março 05, 2012

Dízimo ou Oferta, Lei ou Gratidão?




 Na verdade esta era uma reflexão que eu já havia escrito algumas semanas atrás, mas ontem, dia 04/03/2012, ouvi um testemunho de um missionário da China (que não é possível falar do seu nome por questões de segurança) que me mostrou mais claramente o entendimento que tenho sobre ofertar ou “dizimar”, Idéia que eu mantenho há anos e gostaria de compartilhar com vocês.

Levando em consideração o quanto foi investido para que as atuais religiões de vertente judaico-cristã existissem hoje (como as evangélicas) o que é exatamente o dízimo e a oferta para nós hoje? Como temos encarado este tema tão recorrente?
Falar de dízimo para mim chega ser tão banal se compararmos ao investimento que hebreus, judeus e cristão deram com seus esforços, trabalhos, lutas, construções, até mesmo com suas vidas; que é preciso colocarmos objetividade neste assunto.
Um povo que se relaciona com Deus vale muito mais do que o povo do dízimos.  Eles arregaçavam a manga e iam à luta. Para chegar onde estamos hoje, muitos deles derramaram suor, lágrima e sangue. E aqui estamos nós hoje, capitalizados, modernizados, brigando sempre para termos dinheiro no cofre (seja pessoal, seja institucional).

Temos entendido o dízimo na base do conceito abraâmico, ou seja, entendemos a entrega do dízimo como uma forma de “gratidão”ao Deus supremo, que se comunicou com Abraão fazendo-o conhecido como o “pai da fé” ou ainda estamos fincados em regras institucionalizadas e legalistas com face decalógica moisaica?

Posso estar enganado, mas nós institucionalmente continuamos travando uma batalha com o legalismo. Somos legalistas em nossos discursos, em nossa teologia, em nossa concepção de mundo. E eu até entendo isto, pois “as contas” não param de chegar. Mas nossa forma de conduta deve estar pautada nas contas, ou na Verdade Cristã?

Basta ligarmos a televisão e vocês acham que os programas evangélicos ainda arregimentam as finanças das pessoas em nome do dízimo? Claro que não! Eles já extrapolaram a relação de dízimo há tempos! Eles estão se tornando cada vez mais milionários (e seus sacerdotes também, pasmem!) exatamente porque não se prendem mais a dízimos (10%). Eles vão muito além dele, mas com relação à LEI da barganha, ou seja, Deus dá “se” você der X ou Y para ele primeiro. Esta é uma relação legalista ainda.
Logo elas conseguem dinheiro de seus membros, mas a que custo? A custo da Verdade ou da Lei retrograda e diabólica? Devemos crescer a qualquer custo, ainda que seja praticando a Velha Lei? Acho que Cristo diria que não, caso contrário não teria lógica a sua vinda se fôssemos para viver na lei de Moisés (apesar de alguns ainda acharem isto).

Por outro lado, igrejas menos vistas na mídia, ainda que teologicamente ensinem o contrário da lei velha, acabam caindo na mesma tentação. Elas começam a se comparar em quantidade e tamanho com estas igrejas que barganham, as vêem crescer numericamente e financeiramente, olham o quanto de dinheiro elas recebem, então começam achar que o erro está nelas mesmas (só não admitem explicitamente). As igrejas que deveria ser sérias começam se pautar, também, no discurso legalista da barganha, ainda que com menos ênfase. Então ficam em cima do muro (nem quente nem frio). Oras usam um discurso, oras usam outro. O povo fica sem saber o que fazer e em qual discurso religioso acreditar. É tanta contradição de argumentos que os mais simples teólogos não sabem mais o que dizer.

Há anos eu ouço a respeito do que é dizimar e ofertar na igreja institucionalizada, mas isto sempre me incomodou, pois a “forma” e os “motivos” nunca me foram muito bem claros. Principalmente quando eu via seus líderes utilizarem o “pai da fé” como regra de dízimo na passagem em que ele dizima pela primeira (e única registrada) vez – Abraão (Gn 14).
Nesta passagem Abraão depois de participar de uma guerra contra aqueles que haviam capturado seu sobrinho Ló, guerra entre 9 reis diferentes, recebe a visita do sacerdote Melquisedeque, e após ser abençoado (regado a pão e vinho) por Deus, entrega o dízimo dos seus bens (bens que já tinha). Depois recebe ainda dos despojos que havia capturado em guerra, apenas aquilo que seria o “pagamento” dos seus generais (que lideraram os 318 na guerra) que eram Aner, Escol e Manre.
Após isto Abrão tem mais uma conversa com Deus, pedindo-lhe não só a benção de riquezas e terras (ele já era um homem muito rico por causa de Deus), mas agora um filho (o bem mais preciso para um nômade). Além do filho, Deus ainda também lhe dá mais do que ele pede: dá uma nação que viria ser o povo judeu.

