novembro 05, 2013

Todos nós somos especialistas em Cristo! Será?



Tudo bem, quem é que nunca se achou o cara que mais especialista em Cristo ou pelo menos melhor do que a maioria, não minta! 
Não é muito difícil conversar ou ler algumas mensagens de religiosos – cristãos é claro! – tentando dar sua opinião de como Cristo pensava, se comportava, inclusive de suas mais profundas intenções; no final das contas todos fazemos isto. Mas não é preciso muita inteligência para perceber o quanto somos infantis neste momento. Tudo bem! Eu sei que alguém vai dizer que tem o Espírito Santo, que possui a “revelação” divina diferente da dos demais, que lê e interpreta as Escrituras como ninguém, ou que ele lê as mesmas Escrituras com tamanha “simplicidade” que consegue absorver e compreender verdades bíblicas tão óbvias (?) que nós, os sabichões intelectualizados, ou não, não conseguem devido a falta de fé, de humildade ou até mesmo pela falta de conversão. Ok! Sei que alguém aí está pensando isto, mas ainda assim isto não o tira do mesmo grupo de pessoas que citei acima! Todos nós pensamos saber mais do que de fato sabemos, e isto e matéria de religião é sempre um perigo. Queremos ensinar, ajudar, exortar, apontar, criticar, o que nem nós mesmo temos a mínima ideia como de fato as coisas aconteceram. Quando se aprende sobre Cristo não só do ponto de vista teológico ou eclesiástico, mas dos outros mais diversos pontos de vista, é impossível não se surpreender com tamanha ignorância nossa.

Fato é que o cristianismo não é uma coisa uniforme como a maioria quer passar a entender no seu mundinho de Alice. E por favor, não se escandalizem comigo. Não estou dizendo que o cristianismo não possui um fundamento, um princípio, um caminho (Cristo). Estou dizendo que “nós” em nossa finita limitação não conseguimos esta absoluta compreensão. E não adianta vir com este papinho de aluno neófito de EBD, dizendo que está escrito na Bíblia e blá blá blá, pois é por esta mesma Bíblia que temos, em média, setenta mil diferentes (pasmem!) visões e interpretações de instituições "cristãs" acerca do que convém ser o cristianismo. Cada qual com sua verdade, seu dogma, suas fórmulas, etc. E pior ainda é que cada grupo ainda se sente no direito de definir quem é salvo, quem é irmão, quem é "primo", quem é desviado (?), e por aí vai.

É claro que tendemos a ter este tipo de pensamento infantil e medíocre exatamente porque lemos pouco a própria História do cristianismo. E quando digo que lemos pouco, não estou advogando aqui em favor dos intelectuais ou letrados (eles também merecem nosso respeito, apesar de muitos religiosos ainda desrespeitarem os estudiosos como se eles fossem o mal da sociedade), apenas estou dizendo que não estamos ou procuramos conhecer nossa própria história, nosso próprio passado. Muitos não conhecem nem a história do próprio país, família, estado, quanto mais do cristianismo. O cristianismo é a religião que é hoje (a segunda maior do mundo e uma das mais influentes no Ocidente até hoje) porque ela sempre se modificou. É verdade! O cristianismo, enquanto “sistema religioso” nunca foi o mesmo. Pessoas que ficam com este papinho chato de que devemos voltar à Igreja Primitiva, é gente que nem de longe tem ideia do que era a Igreja antigamente. Viver sendo perseguido, sendo um grupo minoritário (e por isso chamado de 
seita), sem força política ou econômica, quase que sem templos, sem tecnologia, sem literatura uniforme, sem perspectivas a longo prazo, etc., era algo muito complicado. Mesmo os missionários no mundo atual, os que são perseguidos, ainda estão longe daquela perseguição existente nos primeiros séculos aos cristãos na Europa e no Oriente em geral, pois ainda que hoje sejam perseguidos, hoje o cristianismo possui visibilidade política e diplomática, coisa que antes não existia. 

Logo, aqueles que dizem querer voltar para o cristianismo primitivo, são na verdade em sua maioria retóricos que não tem nem ideia das dificuldades do que seria viver naquela fase do cristianismo. E não teria lógica voltar para aquela época, pois muito do que eles sofreram (alguns até exageradamente quando iam ao martírio voluntariamente como forma de sacrifício) foi exatamente para que hoje não sofrêssemos as mesmas coisas, portanto se hoje voltássemos a sofrer tudo outra vez, então o sofrimento deles teria sido em vão. É aquele velho problema de religiosos cristãos de hoje que adoram "idolatrar" o sofrimento como uma forma de penitência, esquecendo que o sofrimento vicário de Cristo foi e é o suficiente para a vida cristã. Logo, todo e qualquer sofrimento que passemos nesta vida não pode ser “buscado” em princípio, antes deve ser apenas uma conseqüência natural da vida e não sua causa.

Sendo assim, deveríamos parar com a mania de achar que somos arautos do cristianismo. Que nossa visão é a melhor ou o mais perfeita. Tenho por mim que o cristianismo, ainda que coletivo, é acima de tudo de fórum íntimo, até porque o julgamento divino não será coletivo, mas individual. Existe sim comportamentos que fogem em muito do que entendemos ser cristianismo convencional, mas por outro lado achar que a manifestação, a ação, a simbologia e existência cristã é a mesma para todos, é de uma imbecilidade tamanha. Se o cristianismo é um apenas, na sua forma, na sua dinâmica, na sua leitura, na sua ação, então todos nós hoje estamos danados, pois não somos iguais aos primeiros cristãos.

Pare então com a mania de se achar o novo Cristo, a nova revelação, o exemplo a ser seguido, o infalível ou o espiritual. Deixe que as pessoas sejam o que elas acham que devem ser – para o bem ou para o mal – pois este é o preço da “liberdade” que nos foi dada. Cristo nos deu "espírito de liberdade" e não de prisão (Rm 8), e esta liberdade implica em escolhas certas e erradas (e normalmente mais erramos, e assim somos nós seres humanos – já diria o Ap. Paulo). Pare com este papinho de medir o cristianismo dos outros pelo seu, male male você conseguirá medir pelo de Cristo – só não se esqueça do que eu disse no início: mesmo as interpretações da “mesma” Bíblia são diversas e criou crentes diversos ao longo da História.

Então rogo por um espírito de simplicidade sim, de humildade sim, e este espírito é admitir que no final somos diferentes, que podemos aprender uns com os outros, e que mesmo estando num mesmo fundamento – Cristo – só ele é nosso avaliador e redentor via Graça e nada mais.

Pense nisto!

Fabiano Mina


outubro 14, 2013

Criança: é ser humilde. Adulto: é não ser mau caráter!




O monopólio do saber é uma das armas mais antigas na sociedade, pois manipular o saber permite com que poucos controlem os outros muitos de suas espécie. É assim que os seres humanos se sobressaem uns sobre os outros, e é esta a nossa forma de "seleção das espécies" atual, ou seja, os mais fortes ou adaptados manipulam os menos adaptados (fazendo alusão a Darwin). Alguns pensadores já nos alertavam sobre isto, desde Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Kierkegaard, Nietzsche, Bonhoeffer, Freud, Karl Barth e outros. Estes já nos alertavam sobre a alienação, como diria Marx, que permite a manipulação, e veja que estes pensadores em muito já possuem boa parte de suas teses, filosóficas ou teológicas, superadas hoje.
Mesmo assim, nestes tempos a manipulação do conhecimento permanece viva como nunca, paradoxalmente ao avanço tecnológico que nos permite muito maior acesso ao conhecimento.

Antes de prosseguir quero contar um fato pessoal. Um dia destes, meu filho (de 5 anos) perguntou para minha esposa: “mãe, seja sincera, a Fada dos Dentes existe”? Minha esposa constrangida, compelida  à sinceridade disse que ela não, não existia. Seguida desta pergunta, meu filho acabou perguntando sobre ouros ilustres personagens como o Papai Noel e Coelho da Páscoa, dentre outros, e a resposta foi a mesma. Ao contar para mim, para surpresa minha, a decepção do meu filho não foi por perder aquelas “fantasias”, que na minha infância aguçava minha criatividade lúdica, antes sua frustração foi: “então quer dizer que não teremos mais festas e feriados”? Meu filho não é o mesmo que eu fui, e este felizmente (ou não) é o curso natural, pois a humanidade sempre mudou sua forma de pensamento.

Veja que interessante, há anos atrás seria praticamente um sacrilégio os pais serem sinceros com seus filhos, e admitirem que contos de fadas, histórias de crianças, personagens infantis, não passam de histórias lúdicas e criativas. Não que estas histórias não devam continuar sendo contadas para aqueles que as encaram com alguma função pedagógica, eu apenas retrato este caso com meu filho para mostrar que os tempos são outros, que as coisas mudam, que o conhecimento não pára e que nem sempre quebrar crenças antigas significa decepção, e que não devemos subestimar a capacidade de crescimento e entendimento dos outros, mesmo das crianças.

Talvez alguns entendam isto como ruim, como certa aceleração da infância ou coisa parecida, mas devo lembrar que histórias infantis são invenções recentes na humanidade, melhor dizendo, estas histórias foram inventadas bem depois que a sociedade já existia, Papai Noel, p. ex., é coisa da Idade Média. Se na Idade Antiga as crenças eram os mitos (como os mitos gregos, os nórdicos, os egípcios, etc.), já no final da Renascença e nas portas da Modernidade, os mitos dão lugar para estes contos, estas fábulas, e assim se seguiu até pouco tempo atrás.
Mesmo existindo mitos e fábulas, ao contrário de hoje, as crianças antigamente eram colocadas rapidamente em contato com a vida real. Os próprios gregos já passavam a ensinar seus filhos aos sete anos de idade qual o caminho que deveriam seguir na fase adulta, e para isto praticavam um ritual de iniciação chegando a colocar algumas para caçar animais selvagens. O mesmo ocorria com os hebreus, que já levavam seus filhos, ainda pequenos, para trabalhar no campo.

Com isto, o que quero dizer é que a ideia de que as crianças de hoje aceleram sua fase adulta ou estão perdendo sua fase lúdica rápido demais, não confere muito bem com a história antiga (e aqui sem fazer nenhum juízo de valor acerca disto), o máximo que podemos alegar é que as histórias que eram contadas há uma ou duas gerações, como na minha, não surtem mais o mesmo resultado e dão lugar para outras formas lúdicas.

