março 10, 2011

O lado cinzento da vida - TRÁGICO


Existe uma linha de pensamento literário e filosófico chamado de tragédia (τραγῳδία)
O termo hoje carrega em seu bojo uma conotação bastante destrutiva, próximo até mesmo do pessimismo, porém este não era o conceito originalmente que os gregos utilizavam em suas peças teatrais e em seus poemas homéricos,bastante fortalecido pelos dramaturgos gregos Sófocles, Eurípedes e Ésquilo (estes foram grandes escritores sobre o pensamento trágico, apesar de encontrarmos o mesmo sentimento em outros autores anteriores a eles).

Originalmente o termo tinha apenas a idéia de transmitir ao leitor ou ouvinte a realidade crua e nua. Passar para o leitor um sentimento de catarse, como já alertava Aristóteles. Catarse é um sentimento que arrebata o leitor ou espectador exatamente por trazer a ele a realidade que é vivida no drama do dia a dia da vida, as vivências pessoais que todos nós temos em nossas vidas retratadas de forma universal nestes poemas, contos, textos, peças, etc. Ou seja, nos enxergarmos nestas peças, textos, e isto nos trás um sentimento de arrebatamento, quase de êxtase. 

Este tipo de pensamento sumiu por longo tempo, principalmente com as invasões romanos aos gregos, tentando um tipo de reavivamento na Idade Média, depois na modernidade com tantos outros pensadores (filósofos e religiosos, como o ateu Nietzsche, Kierkegaard como cristão existencialista, Shakespeare como escritor poeta; e tantos outros).

Na pós-modernidade este tipo de pensamento deu lugar a um relativismo desmedido, onde não se há uma preocupação em encarar a realidade da vida, ao contrário, procuramos escondê-la debaixo dos tapetes da vida, jogando a poeira, da qual somos formados, para debaixo dele.

O pensamento trágico tem principalmente a função de nos levar a refletir sobre o lado cinzento da vida. Mostrar que a vida é um palco de questionamentos e experiências i-lógicas, onde nem tudo que pensamos, desejamos e queremos dará certo, e é exatamente neste momento que deveremos enfrentá-la.

A maioria das pessoas foge do lado cinzento da vida, se esconde atrás da religião, dos mantras, das análises psicológicas, de uma felicidade de fachada, atrás de futilidades, luxúria desmedida, sexualidade desenfreada, depressões de toda sorte, etc. Seguem uma vida calcada em ilusões, escondendo no self os recalques da vida (para emprestas um termo freudiano).

Aquele que admite este lado cinzento da vida sem dele correr, admite o seu lado trágico. Trágico no sentido de que a vida não é feita apenas de sucessos, ao contrário, o sucesso é um idealismo criado por muitos para vender uma ilusão que esta vida efêmera carrega. Na verdade a maioria das nossas atividades não são feitas de sucessos, mas de vitórias. Vitórias porque somos vitoriosos na medida em que encaramos a vida de frente e dela fazemos nossa história própria. Trágica porque sabemos que a maioria das nossas experiência vêm carregadas de desabores, porém sabemos que é este lado cinzento que nos desafia a lutar mais, brigar mais, e ao terminar a carreira, guardar a fé sem titubear.

São poucos que admitem este lado trágico, mas ao mesmo tempo por isto são poucos os que têm algo para nos ensinar sobre este lado cinzento da vida.