Veja que se formos pautar a relação de fé de Abraão com Deus para justificar um dízimo institucionalizado-legalista, então teríamos que admitir que TODOS aqueles que entregam dízimo a Deus teriam que ser abençoados, a tal ponto, até se tornarem milionários em vida (esta era a riqueza de Abraão). E ainda todos deveriam receber um enorme milagre e único (equiparado ao nascimento de filho por uma estéril). Veja que nenhuma igreja tradicional cristã baseada na simples leitura bíblica, ensinaria este tipo de coisa. Mas as igrejas em geral têm ensinado apenas a parte que entrega o dízimo, mas não as bênçãos FINANCEIRAS (palpáveis e não espirituais) que seriam consequências do relacionamento abraâmico (ou pegamos TODO o exemplo desta passagem e as demais, ou então não criemos regras de fé que não se aplicam a nós hoje). Isto não é ensinado em sua totalidade porque não é esta relação que o dízimo de Abraão ensina. Quem força estes textos desta maneira são estas novas igrejas judaizantes da prosperidade (que citei acima, que já extrapolaram a relação de dízimo), que se pautam na lei da barganha para arrancarem dinheiro dos seus seguidores.
Uma igreja séria, sabe que o texto não está ensinando um “toma lá da cá”.

Para quem não sabe, a prática de consagrar alguma coisa a favor dos “deuses” (os povos do deserto, como amorreus, jabuses, canaceus, até os egípcios) era normal naquela época. Abraão não foge à regra (lembre-se que ele veio da terra de Ur). Os povos sempre ofereciam alguma coisa para seus deuses, seja para ganhar uma guerra, seja como gratidão, seja para apaziguar a fúria de um deus qualquer.
Abraão ao entregar o dízimo, não o faz pautado em leis pré-estabelecidas como em Moisés), mas em um conceito de “gratidão”, pois admite que não ser-lhe-ia possível alcançar a vitória se Deus não fosse com ele. É um dízimo apenas de reconhecimento da grandeza de Deus, é um ato simbólico e não um ato de SUSTENTO de uma instituição religiosa, muito menos uma relação de barganha. Lembrem-se que Abraão não entregou o dízimo para receber a promessa de Deus, ele JÁ ERA RICO. Abraão não entregou o dízimo para ter um filho, isto ele pediu DEPOIS. Abraão apenas AGRADECEU simbolicamente.

O dízimo de Abraão não pode ser usado como uma prática institucional, como um legalismo sistemático como alguns querem nos fazer crer, e não podemos pegar como regra “de fé e prática”, pois Abraão não entregava dízimo mensalmente (pelo menos não é uma hermenêutica nem exegese desta passagem correta, quem o fizer). E não adianta os legalistas ficarem bravo comigo, estou apenas lendo o texto de forma simples, sem usar recursos malabarísticos de interpretação tendenciosa.

O que Abraão fez foi materializar a sua gratidão. Esta era uma das práticas de gratidão daquela época, pois nós cristãos sabemos que Deus, ao contrário do que criam outros povos idólatras, não consome ofertas, não precisa de ofertas, não faz nada com as ofertas. Deus não precisa de dízimos. Abraão faz aquilo como um prática normal para sua época. Devemos lembrar que Deus não é deus de sacrifício (Slm 50). Aquele ato a Deus foi uma forma de visualização simbólica de que tudo aquilo foi em função de Deus. Abraão sabia que não é de Deus apenas os 10% que ele deu, mas tudo é dele. E sendo Abraão já rico, porque não ofertou tudo que conquistou na última guerra? Porque não era preciso se era apenas um símbolo. Até porque Deus quando pediu um sacrifício a Abraão, Ele não pediu 10% de sua riqueza material, Ele pediu o próprio filho de Abraão - que valia infinitamente mais do que sua riqueza. Percebem a diferença?
Se Deus fosse HOJE agir conosco EXATAMENTE como agiu com Abraão, não tenha dúvida que Ele pediria O MELHOR que temos: nossos filhos, esposos(as), família, nossa própria vida, e lá por último nosso dinheiro. Mas sabemos que Deus pediu para Abraão o sacrifício apenas como uma prova de fé e uma só vez, algo que não deveria ser REPETIDO sistematicamente. Logo não devemos fazer da história de Abraão uma sistematização dogmática, mas uma exemplo de fé a ser seguida. Vejamos...