Em se tratando dos adultos, isto deveria ser visto positivamente. Apesar de Cristo nos Evangelhos nos orientar a sermos como crianças, ele estava dizendo especificamente em relação à “humildade”, e não a toda e qualquer conduta. Cristo estava dando uma resposta aos discípulos preocupados com a disputa entre si do que com a finalidade do Evangelho. Não é que crianças não disputem entre si (quem tem filhos sabe disto, e eu como professor sempre vejo isto na escola), é que a finalidade delas não é a disputa em si, mas o próprio jogo ou o prêmio. Logo, o Evangelho é que deve ser a finalidade, e não a disputa pessoal entre os discípulos que queriam saber quem era “o maior” (Mt 18:1).

Isto fica mais evidente na fala do apóstolo Paulo quando diz: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (I Coríntios 13:11). Paulo está criticando a conduta de alguns religiosos de sua época, que se comportavam ainda como crianças (“meninos”), logo, neste caso, criança aqui é colocado de forma pejorativa, e Paulo segue esta toada desde o início da carta aos coríntios até o fim (I Cor 3:1; 14:20). Esta crítica, a ser "criança", segue-se em outros textos (Ef 4:14, Gl 4:1-3). 
Veja então que ao adulto o que se pede é a humildade da criança e não permanecer criança, pois o adulto não deve ser levado pela consciência dos outros e, aqui para esta reflexão, não deve ficar preso a ilusões, a contos, a um conhecimento distorcido da realidade.

O problema é que, mesmo passado tantos anos, com o conhecimento (o bom) cada vez mais avançado, o entendimento mais aguçado, a reflexão cada vez mais exigida, ainda queremos ser crianças. Nos esforçamos pouco para deixarmos o estado infantil, seja no nosso dia a dia, seja no trato com a crença, com a religiosidade, com a divindade; e isto tem dois motivos básicos: 1) o primeiro é que a criança normalmente não quer enfrentar seus medos, o diferente, a realidade, pois a fantasia de uma forma ou de outra ameniza a dureza da vida, da realidade; 2) outro motivo é que manter adultos como crianças é mais fácil para manipulá-los, logo os líderes em geral (pelo menos os que deixaram de ser criança), mesmo quando acessam ao conhecimento maduro, mesmo quando descartam para si mesmos as fábulas, os mitos, os contos, as distorções, continuam covardemente escondendo este conhecimento dos outros, ou por subestimar a capacidade alheia em lidar com a realidade, ou por mau-caratismo mesmo (e desconfio que este último é o mais recorrente).

O mesmo serve para líderes religiosos, que devem acima de tudo ser honestos. Um líder não deve impedir ou ignorar o fato de que o mundo muda, que o conhecimento avança, que a reflexão e a crítica também fazem parte do universo religioso (e não só científico). A alienação religiosa sempre foi um problema e a História nos mostrou isto dolorosamente. Logo, o argumento religioso de que o conhecimento “mata”(?) ou desvia é o uso mais antigo e ridículo utilizado para manipular pessoas. Não é (não deveria) a função de um líder religioso legislar sobre a consciência dos outros, mas infelizmente não é o que vemos na mídia religiosa, nos templos religiosos, nos materiais escritos, etc. Já dizia o importante sociólogo Max Weber (um religioso diga-se de passagem) que religiosos manipulam facilmente aqueles que não possuem sua própria racionalidade. Immanuel Kant (outro religioso), filósofo importante na modernidade, já dizia que só nos tornamos adultos quando nos emancipamos, ou seja, quando pensamos por nossa própria conta e assumimos nossas escolhas. Mas como foi mostrado acima, o próprio apóstolo Paulo já indicava isto bem antes, de que deve haver um momento em que devemos deixar de sermos crianças para nosso próprio bem e para o bem das nossas instituições.

Um dos grandes avanços da Reforma Protestante (bem antes, com o protestantismo clássico) é o fato de assumirmos a responsabilidade de legislar sobre nossa própria consciência religiosa, sobre nossas crenças, sobre nossas escolhas, e isto deveria ser inalienável (in-alievável = não terceirizar ou não dar a outros sua capacidade crítica ou de escolha pessoal consciente).
Porém, o mau-caratismo religioso é um fato em pleno século XXI. Líderes fingem que o conhecimento não avançou, que não há novas formas de entendimento bíblico (que na verdade sempre ocorreu desde que a Bíblia existe). Ignoram que a ciência deve ser nossa auxiliadora no conhecimento humano e na do mundo e não nossa inimiga, que os dogmas devem ser revistos sempre, pois eles, ainda que fundamentados nas Escrituras (ou outros livros sagrados), são passíveis de erros, pois dependem sempre, em última instância, do nosso crivo, da nossa interpretação, seja da ordem filosófica ou experiencial. É ridículo quando líderes ignoram o conhecimento psicológico, antropológico, sociológico, filosófico, neuronal, genético, histórico crítico, também o da física, o da biologia, dentre tantos outros. Para algumas instituições religiosas ainda é sacrilégio tocar em temas deste tipo ou buscar um suporte de conhecimento teológico junto a estas outras áreas de conhecimento. Eu como mestre em Ciências da Religião e formado em Filosofia (me desculpem o pedantismo) não posso compactuar com isto, pois é fundamental na minha área manter constante atenção aos fundamentos religiosos (inclusive o meu) e ao mesmo tempo dialogar com o conhecimento novo que surge e nos alerta sobre antigos erros. 
Não significa que cientistas, céticos, ateus, agnósticos, pós-modernos, e tantos outros que se auto-intitulam os mais "adaptados" de fato sejam, estes também podem se tornar maus-caráter quando manipulam o conhecimento em favor próprio, inclusive quando fazem críticas ridículas à crença alheia. O problema é que  o mau-caráter religioso faz mau duas vezes (à razão e à alma). Não à toa Cristo brigou mais com os religiosos de sua época do que com qualquer outro por causa da manipulação religiosa.

Enfim, o mau-caratismo continua sendo uma toada em nosso meio religioso ocidental, principalmente em se tratando de Brasil. Ainda há um longa caminhada para deixarmos de sermos crianças e nos tornamos adultos aqui em nossos templos religiosos, e pararmos de brincar com contos de fadas, de ensinar um Deus de fantasias, e então colocá-lo em seu devido lugar: em diálogo com a realidade nua e crua e com o conhecimento vigente.
Eh! Tem vezes que eu acho que meu filho é mais adulto do que muitos por aí, ainda que ele seja ainda uma criança.
Pense nisto!

Fabiano Mina







outubro 09, 2013

Vaidade, você também a tem. E se disser que não tem é um mentiroso ou não é humano.



Apenas a título de informação, a imagem acima remete ao mito de Narciso, de onde surge o termo narcisismo (vaidoso), um mito grego que vale à pena ser lido para quem quiser saber mais do tema proposto aqui. Narciso se afoga ao ver sua própria imagem espelhada no rio quando ele mergulha ao tentar alcançá-la por achá-la sublime, bela, única, diferente. Moral da história: a vaidade humana é sempre um constante vazio, e que nos leva sempre mais ao fundo.
Porém não tratarei do mito, vou falar da vaidade seguindo exemplos mais contemporâneos.

Acho engraçado quando pessoas alegam não ter nenhuma vaidade. Provavelmente estas não têm o mínimo de noção, de que nós seres humanos somos um poço de vaidade. Diga-se de passagem, o único ser que é vaidoso de fato e de direito é o ser humano, pois é o único que faz da vaidade a tentativa de ser “diferente” do que realmente é, ou de perpetuar uma situação imperpetuável. A vaidade é exatamente isto: tentar ser diferente na tentativa de chamar a atenção para si, ou perpetuar determinada condição que temos, seja ela a beleza, o intelecto, o status, o poder, as aptidões, etc. Fazemos de tudo para manter certa diferença ou condição diante de outras pessoas, e isto é vaidade. A todo instante tentamos ser melhor do que os demais em nossa volta, mesmo aquele que mais nega isto.

Logo, aquele que diz não ter vaidade é o pior vaidoso de todos, pois além de não admitir tê-la, ainda tenta escondê-la inutilmente. Claro que alguns podem dizer que há a vaidade exagerada, mas aqui trato da vaidade mais fundamental do homem, aquele vaidade “ontológica” da aborda a história de Adão e Eva. Este casal (que é um protótipo da humanidade), como sabemos, recebeu uma dádiva diferente da dos outros animais: a escolha (ou livre arbítrio como alguns gostam de dizer). A escolha é para o ser humano um bem e um mal ao mesmo tempo, pois escolher implica em poder dizer não para coisas ruins, mas também não para coisas boas (e vice versa). Quando Deus estabeleceu um relacionamento com este casal, ele deu a oportunidade aos dois de fazer uma escolha: obedecer ou não a ele. E já conhecemos o desfecho, eles desobedecem a Deus.
A desobediência dos dois está ligada à vaidade deles, pois os dois desejarem ter, ou melhor “ser” aquilo que não eram nem deveriam, eles desejaram ter o “conhecimento” de Deus, portanto eles desejavam de certa forma ter aquilo que não tinham, eles desejavam isto porque o ser humano fundamentalmente é um ser que não ter “ser” (perfeição, o ser de Deus), ou seja, o ser humano é incompleto no sentido de não ser plenamente perfeito como Deus é. O ser do homem é um ser imperfeito.
Talvez você esteja pensando que Deus nos fez perfeito. Eu diria que a perfeição que temos é a perfeição como a de outros animais, ou seja, somos perfeitos no sentido de sermos exatamente o que Deus queria que fôssemos quando nos criou, mas não somos perfeitos no sentido de ter total plenitude ou ausência da falta de algo, ao contrário, nós seremos humanos temos sempre falta de algo (veja que o casal tinha falta do conhecimento que só Deus tinha, logo não somos perfeitos na mesma medida que ele é). E para piorar, somos os únicos seres que tem consciência deste tipo de falta de algo, ou seja, por termos capacidade de raciocínio, diferente dos outros animais, nós seres humanos somos os únicos que sofremos por sabermos que somos imperfeitos em relação a Deus, que temos falta de algo, que somos incompletos, que somos um ser em constante construção.

Aí é que entra a vaidade, pois a vaidade é esta tentativa de completarmos alguma coisa, de nos diferenciarmos, como disse acima.
Sendo assim, todos somos vaidosos, pois todos nós tentamos suprir esta nossa falta de várias maneiras. Quem nos alertou sobre isto foi o escritor de Eclesiastes (1:2) que disse: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” Veja que ele não diz isto ou aquilo, ele diz “tudo” é vaidade.
Quando ele diz tudo, ele não está dizendo que qualquer ação nossa é vaidade, pois dificilmente ele diria que a prática do amor é vaidade (explico mais adiante). Quando ele diz tudo é vaidade, ele está dizendo que nossas ações partem sempre de um “ser” (o homem) que por definição é vaidoso (que está tentando sempre suprir sua insuficiência enquanto um ser imperfeito que é). Nós somos a própria vaidade.

