março 24, 2011

E se a mentira for uma verdade?


Pelo que estamos vivenciando nos últimos séculos, principalmente neste último, tem sido complicado viver em um mundo onde valores, ideologias, princípios, significados, já não contentam mais a Humanidade. E esta falta de contentamento acarreta uma série de outros problemas como: o que é família, o que é ética, há sentido na vida, por que existem sentimentos como: amor, justiça, paz. Qual o papel da humanidade frente aos problemas globais, o que é a morte, etc. São questões que fundamentalmente dependem de algum tipo de axioma, ou seja, de algum tipo de Verdade bem estabelecida. É isto o que todos nós buscamos afinal!

O problema é quando a Verdade se torna Mentira!

O desafio que as religiões enfrentam, e aqui em especial falo do cristianismo, é estabelecer uma Verdade-verdadeira. Me desculpe o trocadinho e até certo pleonasmo, mas fato é que tem existido Verdade-mentirosa ou Mentira-verdadeira. Significa que cada um tem feito sua própria verdade e sua própria mentira, e Deus tem sido colocado de lado.

Por muitos anos o cristianismo tem defendido as verdades que nos foram reveladas por Deus e acima de tudo personificadas na pessoa de Jesus Cristo.

Longe do que muitos imaginam Cristo não veio aqui para mostrar seu poderio divinal, isto ele poderia ter feito lá do alto como Deus. Muito menos veio legitimar alguns seguidores para ele, isto já havia sido feito de outras formas no Antigo Testamento. Também não foi instituir “a” religião que seria “a” libertadora dos fracos e oprimidos. Libertação é algo que Deus tem feito desde a queda de Adão (e Eva) começando por eles mesmos. Tudo isto faz parte, mas não foram estes o objetivo principal. Manifestação de poder, seguidores, religião, tudo isto já existia antes de Cristo.

O que Cristo veio fazer foi personificar a grande diferença entre aquilo que seja Verdade e Mentira. Isto porque enquanto vivemos na teoria (e era o que os judeus estavam fazendo, teorizando demais) a Verdade não aparecia, não transparecia, não era praticada de fato, mas apenas de direito. E quando isto acontece a Mentira passa tomar o lugar da Verdade, o que era mentira se torna verdade e vice versa.

Desta forma Cristo veio ao mundo DEMONSTRAR como, quando e porque a Verdade deve ser vivida, praticada, manifesta; tudo isto de forma clara e objetiva.

É exatamente isto que o cristianismo precisa resgatar: fazer a clara diferença entre uma e outra na sua PRÁTICA (sem abrir mão, é claro, de sua teoria).

E esta inversão passou a acontecer, como eu disse principalmente neste último século, quando muitos passaram a questionar (inclusive evangélicos) se aquilo que o cristianismo por muitos séculos defendeu como mentira não fosse a Verdade: “e se a mentira for uma verdade? Ou seja: e se viver em família for uma mentira, mas devêssemos viver desagregados; e se a igreja for uma mentira, e viver sem ela, cada um em sua casa, for a verdade; e se ser bom, amoroso e justo for uma mentira, e a verdade é que devemos passar uns por cima dos outros; e se seguir regras e leis for a mentira e a verdade for o fato de que devemos viver cada um segundo seu próprio critério; e se ajudar o próximo for uma mentira e a verdade for que cada um que cuide de si; e se ajudar a Igreja a se sustentar na terra for uma mentira e a verdade for usar dinheiro para tudo, menos para ajudá-la; e se caridade, amor, fraternidade, mansidão, temperança, fidelidade, oração, Bíblia, Jesus e até mesmo Deus – “e se tudo isto for mentira e aquilo que achávamos ser mentira for a verdade”?

É o que este século fez e tem feito com as pessoas: trocou a mentira pela verdade, e tudo ficou relativizado, tudo perdeu sentido, todos os valores foram desacreditados e as religiões que têm surgido são apenas alívio de consciência moderna, os valores do mundo são apenas dissimulações casuais e políticas, os interesses de ajuda são apenas oportunidades para ser bem visto na sociedade. Tudo tem perdido seu valor e até Cristo passou a ser relativo: “e se”…