Quando olhamos para o “pai da fé” (Hb 11), ele não é considerado como tal por entregar o dízimo; ele o é por outros motivos (legítimos). O dízimo poderia conferi-lo talvez como “pai da gratidão”, mas também não é preciso tanto. Outros também foram gratos e fiéis a Deus antes mesmo de Abraão. Devemos lembrar de grandes homens como Noé, Enoque, Abel, etc. O próprio Abel já havia sido o primeiro a entregar oferta de gratidão a Deus e foi recebida.


Se dermos um salto na história bíblica, chegaremos à leia de Moisés. Ela é atribuída a Moisés, apesar da lei ter sido dada ao povo hebreu porque Deus NÃO QUERIA mais andar com eles por sua rebeldia. Deus após manifestar vários milagres para libertar o seu povo do Egito e mantê-los, desistiu de andar com eles “tete a tete”, e passou a se comunicar por regras (Arca da Aliança e pela Tenda), até que estas regras se tornassem “LEI” definitiva (recebida no monte Sinai). E assim é estabelecida a lei de Moisés, que são: o Decálogo mais as 613 ordenanças. Todas elas são leis, cada uma para um fim específico. 

Devemos lembrar que o dízimo que é descrito na lei faz parte de um conjunto de outras leis, desde a guarda do sábado até a propiciação dos pecados como intercessão pelo povo. Eram leis morais, civis, cerimoniais, que controlavam a forma pelo qual o povo deveria ser guiado. Lembremos que o povo hebreu era uma "nação" única na Terra (suas leis nacionais eram exatamente estas). Suas contas, juros, dividendos, investimentos, arrecadamento do “funcionalismo público” (levitas), etc.; estavam todas na Lei de Moisés. Não havia nada além disto. A nação hebréia tinha leis que os definiam como uma nação separada das demais.
Ao contrário de hoje, em nossa civilização pós-moderna, pagamos uma série de outros tributos ao Governo Federal, Estadual, Municipal, além de gastos privados. Se fôssemos levar a “ferro e fogo” o conceito de lei do V.T. para os hebreus, nós viveríamos "para" a Igreja e ao mesmo tempo "da" Igreja, pois as leis seriam destinadas especificamente para nós e para ela. Mas sabemos que não é assim hoje. Ao contrário do povo hebreu que não poderia se misturar com outros povos, nós já somos misturados. Significa que o conceito de "nação" para nós é mais amplo, é diferente. Somos nação (Igreja) de Deus que é a relação espiritual, mas enquanto nação institucional somos também do mundo, e a este pagamos tributos também (“dai a César o que é de César"). Só isto implicaria em uma outra discussão de dízimos que não tratarei aqui.

Para quem não sabe, na época da LEI mosaica não existia apenas um dízimo (como praticam mensalmente as igrejas). Tinha o dízimo aos levitas, dízimo das festas, dízimo aos pobres. Além de outros tipos de ofertas que eram dadas. Logo se formos se pautar no V. T., não são 10%, mas quase 30% (+ ou - 26%) e mais um pouco, alguns dízimos anuais outros levavam mais tempo a serem dados. Mas o fato é que podia chegar a quase 40% o total que o povo doava para manter a “nação hebréia”.
Mas não se esqueçam! Deus NÃO QUERIA este tipo de relacionamento com seu povo (pela LEI). Ele queria um relacionamento direto de gratidão e fé (Deus cuidava do seu povo sem precisar nada disto quanto saíram do Egito), mas O PECADO deles o faziam buscar sempre regras, normas, leis, em vez do próprio Amor a Deus e sua “graça”.

O povo de Deus se pautou então pela lei até quando na segunda diáspora - a da Babilônia - Deus fica 400 anos sem falar com seu povo, até a chegada de João Batista. Veja que tudo o que aconteceu antes de Moisés era uma relação sem leis definidas. Isto porque Deus se relacionou com Abraão na qualidade da fé, da gratidão. No tempo de Moisés o povo se tornou desobediente. Mesmo passando por momentos bons, sempre voltava-se contra Deus e seus profetas. L|embrem-se que quando se fala do livro de Malaquias, Deus - em uma de suas última vezes - reclama o dízimo ao povo, não para o sustento de uma instituição, mas principalmente pela falta de ajuda aos pobres (Mq 3:5). Ou seja, o dinheiro estava sendo desviado quando deveria ser usado para todas estas funções 'sociais' exigidas na lei para o sustento do povo hebreu.

Quando Jesus vem ele passa maior parte do tempo denunciando as “práticas legalistas” do povo judeu, que continuava observando a lei como se esta fosse o motivo pelo qual Deus se relacionava com seu povo; quando na verdade sempre esteve pautada na fé e na gratidão.
Os judeus se gabavam por “cumprir a lei”, porém Jesus demonstrou que cumprir a lei era exatamente a última coisa que ele queria (não aquela lei, mas a do amor ao próximo), até porque ninguém conseguia cumprir a lei de fato. Mesmo os judeus quando eram fiéis ao dízimo Jesus os criticou (Mt 23:23), pois mostrou que o dízimo foi uma instituição legalista para manter o controle do povo enquanto nação, mas nunca enquanto relacionamento com Deus (se Jesus criticou até a oração legalista, quanto mais o dízimo). O dízimo havia passado a ser – NA LEI - um tipo de pagamento (impostos) para se manter a nação hebréia “funcionando”, mas eles passaram a confundir com relacionamento com Deus e a trocaram pelo que era o mais importante: a fé e a gratidão.
Lembrem-se: Deus não obrigou Abraão a entregar nada, Abraão apenas o fez por agradecimento. Portanto, o percentual de 10% abraâmico não significa uma REGRA, mas um ato que ALEGREM ENTE ele fez por GRATIDÃO. Poderia ter sido um ato de 20%, 30%, 90% (oras, tudo não é de Deus afinal de contas? Abraão não era rico e não poderia ter dado mais?), mas ele deu só 10%. Não há nada no texto que diga que Abraão continuou sua vida mantendo os 10% mensalmente ou anualmente. O que sabemos é que Moisés depois copia esta prática porque Deus assim estabelece na Lei.

Seguindo o desenrolar do Novo Testamente não veremos mais a obrigatoriedade do cumprimento da lei, todas as passagens que falam de dízimo no N. T. – com referência à lei de Moisés – não são mais normas para os neotestamentários,  ao contrário, a lei por diversas vezes é criticada ou relembrada apenas como “aio”.
Apóstolo Paulo, que é apóstolo dos gentios, sabe disto. E por isso estabelece outra vez um relacionamento com base na “alegria”, e alegria só pode vir de um coração grato. Ou seja, a GRATIDÃO é que se estabelece mais uma vez, após a vinda de Cristo, como fonte de relacionamento com Deus. Apenas um povo grato conhece realmente aquele que lhe dá condições de vida, de trabalho, de saúde, ou até mesmo de crescer em meio às lutas e dificuldades (Fp 4:11-13). A gratidão não escolhe formas, momentos, simplesmente faz com alegria. O próprio Jesus quando orava agradecia a Deus, ainda que sabendo seu destino por morte vicária.

Apóstolo Paulo sabe que Abraão não se pautou na LEI, não havia lei na época. Ele sabe que Abraão praticou aquilo que lhe foi feito por gratidão (não havia percentual). Ele sabe que Abraão não tinha fé porque ficava testando a Deus, mas simplesmente porque acreditava em suas promessas (muitas que se cumpriram só após a MORTE de Abraão). Paulo sabia que Abraão não tinha medo (tinha temor, é diferente) de Deus e por isso não entregou o dízimo temendo retaliação, mas porque era amigo de Deus (Tg 2:23). Falava com ele face a face (Gn 18:22).

Mas e hoje, em pleno século XXI, após séculos de história judaico-cristã, estamos andando e ensinando como um povo da fé, da gratidão, um povo de raízes abraâmicas ou um povo pautado na lei moisaica, seguindo o mesmo caminho dos que se tornaram cativos a maior parte de suas vidas? Estamos agindo igual ao próprio Moisés que não conseguiu herdar a Terra prometida, ainda que sendo um atalaia da lei? Que tipo de povo somos? Que tipo de igreja nos tornamos? O que o capitalismo, o consumismo, o desperdício, o utilitarismo tem feito conosco? A quem temos servido, quais nossos interesses reais, que tipo de mensagem temos propagado, que tipo de religiosos somos? O que temos conquistado financeiramente para nossas vidas não é o suficiente ou o problema está naquilo que achamos o suficiente a ser conquistado?

