Elias, para manifestar seu poder (Luc 9:54). Até mesmo na morte de crucificação exigiram que Cristo manifestasse seu poder para provar que era Cristo (Luc 23:37), mas Cristo sempre negou-os.
Cristo nunca quis que seu poder fosse comparado com magia. Mas ainda há quem prefira a magia. Apóstolo Pedro continuava achando que Cristo era um messias mágico em que mudaria as coisas apenas por força, poder, palavras, quando Cristo queria ensinar vidas por experiências e não por milagres. Ele queria ensinar a verdadeira caminhada cristã, mas nem os apóstolos entenderam isto no primeiro momento. Pedro é o maior exemplo entre os apóstolos de que uma pessoa não muda com rituais, ainda que este esteja todos os dias lado a lado com Jesus, comendo, bebendo, dormindo, ouvindo; como Pedro teve oportunidade. Quanto mais se tratando de nós, hoje, que temos enorme dificuldade em definir de qual Cristo falamos e pregamos.

Você acha mesmo que as atuais igrejas querem pregadores, professores, missionários, etc., que exortem a respeito disto? Claro que não! Querem dar risadas de coisa séria, querem chorar por emocionalismo barato, querem pregação que massageie o ego ferido, querem resolver os problemas num passe de mágica. Definitivamente não há mais lugar para o discernimento, para a razão espiritual, para a exortação séria e eficaz, para um cristianismo simples, claro, objetivo sem falsas promessas. Perdemos isto e está difícil de encontramos outra vez (salves suas exceções).

Infelizmente grande parte de nós está tão viciado neste tipo de comportamento que não enxergamos mais isto, e apenas "reproduzimos" o que aprendemos por aí em nossas andanças religiosas. Os discursos continuam os mesmos, os métodos os mesmos, os rituais mudam pouco, mas essencialmente os mesmos. Mudam os protagonistas, mas enxergo neles a mesma "escolinha", o mesmo modelo, o mesmo discurso. Tudo igual, só muda o endereço.

O cristianismo me convida a ter sempre esperança. Sendo assim, ainda continuo confinando na sinceridade destes homens desejosos de mudanças, mas precisamos falar para os mesmos que não é nosso desejo particular ou nosso jeitinho que muda as pessoas, mas Cristo! Então façamos o simples, o fácil, o claro, e não passemos da linha com nossos jeitinhos, não ensinemos mágica, apenas Cristo, e o resto deixe com ele e para ele. E se não pudemos confiar que Cristo seja capaz de fazer isto, então fechemos as portas e vamos para nossas casas assistir um bom programa de TV: - "comamos e bebamos..." (Luc 12:19-20).

Que Cristo nos ajude ainda a enxergarmos os verdadeiros desejos, sinceros, aplicados da melhor forma em pro do seu genuíno Evangelho.


Fabiano Mina

junho 04, 2012

Meu inferno mais íntimo


Não sou muito de publicar textos e escritos de outras pessoas, eu prefiro sempre aguçar meus próprios pensamentos. Porém o pensamento deste professor de filosofia da PUC - meu professor também - deixa muito claro sobre muito do que penso a respeito de nós mesmos e do mal que as religiões, idealismo barato ou discursos "enlatados" de auto-estima, em geral, fazem conosco: estão sempre apontando para "fora" de nós mesmos. Criam rituais, modelos, teses, sistemas, em sua grande maioria responsáveis por falar mais do que está fora do que está dentro de nós. E acham que falar sobre nós é falar sobre nossos desejos.

Se preocupam se usamos tal modelo de roupa, com quem nos relacionamos, se ser social é beber ou deixar de beber, largar os vícios em nome de uma boa fama, se aparentamos ser bons religiosos para conquistarmos cargos ou mesmo ter a profissão garantida, quando na verdade continuam escondendo o que há de mais ruim em nós.

Não nos permitem ser o que de fato somos, seja com nossas maiores qualidades e nossos piores pecados; pois estes lugares não querem pecadores sinceros, eles querem "santos falsos".
Nas religiões atuais homens com Jacó, Davi, Ap. Pedro, já estariam sendo vistos como hereges ou até mesmo endemoniados, pois foram homens que apesar de serem grandes instrumentos nas mãos de Deus, sempre demonstraram o quanto há de pior dentro de nós mesmos (eles foram assim), e nem por isso deixaram de ser "grandes homens". Até mesmo Ap. Paulo se dissesse hoje que "não pratica" aquilo que quer, ou seja, o bem; seria visto como cristão suspeito por falar a verdade.

Não significa que devemos ser a favor das nossas mazelas. Significa que não é escondendo nossas mazelas em máscaras religiosas que seremos pessoas melhores - vide fariseus.

Boa leitura!

Att.

Fabiano Mina




LUIZ FELIPE PONDÉ

Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19.

Pergunta o mais jovem: "O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia". O mestre teria respondido algo assim: "Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo".

Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, "oficialmente", com o Rabi Baal Shem Tov, que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.

A palavra "hassidismo" é muito próxima do conceito de "Hesed", piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai ("Senhor", termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que "encarnou" em Jesus, para os cristãos). Hassídicos eram conhecidos como "bêbados de Deus", enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em  grandes quantidades para brindar a vida...) que escorre dos céus para aqueles que a veem.

São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais. Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes "heróis" da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como "régua".

A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo. Não se trata de pensar em bobagens do tipo "Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo" como pensaria o "modo brega autoestima de ser", essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso "eu" ou nossa "alma" é nosso maior desafio. Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são. Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da "moral da história" neste conto.

Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: "O inferno". Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: "Eu, eu, eu...".

Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do "marketing do eu". Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada.