abril 16, 2012

Por que chamamos de família aqueles que não são nossos familiares?



Trazendo um pouco de nostalgia aqui, me recordo de quando ainda era menino, filho “do meio” de cinco irmãos. 

Minha família foi (e é até hoje) uma daquelas famílias onde tudo acontecia (falo da minha família enquanto pais e irmãos, minha esposa e filho não serão colocados nesta reflexão pelos motivos que vocês verão adiante). Desde os sentimentos mais nobres até os comportamentos mais estranhos ou errados. E por incrível que pareça, isto foi o que me fortaleceu ao longo dos anos. Me fortaleceu porque nunca tive a pretensão de ter uma família perfeita - afinal de contas eu não acredito em família perfeita como as de novelas e filmes – o que sempre quis foi ter uma família unida, firme, forte, que lutasse junto pelos mesmos objetivos. Em determinado momento da minha vida, quando ainda adolescente, vi isto se desmoronar por problemas sérios que tivemos, mas com o passar do tempo todos nós fomos reunindo os cacos, e lá estava ela, outra vez, cheia de defeitos e falhas, mas unida, lutando pelos mesmos objetivos. 
Portanto quero falar aqui de famílias que convivem(ram) juntas. Pessoas que não possuem contato com seus familiares ou nunca o tiveram não entram nesta reflexão por motivo óbvios.

Quando falo objetivos que minha família sempre teve não é de ajudar a vida particular financeira e sentimental de cada um de nós (isto até ocorre de vez em quando), mas a de continuarmos juntos uns com os outros independente das mazelas que nossas vidas particulares nos causem. E este me parece ter sido o objetivo maior da minha família ao longo dos anos. É isto que mais prezo e admiro nos meus irmãos e pais.

E o que mais me deixa feliz em estar com minha família é que lá eles me "conhecem" completamente. Já brigamos muito (apanhei e bati muitos nos meus irmãos quando criança...rs), levamos algumas surras, aprontamos, estudamos, viajamos, nos alegramos, discutimos, nos abraçamos, desejamos, tudo o que qualquer família normal já teve um dia. Não se enganem, nossas famílias sabem de fato quem somos. Sabem nossos limites, nossos anseios, nossas dificuldades. E é por isso que os chamamos de família, porque nos conhecem e  não porque eles são perfeitos, certinhos, legais. Não chama-se família apenas porque corre um mesmo DNA na veia de cada um ( isto também, mas é pouco!). É família porque conviveram (e convivem) conosco desde sempre. E não adianta aparecer diante da família com máscaras religiosas, com ilusões sociais, com discursos filosóficos. Eles sabem quem somos! Minha família sabe quem sou!

Quando encaramos nossas famílias de forma simples, aberta e espontânea, chagamos a elas sem reservas, sem trejeitos, sem subterfúgios. Lá nos sentimos “em casa”, lá entramos e saímos leves, tranquilos, porque lá sabemos que podemos chorar, sorrir, nos entristecer e nos alegrar; ainda que alguns deles nos desagradem de vez em quando ou nós a eles, ainda que eles não concordem conosco, ainda que haja discussões, mas lá somos aceitos, recebidos, amados. E é por isso que é nossa família: não porque ela se parece com algum filme, novela, não porque alguém criou uma "receita de bolo" de como deve ser uma família. Não! É nossa família porque lá vivemos, lutamos, crescemos juntos. Não significa que cada integrante da família trilhará o mesmo caminho, cada um segue o seu criando sua própria família, mas, ainda assim, quando se encontrarem reconhecerão de prontidão cada integrante da família, cada um com sua natureza, seu jeito, sua personalidade, preferências.  

Por outro lado hoje tenho visto um discurso mentiroso de pessoas chamando de “família” aqueles que nem de longe o são. Querem forçar esta palavra em relacionamentos onde isto não existe e assim vamos ignorando a verdadeira profundidade que esta palavra carrega em si. 
Usam este discurso exatamente para "fugirem" do fato de que erramos, somos imperfeitos, limitados, necessitados - somos humanos!
Quantos hoje chamam de família só porque alguém simplesmente possui algumas afinidades com ela. Porque frequenta os mesmos lugares interessantes. Simplesmente porque dão algumas risadas juntos ou porque passaram alguma história para contar. Quando na verdade estão procurando estas tais “famílias” porque querem esconder quem realmente são. Hoje chamam de família times futebol ou no vôlei, grupos de reality-show, até nos programas de TV temos o nome Grande Família. Mas são de fato família mesmo?  

O que tenho visto são pessoas que fogem das verdadeiras famílias porque aquelas verdadeiras sabem exatamente quem elas foram e são. Nossas verdadeiras famílias nos conhecem e muitos correm disto! 
Não encaram suas famílias porque não querem desenterrar problemas antigos que foram deixados para traz sem um enfrentamento sério. Correm de suas famílias porque ainda há sentimentos de ódio, inveja, ressentimento, até mesmo vergonha. Então passam a chamar qualquer grupo de pessoas – desde que não conheçam realmente quem elas são – de “família”. E pior, pintam a ideia de que estas (as superficiais), sim, são as famílias "perfeitas", nobres, melhores, legais, quase que super-família. Fingem que estas novas “famílias” não possuem problemas por causa de um relacionamento superficial que cultivam.
Deixamos nossas reais famílias de lado para vivermos a superficialidade destas novas “famílias” - legais e perfeitas(?). 

Estas “famílias legais e perfeitas" cultivamos em nosso trabalho, em nossas escolas e universidades, em nossos encontros religiosos, em encontros programados de final de ano, etc. E continuamos a fugir de um aprofundamento real. E quando alguns tentam de fato um aprofundamento, obviamente aparecerá falhas, os defeitos, as limitações: e lá se vão todos fugindo uns dos outros, porque não queremos mostrar quem realmente somos, vivemos na era das superficialidades, onde é preciso fingir e fugir a todo momento se quisermos ser aceitos por estas novas "famílias". Onde chegamos ao absurdo de achar que termos verdadeiros relacionamentos porque temos um bando de "seguidores" do twitter ou "amigos" no Facebook. Quer relacionamento mais pragmático do que este? Atende muito bem os interesses superficiais desta humanidade.
E aqui não é uma crítica a qualquer ferramenta de relacionamento virtual, eu também a utilizo. A critica aqui é quando quererem fazer desta ferramenta o sinônimo de relacionamentos verdadeiros, profundos. Alguém talvez diga: não eu não a utiliza para isto. Ótimo, eu diria! Mas você busca relacionamentos verdadeiros, mesmo? Normalmente os que não buscam são os primeiros a negarem. Talvez você seja exceção, talvez!

Como disse uma vez um professor meu de Filosofia falando sobre relacionamentos em redes sociais: "é um ótimo lugar para os narcisistas, não os que querem se aparecer, mas os que são carentes".
Sim... são estes carentes de relacionamento profundos que fazem destas mídias suas formas de comunicação "familiar". O cúmulo do absurdo é tanto que uma pessoa que está em contato com centenas de outras pessoas dia a dia ao vivo, prefere buscar novos relacionamentos pelo celular,pelo tablet, etc., mas não consegue conversar com as do seu lado, em carne e osso, e se fazem continuam superficiais. Isto porque as pessoas ao vivo de carne e osso mostram mais quem elas são, consequentemente suas qualidades e defeitos, mas pelas redes sociais tudo fica mais fácil, afinal de contas é mais superficial. Quer absurdo maior do que este? 

Muitos nem se lembram mais que possuem pais, irmãos, primos, tios, avós biológicos, e transferem a carga de sentimentos para estas "famílias superficiais". Afinal de contas as superficiais são melhores, pois não criticam, não reclamam, não cobram!

Vejam que não estou negando o fato de que podemos, e até devemos, nutrir sentimentos e relacionamentos com pessoas que não do nosso DNA como se fossem nossas famílias de sangue. O que estou chamando a atenção é que se estamos realmente querendo chamar estas pessoas de família, então teremos que partir do princípio de que elas deverão nos conhecer de verdade, profundamente, passar muitas vezes pelos bons e maus bocados dos quais vivenciamos, como acontece com nossa família de sangue.

Chegamos ao absurdo de usar ensinos cristãos de forma deturpada para legitimar as famílias superficiais. Chamamos de família verdadeira aquela que confessa uma mesma fé e prática (dogmas) cristã. Opa! Mas isto não é cristianismo, isto é seletividade, preconceito, religiosidade. Nossa família não é aquela que apenas confessa, mas aquelas que nos "conhece", que partilha dia a dia conosco, e não apenas num fim de semana, nas festas organizadas, em encontros programados onde a lei é: todos sorrindo, se abraçando e depois correrem de volta para suas casas no calar da  noite quando a maquiagem já está se desfazendo ou a roupa ficou amarrotada. A família sempre está junto, cobra, briga, ajuda, luta, erra, tem mesmos objetivos. Ela não depende de salgadinhos, de música, de cinema, teatro; ela simplesmente está lá.

Por isto sempre quando preciso sair desta loucura psicológica e voltar a respirar, lembrar melhor dos meus defeitos e pecados, saber quem sou, entender o que é amar, eu lembro da minha família e os procuro. Eu os amo, eu os admiro, eu os venero, por me aceitarem como sou, por me amarem, por me terem feito quem sou. Minha família me conhece, e espero que eu possa sempre aumentar esta família (além do que já fiz me casando e agora com um filho) com novas pessoas das quais eu "conheça" e que me "conheçam"; de forma real, verdadeira, sem reservas, sem medos, por amor – pelo cristianismo!

Não! Não peço que concorde comigo, mas seria interessante se você avaliasse o que realmente tem feito com sua verdadeira família! Se é que você ainda cultiva alguma.

Fabiano Mina