Vendemos milagres, vendemos curas, vendemos sucessos. Quando não vendemos estas coisas, nos achamos fadados ao fracasso institucional, a problemas financeiros graves.
Alguma coisa está errada, e é em relação à gratidão! Não?!

Na minha opinião (que é rasa, mas sincera) esbarramos ainda na LEI, nos pautamos por ela. Achamos que conseguiremos alguma coisa ameaçando ou colocando medo. Acreditamos que o problema sempre está no dinheiro ou na falta dele. Achamos que a conversão é válida só até o momento em que não entregamos o dízimo (ouvi dizerem que o dízimo é regra para identificarmos um converso, que absurdo!). Se alguém pecar vá lá, mas se não entregar o dízimo fogueira pra ele...! (parecido com medievais).
Propomos tantos gastos pessoais ou institucionais que confundimos Igreja com empresa, ou cristão com consumidor. Falamos que controlamos nossas contas, mas qual controle? Com aquilo que podemos gastar ainda mais, ou com o que deveríamos usar para ajudar?
E os que criticam o que não entregam o dízimo?! Eles realmente possuem uma vida pautada de fato no dízimo da LEI que tanto pregam, com demonstrei acima? Entregam 26% de suas finanças mensalmente? Abrem mão de tudo realmente (igual o jovem rico achava que abria por cumprir a lei)? Se colocam como juízes, mas de fato possuem este gabarito? Fazem tudo por "amor", estes que se portam como fiscais do dízimo?
Muitos destes se reportam às Escrituras, mas se reportam apenas para justificar seus dedos indicadores acusadores. Estes juízes do dízimo estão ajudando as igrejas ou atrapalhando? Eles propagam de fato a Verdade ou seus interesses institucionais? São senhores da graça ou da lei? Incentivam uma igreja a ser grata ou temerosa?

A verdade é que a maioria deles estão preocupados com a própria reputação. Oras... não foi o próprio Ezequiel e Jeremias que abriram mão da reputação, ainda que isto significasse o sofrimento do povo de Deus, desde que este fosse o caminho CORRETO a ser seguido? Não foi o próprio Deus que se recusou a ajudar o povo por diversas vezes, mesmo quando cumpriam a lei, quando deixavam de praticar aquilo que era de fato verdadeiro? É com nossa reputação que devemos estar preocupados em primeiro lugar? Não podemos confundir reputação com moral e ética. Às vezes nossa reputação é jogada no lixo exatamente porque nos comportamos de forma correta no mundo, mas o contrário também: temos “boa reputação” muitas vezes praticando o ERRO!


Entendo que deixamos de lado um cristianismo simples e que deveria acima de tudo atender a simplicidade do Evangelho. Mas até esta palavra “simples” é difícil de ser explicada e praticada, pois ela recebe teor de radicalismo ou de pieguice, por alguns, quando falamos dela. A verdade é que no atual cenário evangélico igrejas simples não possuem mais espaço (não confunda simples com simplista nem pobre).
Temos cristãos pautados na gratidão e na fé. Mas esta “meia-dúzia” de cristãos são obrigados e “sustentar” os outros religiosos institucionais que querem ar condicionado, água gelada, boa música e uma pregação que os massageiem o ego (coisas lícitas, mas nem sempre possíveis).
Temos igrejas que investem tanto suas finanças nesses grupos de legalistas que os grupos da “graça e os da fé” esmorecem. Falamos que não temos dinheiro, mas na verdade o que não temos tido é a bendita GRATIDÃO.  Colocamos nossos esforços para ter uma instituição que AGRADE a todos, mas não são TODOS que são agradecidos à instituição. E assim nossas igrejas vão cada vez mais gastando e gastando seus recursos para manter os legalistas, mas continuam sendo movidas por meia-dúzia de cristãos gratos e fiéis - assim como Abraão o foi – e a turma de Ló esbanjando. Assim não há igreja que aguente, não há cristão que sustente.