Isto piora muito quando tentamos camuflar nossa vaidade ou a ignoramos. Ex: pessoas consideradas humildes normalmente não se consideram vaidosas, mas grande parte das vezes essas pessoas estão usando a própria humildade como forma de vaidade, ou seja, elas fazem da humildade não uma virtude no sentido de valor moral bom, mas uma forma de se diferenciar dos demais, alegando certo ar de superioridade diante as outras (mesmo que não demonstre), e isto é vaidade.
Outras gostam de destilar sua intelectualidade dizendo que estão querendo ajudar ou ensinar (meu caso agora), quando no fundo querem apenas mostrar que conhecem mais do que os outros supostos ignorantes. Alguns que vão à academia dizendo que é por causa da saúde, quando querem na verdade um corpo bonito. Outros dizem que precisam de um carro como transporte, mas compram o mais bonito que o dinheiro puder pagar. Mulheres que se cuidam dizendo que é para se sentir bem, mas querem a atenção dos outros. Outros falam de Deus a todo instante, recitam versos bíblicos a todo o momento, rezam ou oram sempre diante de outros, passam sempre certa imagem de um “ser espiritual” diferenciado, quando no fundo estão apenas querendo provar que são mais espirituais do que os outros pobres mortais. Alguns adoram dizer que estão cantando ou adorando a Deus, que louvam a ele e sua glória, e preferem sempre fazer isto em público, com platéia, pois no fundo querem mostrar o quanto cantam bem, o quanto são melhores do que outros que cantam mal. Outros ajudam a tudo e a todos, menos a ele mesmo, dizendo que prefere sofrer (?) a ter que ver outros sofrerem, mas no fundo querem apenas uma bom tapinha nas costas e a fama de mártir. Outros adoram dizer que são perfeccionistas, exemplares, cuidadosos, mas no fundo querem apenas dizer e mostrar que são melhores do que os outros para chamar a atenção para si mesmos, dizendo que só eles são capazes para determinadas tarefas. Alguns preferem o silêncio, ficar quietos, dificilmente emitir uma opinião, mas consigo mesmo estão sempre dizendo que são melhores do que os demais que falam bobagens ou muito. Por incrível que pareça, até pessoas que verborragiam a todo instante a palavra amor, no fundo querem apenas dizer para as outras que elas amam mais, que sabem amar mais e melhor do que os outros.

Há muitos exemplos dos quais eu poderia citar aqui, e que o autor de Eclesiastes alerta ao informar que mesmo aquelas ações que nos parecem boas aos olhos, na verdade são manifestações da nossa vaidade, da nossa tentativa de ser o que não somos (ser perfeito), de esconder nossas mazelas, nossas imperfeições, nossas limitações.
É isto que muitos – inclusive religiosos – não querem entender ou admitir (e se escondem em suas regras), de que somos vaidosos por natureza, que nosso instinto ainda é o mesmo da do casal Adão e Eva, de que estamos sempre querendo ser mais, diferente, melhor do que os outros, e para isto usamos o subterfúgio chamado vaidade, afinal de contas tudo é vaidade.

Neste momento talvez você esteja decepcionado se achando a pior pessoa do mundo ou irredutivelmente contrário a minha opinião, tudo bem! A escolha continua sendo sua. Mas dizer que tudo o que fazemos é vaidade, e o é porque esta é nossa essência, realmente é algo que não verificamos nos outros e em nós mesmos? Realmente você não é vaidoso e eu estou aqui falando bobagem? Faça uma sincera análise em você e no mundo, e veja se de fato não é a vaidade o que impera em nós e nos outros. Veja cada ação, cada atitude, cada discurso, mesmo daquele que nos aparenta ser o mais sóbrio, humilde, espiritual, e mesmo assim verá um poço enorme de vaidade nos mesmos.
Então você talvez pense: não há então ação, boa, não há nada de justo, humilde, sincero que possamos fazer!? Eu diria: sim, há! Porém quando (e nas raras exceções) conseguimos agir de alguma forma que não seja a vaidade a nossa motivação, isto se chama “milagre”, e este milagre só ocorre quando somos agraciados por Deus, ou seja, só ocorre quando ele manifesta sua (não a nossa) Graça sobre nós. É Deus quem nos dá condições de agir de forma única, sincera, justa, amorosa, não somos nós. O máximo que podemos fazer é assumir que somos sim um poço de vaidade, tentar ao máximo nos prepararmos para sermos um canal (alguns chamam de instrumento ou de vaso), e quando Deus quiser, e só quando ele quiser, então agirá através de nós manifestando sua Graça. Assim devemos entender que somos vaidosos, e que 99% do tempo estamos apenas manifestando vaidade porque é isto o que somos no fundo, e que este 1% que resta é o milagre de Deus por meio de sua Graça, e é por isso que todo o ser humano que de fato é ou quer ser humilde, é aquele que admite que é vaidoso em sua natureza e que só Deus quebra esta natureza, só ele faz quando quer com quem quer.

Então não se engane, não olhe para as pessoas, ou para si, achando que aquela mais singela não é vaidosa. Todos somos.
Eu sou, e você? Pense nisto!

Fabiano Mina



outubro 03, 2013

Escolhi não ter medo. Então que venha a morte!





Fiquem tranquilos, não sou nenhum suicida, pelo menos não no sentido convencional!
  
Para quem gosta de filmes de ficção científica, como eu, sugiro o filme Depois da Terra (After Earth). O filme, que não é lá dos melhores filmes que já vi de ficção, porém traz uma boa dose de ação, suspense e até mesmo um pouco de reflexão (pasmem!). Ele aborda o relacionamento entre pai (interpretado por Will Smith) e filho (Jaden Smith, seu filho), onde neste relacionamento há certo incômodo entre os dois, uma vez que o pai exige que o filho seja um futuro soldado, o melhor deles (mesmo tratando o filho com certa distância), e por sua vez o filho tenta provar ao pai que pode, inclusive, ser melhor do que ele foi enquanto soldado.
Daí no desenrolar do filme (e aí não vou contar para não perder a graça), há a luta interna do pai para confiar no filho, e do filho em aprender a lutar contra seus próprios medos. E é exatamente sobre isto que quero falar, o medo. Em uma das falas no filme, quando o pai está ensinando o filho sobre como ser um soldado especial, o pai diz ao filho: “o medo não existe, é apenas uma coisa fabricada em nossas mentes, pois temos medo daquilo que ainda não existe, e se não existe então ter medo é uma escolha, e eu escolhi não ter medo”.

Neste ponto o pai e soldado Cypher (Will) ensinava a  seu filho Kitai (Jaden) a não negar o perigo, pois ao contrário do medo, o perigo é sim uma coisa real; por outro lado o medo, este sim, deve ser negado; o medo é sempre a forma como enxergamos ou tentamos prever o futuro ruim, logo se conseguirmos escolher não ter medo, então conseguiremos avançar na vida e tomar as necessárias decisões. E digo necessárias porque o medo nos leva a tomar outras desnecessárias.

É este – e talvez apenas este – o ponto alto do filme no que diz respeito algum tipo de reflexão que se possa tirar dele, o restante é só tiro, sangue, correria e tudo de bom que um filme de ficção hollywoodiano deve ter. Sendo assim, tive este insight para escrever este texto. E de alguma forma eu concordo que o que nos incomoda no fundo não é apenas o dia de amanhã – por mais concreto que ele nos pareça –, o que nos incomoda na vida é não saber exatamente o que ocorrerá depois desta vida, na morte, e a caminhada que levamos em direção a ela nesta vida.

Não duvido que neste momento muitos religiosos estejam afirmando de “pé junto” que sabem ou têm certeza o que o ocorrerá com eles após a morte. Mas para qualquer um, mesmo religioso, ao ser sincero consigo, sabe que não tem nem 1% de ideia do que será exatamente sua vida após morte. Pode até ser que ele creia em céu ou inferno, em vida cíclica, em Nirvana, em carma, etc., mas no fundo nenhum de nós tem total conhecimento do que é a morte e suas consequências (e por favor, não venha citar livros como Apocalipse para dar sua tese do que será a vida pós morte, isto é coisa para jardim de infância de Escola Bíblica). Não é de se espantar que grande parte das religiões tentam abordar seus fiéis a partir do tema morte.
Exatamente por não sabermos disto, da pós morte, é que criamos ao longo da História uma série de explicações, símbolos, metáforas, etc., do que acontecerá conosco após esta vida. Então somos tomados muitas vezes por um medo constante, e de tão constante se torna comum, passa a fazer parte do nosso dia a dia imperceptivelmente. Temos medo do que ainda nos é desconhecido, estranho, misterioso, e este medo muitas vezes nos é paralisante, destruidor, sufocante.

Onde quero chegar com isto é dizer que a maioria das pessoas por ter medo, receio, desconfiança da vida depois da morte, vive esta vida inventando situações, manias, rituais, mandingas, superstições, credos, regras, dogmas, etc., na esperança de livrá-las de algum fim trágico que a morte supostamente traz. Grande parte dos religiosos na verdade não está seguindo exatamente a Deus (ou um deus), antes está negociando sua estada após a morte. Quando alguém fala de inferno, 99% das vezes tem tamanho medo que até pronunciar a palavra lhe causa terror. Falar de inferno a grande parte das vezes é utilizado apenas para reforçar o medo das pessoas, mesmo elas não tendo nenhuma noção do que seja inferno (ou céu).
Em outros casos as pessoas usam o nome de Deus para controlar outras pessoas, colocando medo nelas ao falar do tal Juízo Final que recairá sobre elas caso não façam isto ou aquilo que determinada instituição religiosa diz ser o certo e errado, mesmo que esta instituição e seus regradores não tenham a mínima ideia do que seja o céu ou inferno, muito menos os intentos eternos de Deus.

Assim grande parte das pessoas, religiosas ou não, vivem um medo constante, seja no relacionamento com Deus, seja no seu dia a dia. As pessoas vivem submersas no medo. Elas cantam para afastar o medo (já ouviram esta?), elas rezam por medo, elas vão a templos por medo, elas ofertam por medo, elas ajudam por medo, elas estendem a mão ao próximo por medo, elas agradecem a Deus por medo, elas até mesmo amam (?) por medo.
O que posso dizer, parafraseando o filme, é que o medo pode ser uma escolha para sua vida, e eu escolho não ter medo (mesmo quando ainda tenho). Não falo do medo biológico que nos toma quando estamos em perigo “real”; estou dizendo do medo do amanhã, o medo do desconhecido, o medo do misterioso, o medo da morte e suas consequências, o medo que nos paralisa, que nos manipula, que nos diminui, que nos afasta. Este tipo de medo eu não escolho para minha vida, ainda que o foco do mundo, mesmo dos religiosos, seja pautado no discurso do medo.

Usando uma passagem do grande Mestre Jesus, ele diz em Marcos 5: 36 “E Jesus, tendo ouvido estas palavras, disse ao principal da sinagoga: Não temas, crê somente.” Era para um religioso de sua época (Jairo, v. 22), da sinagoga - portanto defensor das leis e regras -, que tinha sua filha como morta (Talita, v. 41), mas ao buscar por Jesus teve como primeiro ensinamento – DEIXE DE TER MEDO, pois o que crê é aquele que perde o medo para sempre, e nunca mais será manipulado, nem mesmo pelo medo da morte. O problema maior não era a morte, mas o medo daquele soldade. 
Ao encontrar-se com a menina, Jesus pede a presença apenas dos pais, e após ter dito que a menina apenas “dormia”, Jesus ressuscita-a. Alguns talvez percam tempo com querelas a fim de debater se a menina estava mesmo morta ou não, e qual o tipo de milagre que Jesus havia feito. Na minha opinião isto é perda de tempo, pois Jesus ressuscitou outros (como Lázaro). O caso ali não é se Jesus apenas curou a menina de uma doença que aparentava a morte ou se ele trouxe vida a ela. Fato é que Jesus tinha condições de fazer qualquer milagre que fosse. Logo, recai a atenção para a frase imperativa dele ao religioso da sinagoga: “...não temas...”.
É isto que Jesus quer mostrar, que o problema não era em ele fazer o milagre que fosse, mas em espantar o medo daquele religioso. E veja que interessante, que o medo do desconhecido cauteriza tanto nossos pensamentos, que Jesus ao tratar aquele problema apenas como um sono (disse que a menina "dormia") arrancou risadas do que estavam em sua volta. Tem horas que o medo se torna tão comum em nós, que ao ver outra pessoa (no caso Jesus) tratando o medo de forma tão banal (sono), nós ridicularizamos, quando nós em quem somos os ridículos por vivermos em constante medo dela - da morte.

É o medo que paralisa, é o medo que arranca a fé, é o medo que nos deixa ser manipulados, é o medo que não nos permite ver possibilidades, é o medo que diminuiu a visão da Graça divina, é o medo que cria pecado ou não há pecado, é o medo que elimina a prática da misericórdia, da bondade e da justiça, é o medo que nos afasta de tudo e de todos, inclusive de Deus.

Aos terroristas das almas eu digo: com licença, mas eu não tenho mais medo.
E você? Pense nisto!
Att.


Fabiano Mina

setembro 28, 2013

Os escolhidos por Deus II




Continuando a ideia que elaborei no último texto, aqui no blog – “Os escolhidos por Deus” – em que eu fiz uma rápida comparação entre o pensamento cristão ortodoxo em relação ao cristão ocidental, para dar uma introdução ao tema central que é o fato de Deus escolher, sim, pessoas para determinadas situações – e isto simplesmente por ele ser Deus -, aproveito para continuar refletindo sob a questão dos “escolhidos” (agora de um ponto de vista negativo) em relação às instituições cristãs, principalmente em relação a nós ocidentais e outras formas de fé.

Não é preciso muita força para perceber o sentimento que, enquanto religiosos temos – que na verdade é o sentimento para todo aquele que defende sua crença de forma fundamentalista – de um tipo de religiocentrismo, ou seja, colocar a sua própria religião/crença como o centro de todas as outras ou o centro para todos os outros, causando um tipo de rejeição.

Quero (re)lembrar que Cristo nunca foi “cristão” (não no sentido institucional como usamos hoje). Jesus veio como Emanuel, como Salvador, como o Ungido de Deus. Jesus veio como propagador da esperança que a humanidade ainda poderia ter para uma relação com Deus. Jesus veio nos dizer que não era “apenas” o povo de Israel o povo “escolhido”, antes todos os povos e nações também. Cada indivíduo que se sujeitasse à verdade e justiça de Deus também seria. Porém, o ser humano, como entendo, é o mesmo desde sempre. Nossos erros, interesses, mazelas, desvios não mudam. O mundo, enquanto tecnologia, muda, mas o ser humano em suas natureza continua a mesma. Celular, computador, carros, fábricas, ciência, etc., nada disso é capaz de mudar a natureza humana que é precária. Nossos pecados se repetem, são sempre os mesmos. Por isso que ainda continuamos pensando como o povo de Israel (e outros povos), que entendia que Deus não poderia ser deus para outros povos, pois ele, Deus, só poderia ser exclusivo, só poderia ser manifestar ao povo de Israel (?), afinal de contas Deus teria “escolhido” apenas ele como povo, e não os outros povos.

Este foi o grande erro do povo de Israel –  judeus – a ponto de não apenas excluírem outros povos da face de Deus (da comunhão), como as pessoas de dentro do seu próprio povo que não seguissem certos rituais religiosos que eles consideravam serem os rituais dignos dos escolhidos, portanto todos que fossem os “escolhidos” deveriam praticar tais rituais. 
Não preciso me alongar aqui, na história a partir da vinda de Cristo, em que Jesus vem e condena não apenas os rituais dos judeus, não apenas a xenofobia religiosa deles, mas muito mais do que isto Jesus condena exatamente a ideia de “escolhidos” que eles detinham. 
De fato Deus havia escolhido o povo de Israel, mas esta escolha não significa que Deus não poderia fazer outras escolhas. Mais do que isto, não significava que a escolha de Deus pelo povo de Israel dava direito aos judeus julgarem as outras nações a ponto de impedi-las de ter também um relacionamento com Deus, ainda que cada um a seu modo. Pior de tudo isto é que mesmo Deus tendo escolhido Israel para propagar sua revelação (e foi para isto que Deus escolheu Israel), este mesmo povo foi condenado por Deus exatamente por não seguir a revelação dada por Deus. Foi Deus, na boca de Jesus e depois da do ap. Paulo (antes os profetas), quem condenou seu próprio povo como sendo um povo rebelde, e por isso estava sendo cortado enquanto os gentios enxertados na Videiras (Cristo).

Este é um tipo de problema que continua se repetindo pela História. Nós religiosos hoje ainda comentemos os mesmos erros, como disse acima. Tendemos a achar que somos os únicos “escolhidos”, e que pessoas que pensam diferente de nós, possuem rituais diferentes, que fazem um caminho diferente, são indignos de serem também “escolhidos” por Deus, no sentido de Deus estender sua misericórdia a quem quer, como quer, quando quer. Nos comportamos ainda como o antigo Israel, entendendo que nós somos melhores, diferentes, únicos, e que todo o resto do mundo merece o fogo do inferno. Será que este tipo de comportamento te lembra alguém?

Talvez você esteja pensando que sou um relativista. Não, não sou! Até porque relativismo para mim não é compatível com crença alguma, pois uma religião para existir precisa ter algum fundamento, ainda que pequeno, já o relativismo destrói com todo fundamento. Mas o fato de não ser relativista não significa que eu consiga estabelecer perfeitamente o que convém ser o fundamento verdadeiro ou conheça por completo aquilo que Deus propõe para a humanidade como fundamento. Enquanto cristão – e os fundamentos que o cercam – entendo que Deus quer relacionar-se com a humanidade acima de tudo, com cada indivíduo; e para isto facilitou este acesso de várias formas, desde seus juízes, profetas, apóstolos, Cristo, até nós hoje como religiosos propagadores das verdades divinas. Porém, não tenho como definir como este relacionamento se dá a outras povos, culturas, nações que não possuem o mesmo acesso que eu, como cristão ocidentalizado tive/tenho. Não há como eu encaixotar o relacionamento de Deus, em relação a outros povos, a partir das minhas experiências pessoais, do meu pífio conhecimento, da minha limitada sabedoria; seria arrogância e prepotência demais da minha parte, que as Escrituras não me permitem ter.

Para os que não sabem os primeiros cristãos, após a missão dos apóstolos, forma espalhados pelo mundo, principalmente após a queda de Jerusalém em 70 d.C. Os cristãos não se conheciam em geral, vinham de locais e culturais díspares, por isso tinham comportamentos bem diferentes uns dos outros. Os próprios apóstolos tiveram dificuldade em aceitar isto quando souberam que alguns – fora do grupo dos judeus convertido – estavam recebendo o batismo espiritual também. Eles não entendiam como Deus estava alcançando os chamados gentios, pois eles, cristãos judeus, achavam que mesmo o Cristo teria vindo apenas para os judeus (os “escolhidos”) – leia Atos.
Muitos cristãos no início do cristianismo viviam isolados nos desertos, estes eram considerados monges ou monásticos, e em grande parte ortodoxos. Outros, mesmo sendo ocidentais, se isolavam do mundo (se tornando monges católicos). Alguns cristãos tiveram contado com outras formas de pensamento filosóficas, como a epicurista, a estoica, a gnóstica, sendo esta última de grande influência num dos principais pensadores cristãos do ocidente: Santo Agostinho de Hipóna. 
Este contado de diferente ordem para cada grupo cristão, criou formas diferentes de ritos, liturgias, teologias, e automaticamente na forma como os mesmo se relacionavam com Deus.

Ainda tivemos cristãos influenciados por diferentes culturas: pelos judeus ligados a Roma, outros ligados à Grécia, outros ligados ao Egito (vindos do exílio), outros que haviam se estabelecido na África, outros poucos migrados para a Ásia. Não era difícil ver nos primeiros séculos cristãos que recebiam influencia e influenciavam outros grupos religiosos como islâmicos e judeus. Não é preciso muito para entender que estes grupos cristãos pensavam bem diferente de nós ocidentais hoje.
Como se não bastasse, ainda temos, dentro de uma linha ocidental, cristão que se tornam separatista (sem instituições, apenas com líderes específicos), cristãos católicos (latinos e orientais), cristãos protestantes (mesmo anteriores a Lutero), cristãos reformados (a partir de Calvino), cristãos protestantes específicos (como os anglicanos), cristãos missionários históricos (como os puritanos, congregacionistas e metodistas que formaram a maior nação protestante do mundo, os EUA). Ainda temos os episcopais, os quackers, os hunguenotes, e tantos outros grupos ditos cristãos que quando vistos à distância parecem seguir o mesmo Cristo, mas quando aproximados percebemos a clara diferença entre eles e em muitos casos até mesmo vistos, entre eles, como inimigos.
Aqui no Brasil sabemos que os grupos protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais possuem m histórico antigo de críticas mútuas. 
Saindo um pouco da ceara institucionalizada cristã, poderemos encontrar grupos como os islâmicos, budistas, espíritas orientais, judeus, e tantos outros grupos de menor expressão, que advogam para si também a fé em (um) Deus a partir de suas culturas, experiências, conhecimento.

Sendo assim, uma pessoa que se diz cristã, não precisa ser relativista, por outro lado deve ter humildade suficiente para admitir que os “escolhidos” já erraram muitas vezes na História, por assumirem uma postura arrogante, prepotente, julgadora. Um cristão defende acima de tudo não uma instituição, não um corpo doutrinário, não um conjunto teórico de fundamentos de uma instituição específica (teologia) – ainda que todas essas tenham seu valor -, mas a crença e a esperança de que Deus, na pessoa de Cristo, veio nos dizer: eu quero me relacionar com a humanidade, basta ela querer, e não é você ou qualquer outra pessoa quem irá impedir isto que não seja o próprio sujeito. 
Pense nisto!

Att.
Fabiano Mina




setembro 21, 2013

Os escolhidos por Deus I


Calma! Não irei aqui falar da velha e famigerada polêmica entre calvinistas e arminianos – apesar de, particularmente, entender que o calvinismo possui mais coerência “lógica” do que a arminiana -, pois sinceramente não acho que nenhuma dessas duas teologias dão conta do que chamamos de “revelação divina” (Escrituras). E isto por um motivo muito simples: os cristãos ortodoxos (do Oriente - Bizâncio) possuem uma crítica séria contra os cristãos latinos (Ocidente – Jerusalém), da qual partilho, ao afirmar que nós ficamos tão preocupados em tentar elaborar teses teológicas acerca de Deus, e da sua revelação, que acabamos nos distanciando dele e de sua verdade.
Confesso que tenho uma enorme tendência a concordar (ainda que em parte, afinal de contas ainda estou enraizado no ocidentalismo cristão), pois nossa teologia nada mais é do que uma cópia muito mal feita de pensadores escolásticos, como Tomás de Aquino, que tentaram de todas as maneiras harmonizar a filosofia grega com o cristianismo, afim de busca respostas conceituais para aquilo que conhecemos como revelação (as Escrituras). Esta forma de racionalizar o cristianismo pela escolástica ocorreu na Idade Média por volta do século X-XII (muito depois do nascimento do cristianismo) quando a escolástica torna-se uma forma não só apologética, mas acima de tudo sistematizada de tratar da religião cristã, quando então chega ao seu auge a partir de Tomás de Aquino, considerado por muitos o maior sistematizador das Escrituras na era cristã medieval (ao contrário do que muitos pensam Santo Agostinho, muito antes de Tomás, nunca foi um sistemático, e por isso parte da patrística). Tomás de Aquino recebe forte crítica de cristãos ortodoxos e/ou místico por ser considerado aquele que fez do cristianismo uma religião mais presa a conceitos do que à realidade e/ou vida cristã prática. A Igreja cristã ocidental até hoje sofre dos males desta forma de fazer cristianismo, que está mais preocupada com modelos do que com o conteúdo cristão.

Com isto, o cristianismo ocidental mergulhou na forma interpretativa de tratar as Escrituras, sempre ancorada na lógica aristotélica. Ou seja, significa que qualquer outra forma de compreender, lidar ou interpretar as Escrituras, que não fosse pelo escrutínio lógico-aristotélico - este encampado pelo cristianismo escolástico - era visto como erro, até mesmo como heresia. Hoje não é diferente, pois qualquer forma de pensar o cristianismo que não seja nos moldes teológicos ocidentais (ou aristotélico) é visto como uma forma espúria. Não é difícil de vermos nas igrejas protestantes e evangélicas no ocidente, mais preocupadas com modelos e formas. E acabam se tornando igrejas abstratas, que tratam o cristianismo de forma muito distante da realidade das pessoas.

Com toda esta introdução o que quero dizer é que até hoje, nós ocidentais, temos ainda a mania de tentar definir, conceituar, delimitar as ações e vontades de Deus a partir dos nossos conceitos teológicos pré-formatados. Tentamos limitar Deus aos nossos modelos racionais e dogmáticos, o que, por definição, é uma contradição – já diria os ortodoxos – pois a religião em si é antinômica em relação a qualquer sistema lógico ou racional, isto porque a religião não faria parte da via racional, mas da via intuitiva (ou mística para os ortodoxos).
O caminho para conhecer e viver Deus não seria o caminho da argumentação, mas dos sentidos (intuição, afeição, mística cristã), e por ser dos sentidos, ele é subjetivo, portanto nunca sistematizado, generalizado, universal e fixo a regras. Ao contrário da razão, os sentidos não conceituam verdades, eles apenas às vivem. Seria mais honesto da nossa parte admitirmos de uma vez por todas que Deus não está sob nosso controle conceitual, e não temo a menor ideia de como Deus lida com a humanidade a priori, ainda que haja coincidências ou aparentes manifestações que sigam algum padrão.

Ao tentarmos sistematizar as Escrituras criamos tantos modelos, regras, formatos de religião; bem como cultos, ministérios, programas, etc., achando que este é o caminho, quando na verdade estamos apenas dando sequência ao projeto tomasiano existente desde o medieval.
Com isto nos afastamos da essência "mística" (cristã ortodoxa) do que seria vivenciar a revelação divina. Tendemos a exercitar tanto nossos conceitos racionais e pragmáticos que nos afastamos do que convém ser o cristianismo na sua forma primitiva (essencial, original, pura). Mesmo aqueles que dizem estar manifestando alguma forma livre ou pura de cultuar a Deus, na verdade apenas tentam manipular a divindade ou seu poder (mesmo que inconscientemente).
É importante entender quando chamo de primitiva, não é no sentido de voltarmos às praticas arcaicas de cristianismo (sempre me soa ridículo alguém que diz querer voltar a viver num cristianismo primitivo no sentido histórico), mas primitivo no sentido de nos livramos da tentativa de criar modelos para as formas como Deus deve tratar conosco, ou se manifestar no tempo e espaço em sua Igreja.

É por este motivo que acredito que Deus continua agindo da forma que quer, como quer, com quem quer, sem nenhum tipo de modelo sistemático do qual possamos enquadrá-lo. Não são nossas orações, mantras, campanhas, insistência, reivindicações, etc., que fazem Deus agir assim ou assado, ao contrário, Deus sempre agirá de forma misteriosa, cabendo a nós apenas admitir suas ações via Graça.

É por essas e outras que entendo que Deus é quem escolhe aqueles que deverão agir em determinadas situações, seja na igreja institucional ou fora dela. Deus escolhe pessoas que possuirão uma ação diferenciada, uma condição específica, uma habilitação singular. Infelizmente muitos têm dificuldade de entender isto: que nem todos são “escolhidos” por Deus.
Como eu disse no início, não estou falando de escolha na perspectiva calvinista (apesar do princípio ser o mesmo), mas no sentido da soberania divina para toda e qualquer situação que cabe a Deus. O fato de Deus convidar “todos” (sei que há controvérsias) para a salvação, não implica que chame todos para as mesmas tarefas, ações, situações; ao passo que não dota a estes todos com as mesmas habilidades e não designa a todos estes para as mesmas tarefas e missões.
Creio piamente que há pessoas “especiais” chamadas por Deus que surgem na Terra de tempos em tempos para fazerem uma diferença de tamanho alcance que poucos conseguem alcançar as mesmas façanhas.

Não são todos “escolhidos” para enfrentar viagens, fome, dor, sofrimento, luta, desafios, etc., e ao mesmo tempo abdicar do luxo, da vida suburbana, da tecnologia, do conforto, da segurança, do salário, da família, da vida planejada, etc. Poucos são os "escolhidos" que Deus chama (como Paulo, Pedro, Davi, Moisés, Abraão, Noé...) para situações específicas que a vasta maioria resignaria. Porém, o que vejo é muita gente se achando escolhido por Deus, mas fazendo tanta besteira e atrapalhando aqueles a quem Deus realmente separou para seus desígnios misteriosos.

Grande parte dos evangélicos se acham “escolhidos”, mas está óbvio que não são em sua maioria. Eles fazem as mesmas coisas, os mesmos rituais, frequentam os mesmos lugares, repetem as mesmas frases - são em grande parte uma cópia mal feita dos modelos e formatos de cristianismo ocidental aristotelizado que se preocupam mais com forma do que com conteúdo. E só porque se esforçam para passar um ar de bons samaritanos, se intitulam diferente do resto da população, quando em grande parte fazem as mesmas ações sociais, como tantos outros religiosos, só que com um nome diferente: o de evangélicos.
Com isto não estou dizendo que estes não devam fazer suas benfeitorias, isto é salutar. O que digo é que não deveriam ser achar “os” escolhidos, pois os escolhidos são bem diferentes destes. Os escolhidos são vistos não pela forma, mas pelo conteúdo. Não por modelos, mas por ações. Não pela escolho por algo, mas pela negação de algo. Dificilmente são ovacionados pela multidão, ainda que trabalhem afinco por ele. Provavelmente não terão uma vida tranquila, formal, igual aos demais em sua volta, pois os "escolhidos" o são exatamente para viverem um vinda única - e por isso são escolhidos.

Pessoas “escolhidas” por Deus não mudam por acaso nem superficialmente, mas com profundidade. Não aceitam meias verdades, vão até o fim dela. Não medem consequências materiais, apenas as humanas. Não se prendem ao conforto, ao cotidiano, ao trabalho, à família bem planejada; ao contrário estão dispostos a arriscar todas estas coisas, inclusive a própria vida. Eles não são missionários mais longe do que são de perto. Não são pregadores formatados, mas pregadores que desformatam. Não ensinam cartilha, antes ensinam a fugir delas. Não só pregam a Cristo, mas buscam por ele e convidam os demais. Não falam de amor, eles amam. Não são amiguinhos, são verdadeiros. Não andam em bando, desmancham estes. Não se preocupam com fama, antes a repudiam. Não estão nos lugares comuns, mas nos mais estranhos e com os estranhos. Não se gabam nem alardeiam seus bons feitos, antes pedem silêncio como forma de humildade. Não querem palco, querem o chão. Não andam com os mesmos, preferem sempre os diferentes, o novo Não sentam nas primeiras fileiras, nem se dobram aos empoleirados, mas com os necessitados e famintos. Mais doam do que pedem, mais oram do que ensinam, mas ouvem do que falam, mais observam do que se apresentam. Estão sempre dispostos, prontos para a guerra, de malas prontas para recomeçar, famintos de justiça, sedentos pela misericórdia e sempre tardios ao julgamento. Não menosprezam, antes agregam, não aceitam o erro, mas principalmente o seu próprio. Estão abertos para aprender e fechados para o definitivamente definir.