É por isso que educar o filho hoje é mais difícil; é por isso que casamentos não duram tanto; é por isso que ser fiel é coisa de “crentão”; é por isso que pastores pregam de tudo, menos a Bíblia; é por isso que confundem literatura, filosofia, poesias nos púlpitos com mensagem cristã; é por isso que jovens cristãos acham que a Igreja tem que ser uma “balada” para ser freqüentada; é por isso que sexo antes do casamento é coisa normal; é por isso que o número de mortes e agressões nas famílias, assim como pedofilia, tem aumentado; é por isso que ter valores morais tem sido sinônimo de preconceito; é por isso que preferem ficar pulando de culto a culto a relacionar-se com sua comunidade; é por isso que relacionamentos na Igreja e em casa é algo supérfluo; é por isso que ler livros de auto-ajuda-evangélica virou moda; é por isso que a indústria fonográfica pinta e borda nos círculos cristãos; é por isso que Escola Bíblica Dominical é exceção nas igrejas; é por isso que não temos problemas só com adolescentes mas como “adultoscentes” nas igrejas; é por isso que nossos debates e discussões são tão rasos e superficiais; é por isso que ser sincero, verdadeiro e justo é sinônimo de ser chato, atrasado e orgulhoso…

…é por isso que estamos como estamos, porque a aquilo que era Mentira passou a ser Verdade.

E você, tem certeza que sua Verdade é verdade mesmo? Você não está querendo fazer da sua Mentira uma verdade?

Pense nisso…!

Fabiano Mina

março 10, 2011

O lado cinzento da vida - TRÁGICO


Existe uma linha de pensamento literário e filosófico chamado de tragédia (τραγῳδία)
O termo hoje carrega em seu bojo uma conotação bastante destrutiva, próximo até mesmo do pessimismo, porém este não era o conceito originalmente que os gregos utilizavam em suas peças teatrais e em seus poemas homéricos,bastante fortalecido pelos dramaturgos gregos Sófocles, Eurípedes e Ésquilo (estes foram grandes escritores sobre o pensamento trágico, apesar de encontrarmos o mesmo sentimento em outros autores anteriores a eles).

Originalmente o termo tinha apenas a idéia de transmitir ao leitor ou ouvinte a realidade crua e nua. Passar para o leitor um sentimento de catarse, como já alertava Aristóteles. Catarse é um sentimento que arrebata o leitor ou espectador exatamente por trazer a ele a realidade que é vivida no drama do dia a dia da vida, as vivências pessoais que todos nós temos em nossas vidas retratadas de forma universal nestes poemas, contos, textos, peças, etc. Ou seja, nos enxergarmos nestas peças, textos, e isto nos trás um sentimento de arrebatamento, quase de êxtase. 

Este tipo de pensamento sumiu por longo tempo, principalmente com as invasões romanos aos gregos, tentando um tipo de reavivamento na Idade Média, depois na modernidade com tantos outros pensadores (filósofos e religiosos, como o ateu Nietzsche, Kierkegaard como cristão existencialista, Shakespeare como escritor poeta; e tantos outros).

Na pós-modernidade este tipo de pensamento deu lugar a um relativismo desmedido, onde não se há uma preocupação em encarar a realidade da vida, ao contrário, procuramos escondê-la debaixo dos tapetes da vida, jogando a poeira, da qual somos formados, para debaixo dele.

O pensamento trágico tem principalmente a função de nos levar a refletir sobre o lado cinzento da vida. Mostrar que a vida é um palco de questionamentos e experiências i-lógicas, onde nem tudo que pensamos, desejamos e queremos dará certo, e é exatamente neste momento que deveremos enfrentá-la.

A maioria das pessoas foge do lado cinzento da vida, se esconde atrás da religião, dos mantras, das análises psicológicas, de uma felicidade de fachada, atrás de futilidades, luxúria desmedida, sexualidade desenfreada, depressões de toda sorte, etc. Seguem uma vida calcada em ilusões, escondendo no self os recalques da vida (para emprestas um termo freudiano).

Aquele que admite este lado cinzento da vida sem dele correr, admite o seu lado trágico. Trágico no sentido de que a vida não é feita apenas de sucessos, ao contrário, o sucesso é um idealismo criado por muitos para vender uma ilusão que esta vida efêmera carrega. Na verdade a maioria das nossas atividades não são feitas de sucessos, mas de vitórias. Vitórias porque somos vitoriosos na medida em que encaramos a vida de frente e dela fazemos nossa história própria. Trágica porque sabemos que a maioria das nossas experiência vêm carregadas de desabores, porém sabemos que é este lado cinzento que nos desafia a lutar mais, brigar mais, e ao terminar a carreira, guardar a fé sem titubear.

São poucos que admitem este lado trágico, mas ao mesmo tempo por isto são poucos os que têm algo para nos ensinar sobre este lado cinzento da vida.