Temos tido uma realidade (não sei se boa ou má, ainda) de que muitas pessoas estão voltando a cultuar nas casas. Estão abrindo mão das instituições e preferem viver em grupos menores, cultuando a Deus como o fazem a Igreja Orgânica (segundo eles, como a Ig. Primitiva). Como não tratarei deste tema aqui, o que estou mostrando é também um reflexo destes que não querem mais viver dentro de instituições que não quebram com o jugo da legalidade. Podemos até mesmo criticar estes irmãos que saem das igrejas institucionais, mas ao mesmo tempo devemos olhar onde temos falhado. Também temos errado!


E os que não contribuem com nada? Bom... estes normalmente mantêm o discurso de que a igreja é falha, é imperfeita, que seus ministros e líderes não fazem aquilo que eles querem. Mas adivinhem: lá estão eles todas as semanas, talvez todos os dias, usufruindo desta mesma igreja que tanto criticam. São mal amados, pessoas sem senso de altruísmo, egoístas, sangue sugas que apenas querem receber, mas nada doar. Buscam um Deus que os sirvam, mas em nada querem servir aos próprios filhos de Deus. São religiosos domingueiros de crítica ácida e destrutiva. Acham que o mal está nas instituições apenas, quando eles mesmo são a desgraça da Igreja.

E os que nada tem para dar? Estes são exceções, e a estes, e apenas estes, admitimos a falta de contribuição. Porém devemos observar que muitos destes quando passam a ter alguma coisa, se esquecem rapidamente do Deus a quem tanto pediam e da igreja que tanto os auxiliava.

Qual nosso problema enquanto igreja? É que não sabemos como ensinar o que é GRATIDÃO. Somos craques em falar de dízimo, sabemos usar a lei de Moisés com destreza, sabemos citar textos bíblicos para botar medo e julgar, sabemos barganhar nos estilo mais malaquiano, mas estamos longe de saber o que é gratidão (até nós que achamos saber o que é, talvez nem de longe saibamos, pois nascemos em uma geração perversa e aprendemos com ela). Isto porque estamos carregando em nossos ombros legalistas. Fazemos igrejas para eles, preparamos programações para eles, pensamos neles, mas eles não pensam em nós. Muitos de nós temos medo de perder cargo, o “emprego”, o prestígio. Alguns não entendem porque Apóstolo Paulo foi um grande cristãos missionário, pastor, evangelista, etc. Ele simplesmente o foi porque dizia: “em nada lhes fui pesado...”. Ele deixava claro que não pregava o Evangelho por favor, por dinheiro, por prestígio, por cargo, mas por DEVER. E se este dever lhe trouxesse condições financeiras (I Tm 5:18), ele dava graças.

Qual o nosso problema enquanto religiosos cristãos? Achamos que somos melhores do que alguém quando entregamos “dízimos”. Mas esquecemos que devemos é OFERTAR enquanto neotestamentários.
Infelizmente os “novos” legalistas ensinaram por tanto tempo que o dízimo é o “certo” (?) que acabaram eliminando o poder da gratidão e da fé que existe nas OFERTAS. Aquele que fala de dízimo se pauta sempre na “cadeira de Moisés” (Mt 23:2), pois se tentarem  fazer como Abraão fez na prática, teriam sérios problemas em sustentar tais argumentos como vimos acima (ele era rico, não entregou dízimo sistematicamente, recebeu a paga da guerra e ainda teve novas promessas cumpridas).
Usam da lei, e fazem do dízimo a prática neotestamentária que não dá certo como todos os que querem se pautar na lei (como o povo judeu se perdeu pela lei). Então ensinam que quem entrega dízimo faz melhor (?) do que quem oferta. Isto é um absurdo!
Eles não percebem que o “Reino do Dízimo” é legalista, obrigatório e “limitado” (10%), já o “Reino da Oferta” é alegre (grato), voluntário e “ilimitado” ("proporção", "ânimo", "abundância" - II Co 9:1-7).
Sim...! Vejam que a oferta não estipula valores, ele estipula apenas desejo e condições financeiras. Logo aquele que é grato entrega conforme o desejo e suas condições. E as condições podem (e até devem) extrapolar os 10%.
Alguém talvez esteja pensando: mas ninguém age assim. E eu digo: alguns agem, mas a maioria não, porque ainda ensinamos LEGALISMO. Ainda ensinamos lei, ainda trazemos para nossas igrejas pseudo-cristãos que querem apenas benesses divinas, querem retorno, querem barganha, querem conforto, querem show, mas não querem ser gratos, não sabem o que é fé. O erro está em nós. Criamos religiosos pomposos, e por isso temos que fazer igrejas pomposas. Conforto?! Claro que queremos, mas conforto para os gratos, não para os folgados. E se os gratos são poucos, não temos como ter pomposidade  para todos, pois os gratos sabem viver “no muito e no pouco”.