Não! Os escolhidos não são uma “raça” que se acha por aí em qualquer lugar. Não é aquele simplesmente que fala ou canta bem, que é conhecido ou famoso, que tem posses ou atributos, que tem carisma ou alegria. Os escolhidos passam despercebidos em grande parte (pelo menos despercebidos dos religiosos - vide João Batista), e quando os percebemos eles já foram, porém suas heranças são marcantes e profundas, se perpetual. Aliás, o que os "escolhidos" fazem é sempre pesando na posteridade. Eles não lutam por eles, nunca em causa própria, mas pelo próximo.

Não! Os "escolhidos" não estão em qualquer banco de igreja. Não estão “batendo cartão” dominical. Não estão querendo agradar a gregos e troianos. Não pedem a palavra. Os "escolhidos", ainda que entre nós, não são como nós, pois são raros.
Sim! Estou procurando um "escolhido", talvez eu o ache por aí. Graças a Deus por eles existirem, ainda que sejam raros.


Fabiano Mina

setembro 06, 2013

A lógica retributiva! Uma mecânica bíblica?



Como não poderia ser diferente, a maioria de nós segue uma lógica retributiva na vida (dar ou fazer para receber). Significa dizer que tudo o que fazemos é na intenção de ter algum retorno, ou seja, assim como tudo na vida (ou quase tudo) possui sua causa e consequência passamos a entender que nossas ações, nosso esforço, nossas intenções, nossas energias, devem também ter o retorno desejado. Portanto, esta lógica retributiva diz que tudo o que fizermos, de uma forma ou de outra, trará algum tipo de fruto. O mundo segue esta lógica, e não é diferente para os religiosos e religiões em geral. As pessoas seguem a Deus se não é para fugir do inferno, é para ter benesses nesta vida. É por este motivo que eu não acredito que pessoas, em primeiro momento (ainda neófitos) seguem a Deus pelo tal do “amor”. Este estágio vem bem depois. Todos nós buscamos a Deus pelos motivos mais supérfluos, mesquinhos, ou até mesmo necessários; mas seguimos sempre esperando algum tipo de retorno – retribuição.

O que está por trás desta lógica, é a ideia de o mundo todo segue, que é de uma “mecânica”. Está mecânica nos ensina que A+B dará resultado de C. Assim aprendermos nos discursos, nas frases, nos conselhos do tipo: estude e será alguém na vida; trabalhe muito e terá o seu pão de cada dia; acorde cedo, durma tarde e terá sua recompensa; ame e será amado; faça o bem e lhe retribuirão com o bem; etc. Então achamos que vida segue esta mecânica simples do faça isto e terá aquilo. Mas não é bem assim, a vida é bem mais obscura e complexa. E não é diferente no que se refere a vida espiritual.

Claro que muitas destas coisas podem acontecer como causa e consequência de uma ação. O problema não é este, o problema é dizer ocorrerá com “todos” e da mesma forma inadvertidamente. Falar que porque uma causa gerou determinada consequência para determinada pessoa, não é o mesmo que dizer que “sempre” ocorrerá com outras.
E talvez você esteja perguntando por que não. Eu digo porque esta lógica é uma invenção da nossa mente humana. Somos nós quem a inventamos com “medo” de admitir e enfrentar este mundo que não possui lógica. É uma reação psicológica, apenas isto.
E o que estou aqui dizendo não é algo da minha cabeça, basta você olhar para o mundo e verá que os justos, os certos, os bons, os honestos  nem sempre são aqueles que desfrutam das melhores coisas desta vida – “melhores” em todos os sentidos seja material, emocional, pessoal, espiritual, etc.Muitas pessoas que são dedicadas, esforçadas, bondosas, justas, etc., às vezes sofrem muito mais do que outras que possuem um comportamento completamente oposto a elas. Esta já seria uma prova suficiente para quebrar qualquer argumento de uma mecânica lógica retributiva. Porém, caso alguém ainda queira recorrer a outras fontes, basta buscar a própria vida de Jó. Este é um personagem intrigante das Escrituras. Muitos olham para a vida de Jó quando Deus deu o “dobro” do que ele tinha perdido. Mas a questão aí não é o dobro que ele recebeu, e sim qual teria sido o motivo para Deus ter tirado tudo o que ele tinha. Pela lógica retributiva Deus não deveria ter permitido tudo aquilo com Jó, já que ele era um “homem justo e bom”. Mesmo assim Deus permitiu, e por um simples motivo: Ele é Deus, faz o que quer, como bem quer, e não depende de nenhuma lógica retributiva humana. O mesmo ocorreu quando Deus agraciou Jó com o dobro. Não foi por uma lógica retributiva que Deus o fez, pois Jó também foi repreendido por Deus por questioná-lo. Deus deu o dobro simplesmente por que quis e não por merecimento de Jó. Se Jó merecia (“se”) alguma coisa, perdeu tudo quando questionou Deus.

O que a história de Jó quer nos ensinar, não é a lógica retributiva do “se” (causa) eu fizer isto ou aquilo, “então” (efeito) Deus fará isto ou aquilo para mim. Não! A história dele nos ensina que tanto quando Deus tirou e quando deu alguma coisa para Jó, não foi por NENHUMA lógica retributiva. Nem a “justiça” de Jó o impediu de perder tudo, nem sua reclamação o impediu de receber o dobro.
Portanto, todos aqueles que querem ensinar “receitas de bolo” de como Deus deve agir conosco, pautado nesta “lei” (mecânica) espiritual, com certeza não levam muito a sério os fatos que ocorrem na vida das pessoas nem nos textos bíblicos contextualizados.
Claro que em se tratando de vida cotidiana, as chances de alguém mais esforçado, lutador, honesto, justo, etc., ter êxito na vida é teoricamente maior, mas é só teoricamente, pois tudo pode acontecer.

Quem aprendeu duramente esta lição foi o salmista Asafe (leia todo o capítulo), quando ele diz lá em 73:3 “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.” Asafe ainda seguia uma lógica retributiva, pois ele via os “ néscios e ímpios” prosperarem, enquanto ele, como servo de Deus, não. Então sua inveja crescia, achando que por ser servo de Deus ele teria o direito (consequência) de ser prospero. Só então de meditar muito entendeu que o “caminho” dele era difente: “Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles.” 73:16-17.
Para Asafe não foi fácil entender esta lição, ele mesmo diz no verso 16 que foi “muito doloroso” aprender isto.
Sim! É doloroso entender que não devemos e não vamos servir a Deus dentro de um discurso retributivo, de uma lógica da retribuição da prosperidade, seja ela qual for no âmbito que for. Deus nunca terá obrigação alguma de nos dar nada, pois já foi muito além nos dando sua Graça, e que “nos basta”.
Nem todos gostam de ouvir este discurso que coloco aqui, pois preferem “picotar” textos bíblicos para forçar a ideia (psicológica) de que possuem algum direito diante de Deus. Mas isto não é certo. Teremos sim, muitas pessoas justas, honestas, bondosas que terão muita prosperidade nesta vida, mas teremos pessoas assim também vivendo o inverso. E foi por isso que o Ap. Paulo nos advertia a aprendermos viver com muito, mas também com pouco. E não tente entender esta “lógica” divina, não cometa o mesmo erro de Asafe e de Jó.

Talvez ainda alguém esteja pensando: mas há tantos versos bíblicos que ensinam a lógica retributiva para aqueles que confiam e esperam no Senhor. Eu concordo! Mas este tipo de retribuição é diferente, ou seja, quando receberíamos, sobre o quê e o quê? Veja que a Bíblia nunca garantiu que por sermos honestos, justos, esforçados, nossa retribuição seria aqui em vida necessariamente, muito menos em forma de dinheiro, saúde, etc. Como diz as Escrituras em Mateus 5:45 “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” Nesta vida, mesmo para o justo, a luta é a mesma do que para o injusto, mas as consequências nem sempre são. Muitas vezes o justo até sofre mais exatamente por ser justo, e este é o preço a ser pago por aqueles que esperam não só nesta vida, mas na vida vindoura (a parousia).

E este é o problema de muitos religiosos que não querem aceitar que nesta vida não há uma lógica retributiva da qual Deus é obrigado a nos agraciar. Muito menos há uma lógica retributiva para aqueles que são mais justos, honestos, santos, da qual viverão uma vida com mais conforto e regalias, muito pelo contrário. Aí talvez alguém – ainda pensando sob a lógica retributiva – pergunte: por que então devemos ser justos e honestos? Eu digo: porque assim Deus manda, simplesmente porque este é o certo e ser feito. E todo aquele que achar que “só” se deve ser justo, honesto, bom, “se” receber (retribuição) alguma coisa, então este acabou de se mostrar o contrário de tudo que Deus chama de servo e filho dele.

E você, qual “lógica” você segue? A retributiva ou a de Deus? Pense nisto!


Fabiano Mina

julho 29, 2013

O que mais diz querer a verdade é o mais mentiroso de todos!




Queremos a verdade, mas nem tanto assim! Isto é fato.

Tudo bem, talvez você me verá como um radical, um exagerado, e vou aceitar esta sua crítica, até porque talvez eu esteja sendo mesmo. Mas a verdade não é algo radical? E exatamente por ela ser radical é que desconfio que as pessoas que mais dizem querer a verdade são as que mais mentem. E digo isto por uma questão empírica, inclusive comigo mesmo. Eu sei que falar da verdade em tese é sempre mais fácil do que "ser" verdadeiro, e isto é uma luta diária que travo comigo mesmo. Já tive, e tenho, muitos problemas e desafetos por achar que tenho a verdade ou até mesmo por dizer de fato alguma verdade. Ou você mesmo já não teve a experiência de ouvir pessoas que batem no peito e falam da tal verdade com boca cheia, mas quando você olha para elas no seu dia a dia, parecem pessoas tão - me perdoe o vocabulário em "licença poética" - bundonas! 
Eu não acredito em bundões que defendem a verdade. Para mim tem que ser muito macho (não no sentido de gênero aqui) para querer falar e viver na verdade. Desconfio que é por este motivo que Cristo gostava tanto de Pedro, o apóstolo. Não tanto pelas habilidades de Pedro, até porque ele era um ogro; mas pela sua coragem - para os desavisados, Pedro abandonou Jesus não por falta de coragem, pois ele defendeu Jesus no monte; ele abandonou por decepção e confusão. Cristo sabia da coragem de Pedro, e por isso deveria ser um líder. Aliás, acho que Cristo chamou os corajosos em primeiro lugar. Não que os medrosos não tenham sua chance, mas a chance de deixaram de ser bundões.

Claro que no mundo existem(iram) "não bundões" mentirosos em outro sentido. Pessoas que levam povos e nações à mentira com argumento de que perseguem e defendem a verdade. Hitler foi um bom exemplo disto. Mas mesmo estes seriam bundões em relação à seguir a verdade cristã, que é do que eu venho falar aqui, pois seguir o cristianismo não é questão de coragem no sentido lato do termo, mas coragem no sentido de mudança de vida, percepção, intenção - conversão. Logo, até Hitler teria que ser muito macho para isto. 