Ensinamos pessoas a “comprovarem” (“quando o fizer, faça a seu Pai...”) seus dízimos como regra de espiritualidade (ainda que mascaremos este discurso), mas não ensinamos apenas a assumirem compromisso com Deus independente, ainda que não declarem. Queremos que se apresentem como dizimistas mensalistas, isto é “bom”!(?). Mas é bom apenas enquanto instituição que quer pagar suas contas, como Igreja de Cristo isto é mau! Pois um dizimista quando o é, o é de forma legalista. Enquanto um ofertante quando o é, o é por gratidão. O primeiro se o faz legalmente não o faz por alegria, e sem alegria é pecado, e quando não o faz, se sente acusado ou culpado por não cumprir a lei. O segundo, o ofertante, quando não o faz, só não o faz quando não pode por motivos maiores, mas quando o faz, o faz por graça e muito mais do que o dízimo poderia lhe exigir: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5:20).
Falamos que o dízimo ou a oferta deve ser por alegria, então quando não é entregue, cobramos que seja entregue independente da “alegria”(?). Contradição não?!Mas o que seria esta alegria se não a gratidão?
Oras... então voltemos ao problemas: temos tido falta de gratidão, e é esta falta que precisa ser combatida.

Somos muitas vezes o exemplo do medo, por isso não lutamos para sermos uma igreja “ofertante”, mas apenas dizimista. Continuamos nos agarrando à LEI. Temos medo de não pagar as contas (é lícito ter medo), de não crescermos numericamente, de nos tornamos uma igreja simples e talvez pequena, mas alguém já parou para pensar que talvez Deus gostaria exatamente que fôssemos uma igreja apenas dos gratos e dos fiéis, ainda que pequena? Que arregimentássemos as pessoas sinceras, bem intencionadas, gratas, trabalhadoras, livres, simples? Que a igreja fosse para estes!? A Igreja não tem que ter compromisso com a legalidade, mas com a gratidão, e este tem sido o erro da maioria de nós.

Alguns diriam: talvez seja isto que Deus queira, mas quem quer pagar pra ver? Quem quer assumir o risco da igreja de Filadélfia ou de Esmirna (Ap 2; 3)? Quem quer lutar contra tudo e todos, mas se manter firme mesmo na simplicidade? Poucos com certeza!
Em um mundo onde o “sucesso” é medido pelo valor financeiro, pelos bens materiais, pelo tamanho, é difícil agirmos desta forma (todos nós). Por isso continuamos buscando a lei, pois achamos que é o caminho mais fácil (ou largo).

Então é por isso que em alguns testemunhos, como o que ouvi neste último domingo, sobre irmãos na China, percebo o quanto precisamos de gratidão. O quanto precisamos de nos tornarmos “ofertantes” e pararmos com a síndrome da legalidade. O quanto precisamos parar de atender aos maledicentes, aos esbanjadores, aos soberbos, aos carnais; e olhar para os gratos, os fiéis. O quanto precisamos perceber que o dízimo de Abraão, o pai a fé, não é uma regra de percentual a ser copiada, mas uma regra de GRATIDÃO a ser aplicada.

Ou nos tornamos Igreja de fato e assumimos as responsabilidades que a Verdade nos ensina, ou fechamos as portas e vamos cada um cuidar da nossa vida. Ou levamos a sério a mensagem que aprendemos e paremos com a mania de malabarismo bíblicos para interesses institucionais e individuais (toas as vezes que citei aqui instituição, estou me reportando à igreja legalista e não apenas como denominacional) ou mergulhemos de vez aos pés no legalismo e tentemos viver por ele (Rm 2:12).

Não importa o quanto podemos e iremos crescer enquanto instituição, precisamos continuar buscando simplicidade, clareza, objetividade, gratidão e fé, vivendo pautados na verdade e creio que, mesmo na dificuldade, nada irá nos faltar, pois o Deus da gratidão nos move. Se não acreditarmos nisto, então que continuemos legalista, mas nos tornemos pelo menos legalistas mais “prósperos” ($$), como os da Teologia da Prosperidade têm feito. Caso contrário, denunciemos estas práticas e mudemos.

Att.

Fabiano Mina