Quem é que já não ouviu ou viu alguém falar que é sincero, que gosta da verdade, que abomina a mentira. Dificilmente você ouvirá alguém falar que mente deliberadamente, que não é tão verdadeiro assim ou coisa parecida. Mas o fato é que a maior parte das pessoas lida bem com a mentira, e isto por um motivo muito simples: viver pautado na verdade necessariamente nos obriga a enfrentar a todo instante tudo e a todos (o mundo), e este é um desafio difícil para qualquer mortal. Não à toa Jesus foi crucificado exatamente porque viveu pautado na verdade, ele enfrentou tudo e todos, pois sua missão era exatamente trazer as Boas Novas, e as Boas Novas tem como prerrogativa combater o engano, a mentira, o erro, inclusive daqueles mais chegados. Quando Cristo disse para Pedro que deveria se apartar, o chamando de Satanás, Jesus não estava falando da incorporação de Satanás em Pedro (muitos entendem assim a passagem) - coisa que só ocorreu com Judas, e por isso era o traidor (Jo 13:26-27) -, mas da mentira da qual Pedro cria achando ser a verdade, querendo evitar que Jesus fosse crucificado (Mc 8:33). Pedro estava preso às "coisas dos homens" naquele momento, e não às de Deus. E as coisas dos homens são a meias verdades, a mentira. Foi isto que Jesus expulsou, a mentira, sendo seu pai Satanás (Luc 22:31)

Desta forma, eu desconfio da maioria das pessoas que dizem combater a mentira se dizendo pautados na verdade, mas vivem rodeados de um monte de “amiguinhos”, tudo está sempre bem, curtem a vida a todo instante, estão cheios de “sucesso” recebendo tapinhas nas costas, etc. Não estou dizendo que uma pessoa que busca a verdade necessariamente deve ser uma pessoa que só cria confusão, é mal quista, é odiada ou coisa parecida. O que estou dizendo é que a maioria diz que vive lutando pela verdade, mas só faz isto quando lhe é confortável, quando está em maioria, quando as consequências não são tão ruins para ela (pode até ser para os outros); pois na maioria das vezes o que fazemos é fugir da verdade quando o “calo aperta”.

É por isso que acredito que líderes religiosos (ou famosos religiosos) que dizem falar a verdade são raros, pois líderes religiosos não são aqueles que falam a verdade quando estão com um microfone não mão, quando estão diante de uma “platéia” num ambiente direcionado, quando estão numa posição de maioria ou de autoridade sob outros. Ser líder assim é moleza! Eu quero ver quando for minoria, quando estiverem num ambiente hostil, quando tiverem que “resistir na cara” seus outros líderes ou chefões (Gl 2:11) que controlam esta mesma maioria ou a massa religiosa, ainda que isto lhe custe seu "emprego", seu status, ou seu salário. 
A verdade é que líderes religiosos que fazem da sua “vocação” de fé uma “carreira religiosa”, não podem nem conseguem falar a verdade, pois isto seria o mesmo que arriscar a posição institucional da qual tanto perseguem. E é por isso que líderes religiosos autênticos são raros – existem, graças a Deus!

Da mesma forma não acredito muito em qualquer jovem que queira ser líder de fato, compromissado com a verdade - e me perdoem os jovens, já fui um –, muito menos em religiões formadas/lideradas apenas por jovens. E antes que alguém me venha com exemplos bíblicos de jovens sinceros e autênticos, primeiro quero lembrar que o que consideramos jovens hoje, na época bíblica eram considerados já homens (devido a vida de maturidade que levavam. Davi p. ex., era pastor de ovelhas e lutava com feras no campo ainda jovem), pois a ideia de jovem ou adolescente é invenção recente e moderna, bem diferente dos jovens de 3.000 anos atrás. Também quero lembrar que a exceção não vale para a regra, e aqui, obviamente, estou tratando da regra.
Desconfio de jovens por motivos óbvio, pois jovens em geral, principalmente na atual modernidade, estão normalmente mais preocupados em serem aceitos, em fazerem parte de um grupo social que os acolha, querem ser vistos, são ainda inseguros, a vaidade (centro das atenções) ainda é marcante neles. Significa que o jovem não arrisca tanto na vida como um adulto já mais estabilizado faz, pois, em tese, o adulto já amadureceu (deveria), já conquistou coisas, já sofreu as decepções básicas da vida, logo o adulto, ao contrário do jovem, tem mais “cacife” para arriscar, enquanto o jovem ainda está mais preocupado com seu círculo social (amigos, baladas, gatinha, shows, passeios, etc.) do que propriamente com esta verdade dura e difícil que a religião propõe. 
Não à toa Cristo convocou, primeiramente, adultos na sua comissão de frente (os apóstolos), ainda que admitisse que as crianças (logo os jovens) eram importantes; o mesmo relatou apóstolo João em sua carta também. Cristo sabia que para enfrentar as consequências de se pregar as Boas Novas, teriam que ser homens maduros, desapegados praticamente de tudo na vida, em alguns casos até mesmo da família de sangue (Mt 10:35-37), pois as consequências seriam desastrosas, como foram. Seguir nesta verdade não é qualquer um que fará, ainda que ela seja oferecida a todos de alguma forma (o fato de oferecer para todos, não significa que será de todos, como tudo na vida).

Também não acredito em "pop star" religioso. Quanto mais um religioso fica “famoso”, menos eu acredito que ele se compromete com a verdade, pois a fama não tem compromisso com a verdade, a fama tem compromisso com a quantidade, com “bom” retorno, com o sucesso, e em grande parte com o dinheiro. Os pop star que vemos por aí falam sempre “meias verdades”, pois meias verdades agradam a gregos e troianos. Mas como sabemos, a verdade não pode agradar a todos; há de agradar a um e desagradar a outro (Mt 6:24). Não estou falando apenas dos famosos midiáticos, estes são bastante óbvios (lembrando: com suas exceções, se é que tem). Estou falando destes que circulam em nossos meios religiosos locais. Sim! Temos os famosos das igrejas, das comunidades religiosas, das massas populares. Não querem a fama da de Paulo, de Pedro. Aquela fama de estarem dispostos a tudo em favor da verdade, não! Querem a fama para agaranhar fãs, querem os sorrisos fajutos, as meias verdades, e assumem pouco ou nenhum risco. Ou seja, é a fama do pop star religioso que não quer conflitos, não quer confronto, não quer questionamentos, não quer o contraditório, quer apenas a zona de conforto para continuar obtendo o seu sucesso desejado.

Também não acredito nos mal dizentes. Estes não querem a verdade, eles querem apenas que concordemos com eles. Eles querem a religião do jeito deles, a igreja deles, o líder deles. O mal dizente reclama de tudo e todos, e acha que é o único que tem razão – a verdade – só porque seu intuito é de ser ouvido e aceito, e quando não é, ele "solta o verbo". Este não tem obrigação com a verdade, ele tem obrigação com sua “opinião”. O mal dizente confunde facilmente opinião com verdade. Ele se esquece que a verdade não é uma ideia, uma lógica bem construída, um argumento bem posto. A verdade é algo primeiro “dado”, ou seja, é algo que independe da pessoa que a profere, pois falo aqui da verdade revelada (bíblica), a verdade dada por Deus. Mas o mal dizente defende a “sua” verdade, esquecendo que a verdade ainda que seja dada ou revelada por Deus, não é fácil de ser “alcançada” e entendida, e por isso se faz necessário o todo, o conjunto, a reunião, o debate, o confronto, o estudo de/com muitos; na comunhão eclesial, com o bom senso. Não conseguimos chegar à verdade sozinhos devido nossas limitações e imperfeições. Diferente de Cristo, todos seus seguidores, desde os apóstolos até nossos dias, tiveram que lutar muito para alcançar a verdade, entendê-la e absorvê-la. Chegar à verdade é uma luta diária e incessante. Logo aqueles que apenas reclamam, que criticam gratuitamente, são apenas mal dizentes que acham que têm a verdade só porque discordam por discordar, criticam por criticar, apontam defeitos sem mexer um “dedo sequer” (Mt 23:4). A verdade em nós é uma construção, ela não vem pronta de uma vez só! Cristo é a verdade, mas compreendê-la depende de tempo e esforço.

Muito menos acredito que os “humildizinhos” das religiões possuem a verdade. Muitos confundem humildade com autocomiseração. Pessoas que sofrem por diversos motivos tendem achar que são as únicas que sofrem, e porque sofrem acham que Deus as ilumina com a verdade simplesmente em função de seus sofrimentos. Isto é mentira! Ninguém é mais ou menos espiritual por causa do sofrimento, haja visto que muitos sofrem no mundo e continuam maus caráter. É verdade que o sofrimento pode nos ajudar a nos tornar humildes no sentido de admitirmos nossas limitações e nossa necessidade diante de Deus (e quem é que não sofre?). Mas Deus não concede ou encaminha alguém à verdade por causa do sofrimento, mas por causa da sua admissão diante dele (nossa confissão, postura, intenção em Deus). Logo, eu desconfio grandemente de pessoas que sofrem e usam do sofrimento como muleta. O apóstolo Paulo nos ensinou bem isto quando disse saber lidar tanto com o prazer quanto com o sofrimento. Paulo foi o mesmo homem independente da situação que passasse. Ele defendia a verdade, apenas isto. Não usava o sofrimento como desculpa, quando tratou sobre seu sofrimento foi para contrapor aqueles que diziam que ele, enquanto apóstolo, vivia em status, em boa vida, ou ao contrário, quando alguns se achavam os únicos sofredores enquanto ele supostamente nunca teria sofrido, portanto não seria merecedor da posição que detinha.

Bom, há muito outros grupos que poderiam ser citados que apregoam defender ou obter a verdade, enquanto querem viver uma vida sossegada, bem aceita, segura, confortável, de sucesso, etc., usando o conceito de verdade muito mais como marketing. Mas no fundo, todo ser humano é assim em alguma medida. Assim somos nós! No fundo sabemos que lidar com a verdade é um risco muito grande e que contrapõe esta vida de sucesso e regalias que tanto almejamos. 

Aqueles que querem mesmo ser líderes religiosos, devem ter em mente que pregar a verdade acima de tudo é assumir riscos diários. Aqueles jovens que querem seguir a verdade inevitavelmente terão que ser a exceção, e isto dói. Aqueles que batem no peito e contrariam tudo e a todos dizendo que falam a verdade, mas vivem recebendo tapinhas nas costas, devem ter em mente que perdem seu tempo e o dos outros vivendo na mentira.

Enfim, os que querem ser cristãos e não entendem sua vocação, vivem um cristianismo covarde, fraco, mirrado, limitado; pois ser cristão é ter que fazer escolhas todos os dias a todo instante, e muitas vezes, como foi com Abraão, ter que sacrificar aquilo é mais de precioso em nós: neste caso aqui do tema: a mentira. Sacrificar nossas mentiras, nossas ilusões, nossa falsidade, nosso “jeitinho brasileiro” é algo muito difícil; e eu e você sabemos disso. 
Você ainda quer ser verdadeiro? Pense nisto!

Att.

Fabiano Mina



julho 16, 2013

Somos uma sociedade PLACEBO! Talvez os que proclamam a cura sejam os doentes!


Nos enganamos em muitos sentidos, mas entre estes enganos um dos principais é achar que as pessoas "doentes" sãos as que mais, ou as únicas, que têm problemas. Que são aquelas que moram nas ruas, que são os viciados, os detentos, as prostitutas, os homossexuais, ou algum seguimento social neste sentido. Com isto não estou dizendo que estas pessoas não precisam dos nossos cuidados e olhar - e talvez elas sejam apenas consequência da maioria problemática da qual eu falarei logo abaixo. O que estou dizendo é que há enormes problemas em nosso meio - os que se acham sãos - tão graves quanto, mas passam despercebidos aos nossos olhos, de forma velada como se fossem problemas “normais”.

Dentre tantos problemas que poderia relatar aqui citarei alguns para nossa reflexão.

O que ocorre com aquele casal que possui filhos lindos, uma vida financeira bem sucedida, mas que não conseguem ser felizes? Por que mulheres lindas e/ou bem sucedidas na vida são tão solitárias e não conseguem pessoas para compartilhar uma vida a dois? O que acontece com jovens vistosos, bonitos, inteligentes, que a todo instante estão em depressão e muitas vezes pensam em tirar a própria vida? Por que pessoas que almejaram a vida inteira viver uma vida religiosa, casta, santa, hoje imploram para largar o sacerdócio como o diabo que foge da cruz? O que acontece com pessoas que dizem tanto servir a Deus (Cristo) e são tão odiosas? De onde vem tantas meninas mergulhadas em doenças físico-psicológicas, como a anorexia e a bulimia; e meninos mergulhados nos mesmos problemas, só que ao reverso, atrás da hipertrofia muscular, tendendo cada vez mais para a baixa estima? Como é que crianças mesmo com seus desejos cada vez mais atendidos por seus pais, parecem se tornar crianças piores e/ou menos obedientes do que aquelas que há tempos atrás tinham muito menos? De que maneira podemos entender o maior número de usuários de drogas e o aumento de doenças sexuais em pessoas de classe média, apesar destes grupos terem maior acesso à informação? Como a informática e a tecnologia em geral parece mais distanciar as pessoas de relacionamentos pessoais do que aproximá-las, uma vez que a intenção de criar a tecnologia seria de “facilitar” nossas vidas, logo os relacionamentos? Por que o consumismo é tão ovacionado mesmo em lugares onde a simplicidade e a frugalidade, como nas igrejas, deveriam ser a regra, causando tanta embriaguez financeira e psicológica em seus seguidores? De que forma nós, ainda que vivendo num mundo supostamente mais esclarecido, informado e conectado, não conseguimos trocar ideias, debatê-las, discuti-las e mesmo discordar com mais excelência e profundidade, em vez da atual superficialidade cada vez mais declarada na qual discutimos assuntos e questões, inclusive em lugares acadêmicos?

O fato é que dentro das casas de gente "sã", pessoas estão desfalecendo, estão depressivas e morrendo.  Nos círculos religiosos, membros e seguidores perdem cada vez mais a fé e a esperança em Deus (ou santos), quanto mais no amor. Nas empresas pessoas estão cada vez mais infelizes, ainda que ganhando mais. Nossos jovens se perdem cada vez mais, não apenas para drogas lícitas ou ilícitas, mas para a idolatria artística, para o falso glamour da moda, para a efemeridade do corpo bonito, para o imediatismo do consumo. Adultos perdem cada vez mais a autonomia, a autoridade, até mesmo a capacidade de amadurecimento que eles tanto advogam contra os mais jovens. Famílias não conseguem mais se definir como antes, parecem mais um amontoado de gente dentro de uma mesma casa. Casais cada vez menos sabem porque se tornaram um casal, ou porque continuar casados. Idosos não conseguem mais dar bons conselhos como antes. A mídia – a superficial, pois existe uma pequena parcela ainda boa – é quem parece nortear nossos interesses, nossos gostos, nossos objetivos de vida, como se fosse a verdade. Festas, baladas, shows, parecem cada vez mais agrupamentos de entorpecimento cerebral (inclusive de alguns religiosos), numa sociedade onde ninguém aguenta ficar a sós consigo mesmo, pois não sabem usufruir do ócio, e por isso muitos se escondem no meio dos grupos, das aglomerações, de gritos e uivos, da histeria coletiva.

Estamos nos enganando há tempos. O problema do viciado, da prostituta, do homossexual na verdade são clichês da sociedade moderna, usado para encobrir outros problemas ainda mais profundos. Pois o problema está exatamente em pessoas que se acham "sãs" só porque não são os tais viciados, porque não se prostituem, porque não possuem desejos homossexuais ou, para melhorar um pouco mais, o famigerado clichê: porque não matam nem roubam e são limpinhos. 
Vivemos numa sociedade cada vez mais doente, e a doença invadiu os lares ditos sãos, às igrejas sãs, as crianças e jovens sãos, aos adultos e idosos sãos. Para eu não ser tão pessimista, poucos talvez restam nesta sociedade, se não totalmente sãos, mas ainda sóbrios dentro de uma sociedade placebo. 

Talvez você esteja perguntando porque este seria o maior problema. Eu diria a você que em forma de uma analogia: se um sujeito qualquer com uma determinada doença procura por um médico, que também está com a mesma doença, porém este médico não sabe que está doente e não sabe o diagnóstico ou a cura desta doença comum aos dois. A diferença é que o sujeito doente pelo menos sabe que está doente, já o médico, que julga estar numa posição melhor do que a do doente que está consciente da sua doença; não procurará ajuda porque acha estar melhor do que o doente por ser médico.
Portanto, o médico está em uma situação pior do que a do doente que ele julga cuidar. É o "são" pior do que o próprio doente, só que ele ainda não sabe.

Ou seja, estamos numa sociedade cada vez mais doente, achando que doentes são apenas os outros, os dos referidos clichês sócio-econômico-espirituais. Quando na verdade esta sociedade é quem precisa mais de ajuda, e por isso não tem sido capaz de dar real auxílio a estes grupos que esta mesma sociedade estigmatiza.

Estamos nos enganando! Estamos doentes e não admitimos ou não sabemos, e talvez este seja o pior dos nossos problemas. Pense nisto!

Att.

Fabiano Mina


julho 02, 2013

Cansado de palestras, cursos de capacitação, pregações, empreendedorismo, gestão, etc.




Li uma frase um dia desses numa rede social – não vou lembrar agora de qual pensador – em que dizia que a maioria dos livros que lemos é ruim, mas não admitimos porque nosso ego não permite admitir que gastamos nosso tempo lendo uma coisa ruim, então elogiamos assim mesmo quando nos perguntam. Inclusive a leitura de pensadores clássicos e consagrados. E isto me fez lembrar de algumas situações que já vivi (e vivo), e por isso quero fazer uma reflexão acerca disto.

Primeiro devemos ter em mente que os grandes pensadores, os gênios, os diferenciados, não acertam a todo instante e não criam ou falam coisas boas a todo momento. Eles são gênios exatamente porque fazem coisas singulares, porém dificilmente repetidas, inclusive por eles mesmos. Mas temos a mania de caracterizar uma coisa boa não pelo que é seu conteúdo em si, mas pela personalidade que a cria. E assim achamos – nos enganamos – que tudo o que uma grande personalidade, seja da área que for, cria, fala, pensa ou ensina, é sempre boa. O que não é verdade!

Com base nisto, tenho visto cada vez mais chamadas de todos os tipos para vermos palestrantes, religiosos, educadores, coaching’s, etc., querendo ensinar supostamente suas habilidades, ideias, criações, para outros reles mortais (nós), e muitas vezes “compramos” estes cursos, palestras, eventos, muito mais pelas personalidades do que propriamente pelo conteúdo que elas nos oferecem. Sim! Muitos que estão ali, estão por mérito, porque em determinado momento de suas vidas fizeram por merecer. Mas há uma enorme diferença entre fazer algumas coisas boas, e fazê-las sempre. Muitas destas personalidades não fazem mais coisas boas, não escrevem mais coisas boas, não ensinam nada de novo; apenas usam seus nomes para continuarem perpetuando um suposto bom conteúdo, que de bom não tem nada (mesmo que elas mesmas acreditem nisto). É a história do livro ruim que compramos e não admitimos que é ruim só para não “passarmos carão”, e assim continuamos fazendo propaganda de "best seller's" que de best não tem nada. A prova disto? Vá nas livrarias e veja quais são os best seller's que temos hoje em dia em todos os seguimentos.

O fato é que não são apenas as personalidades desconhecidas que falam, escrevem, fazem coisas ruins (ao contrário, muitos desconhecidos fazem coisas bem melhores), mas os conhecidos também, e isto porque se acomodaram nos seus nomes, na fama, na posição que atingiram.

Isto serve para, se não todas, a maioria das profissões ou seguimentos. Ainda continuamos a eleger pessoas como boas não pelo conteúdo que elas continuam produzindo de bom (ou de ruim), mas pelo nome que fizeram, pela personalidade midiática que atingiram.
Estou cansado de ouvir o mesmo dos mesmos. Estou cansado de ver gente elogiando coisas ruim só pelo nome que fulano ou sicrano tem. Estou cansado de ouvir a mesma baléla, os mesmos discursos fajutos, as mesmas mensagens, os mesmos argumentos, as mesmas criações já antes criadas, as mesmas ideias já batidas. Raul Seixas não era um grande pensador no sentido lato do termo, mas com certeza proferiu um grande pensamento (já dito pelos gregos, pré-socráticos, há milhares de anos atrás) ao dizer que: “prefiro ser essa metamorfose ambulante; do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” 

Não estou falando de um relativismo aqui; estou falando de criatividade, de inovação, de conteúdo, de profundidade, de qualidade. E a única forma de permitir que estas coisas continuem existindo, se proliferando, é também admitir que mesmo os melhores falam bobagens, erram, empacam, são superficiais, falam sempre mais do mesmo. Só com algum senso crítico qualificado permitirá que coisa novas e os novos surjam. Pense nisto!

Att.
Fabiano Mina